segunda-feira, 6 julho, 2026 13:53
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Circulação de imagens de mortes expõe famílias e levanta debate sobre limites

de Redação Bonitonet
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A circulação de imagens de mortes violentas nas redes sociais e em aplicativos de mensagens tem ampliado o sofrimento de famílias e imposto novos desafios ao trabalho de peritos e policiais nos locais de crime. Em meio à tentativa de reforçar protocolos de proteção e isolamento das cenas, cresce a preocupação com um efeito paralelo e persistente: a transformação de tragédias em conteúdo de circulação rápida, muitas vezes antes mesmo de qualquer comunicação oficial às famílias.

O fenômeno se intensifica com a popularização dos celulares, que colocaram a câmera no centro da cena e alteraram a forma como a morte passa a ser registrada, compartilhada e consumida.

Entre os casos que ajudam a dimensionar esse impacto está o de Rhenan Matheus Oliveira Tosi, morto em 2021. Para reportagem, Massai Barduco Tosi, de 54 anos, pai dele relata que só teve contato direto com o filho já sem vida e que, naquele momento, não tinha compreensão sobre como havia sido o trabalho da perícia no local.

Massai afirma que parte do que soube depois veio por diferentes meios, incluindo a circulação de imagens do caso, que se espalharam nas redes sociais. Ao lembrar do episódio, ele descreve um processo marcado pela tentativa de transformar a dor em busca por responsabilização.

Em um dos momentos mais delicados do relato, ele afirma que a exposição do caso acabou servindo como forma de pressionar por justiça. “Eu queria provocar a justiça mesmo, para que ela seguisse e tivesse uma resposta. Eu tenho vídeos dele caído no chão. Isso foi usado para pressionar por condenação”, disse.

A psicóloga Raissa Ferreira define esse cenário como um processo de espetacularização da morte. Para ela, o problema não está apenas na curiosidade social, mas no impacto direto sobre quem enfrenta perdas violentas e abruptas. Nessas situações, o luto já nasce sob ruptura e desorganização emocional, e a exposição digital amplia esse sofrimento ao inserir novas camadas de dor.

Segundo ela, a circulação de imagens interfere inclusive na forma como a família compreende o que aconteceu. Em vez de receber informações de maneira mediada e cuidadosa, parentes muitas vezes são expostos a vídeos e fotos antes mesmo de qualquer comunicação oficial, o que agrava o choque inicial e dificulta a elaboração da perda. “A família já enfrenta uma morte inesperada, que dificulta o processo de elaboração. Quando isso chega pelas redes sociais antes da informação oficial, o sofrimento aumenta”, explica.

Raissa também aponta que há um componente coletivo nesse comportamento, ligado à forma como a sociedade consome imagens de violência. Para ela, existe um mecanismo psicológico de afastamento da própria finitude.

Quando a gente vê outra pessoa morrendo, cria uma fantasia de que isso não vai acontecer com a gente”, afirma.

Ainda assim, observa que o impacto inicial nas famílias costuma ser de revolta e não de aceitação. “A primeira reação é a revolta, a sensação de injustiça. A empatia pode surgir depois, mas exige elaboração do trauma.”.

No campo jurídico, o professor e advogado criminalista André Borges explica que o isolamento da cena de crime é uma atribuição do Estado desde os primeiros minutos após uma ocorrência. A Polícia Militar atua na contenção da área, enquanto a perícia técnica realiza o trabalho de coleta e análise dos vestígios.

Ele ressalta que o registro e a divulgação de imagens por terceiros não fazem parte desse processo e podem ferir a dignidade das vítimas e de seus familiares. Embora reconheça que a prática se tornou comum com o uso de celulares, afirma que isso não elimina o problema. “Hoje todo mundo tem uma câmera na mão. Isso é uma falta de respeito e uma ilegalidade”, diz.

Sobre o enquadramento jurídico dessas condutas, ele faz uma distinção. “É difícil caracterizar isso como crime. Eu diria que é um ilícito. Pode gerar responsabilização, mas chamar de crime pode ser um exagero.” Ainda assim, reforça um ponto ético central: “As pessoas precisam saber que não devem fazer com os outros o que não gostariam que fizessem com elas.”

Na prática pericial, a diretora do Instituto de Criminalística da Polícia Científica de Mato Grosso do Sul, perita criminal Karina Rébola, afirma que o aumento do perímetro de isolamento nas cenas de crime atende a critérios técnicos, mas também humanos. A ampliação da área de trabalho busca preservar vestígios e garantir segurança, mas também reduzir a exposição indevida da cena.

Karina relata que não são incomuns situações em que familiares chegam ao local já informados por vídeos que circularam na internet, o que intensifica o impacto emocional do momento. “Já atendi casos em que a mãe chegou no local sabendo pela internet que o filho tinha morrido”, afirma.

Para a perita, a orientação de não filmar ou divulgar imagens não é apenas uma questão operacional, mas de respeito à vítima e à família que permanece. “Aquilo ali não é conteúdo. É uma cena de crime.”

E a imprensa? 

É preciso olhar para as próprias publicações e para o desejo de exclusividade, alimentado pelo número de acessos que um vídeo impactante traz. Por isso, os entrevistados também ampliam o debate para a atuação da imprensa na cobertura de mortes violentas.

Para eles, a forma como imagens são divulgadas pode interferir diretamente no sofrimento das famílias e no próprio andamento do luto, especialmente quando registros de cenas de crime ou acidentes circulam sem contexto ou antes da comunicação oficial.

O professor e advogado criminalista André Borges afirma que a imprensa tem papel central na informação pública, mas também precisa observar limites éticos na exposição de vítimas.

Para ele, a divulgação de imagens em determinados contextos pode aprofundar a dor de familiares e gerar consequências que vão além da cobertura jornalística. “A imprensa tem enorme importância, mas também tem limites. Deve evitar expor pessoas acidentadas ou vítimas de forma que isso agrave ainda mais o sofrimento das famílias”, afirma.

Na mesma linha, a perita criminal Karina Rébulla destaca que a circulação dessas imagens impacta diretamente famílias em sofrimento e pode transformar um momento de trabalho técnico em uma experiência ainda mais sensível. “A família que vê depois aquela cena em rede social passa por uma violência muito grande. É uma agressão para quem já está vivendo um momento difícil”, diz.

Já a psicóloga Raissa Ferreira reforça que a repetição dessas imagens na mídia e nas redes sociais contribui para a chamada espetacularização da morte, o que intensifica o sofrimento de quem perdeu um familiar de forma violenta. “Quando isso chega repetidamente, não é mais um impacto único. Isso acompanha o processo de luto e pode reabrir a dor ao longo do tempo”, termina.

Fonte:Campo Grande News

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