Mineiro de Belo Horizonte, Bruno Wendling tem 38 anos e é especialista em ecoturismo com ênfase em planejamento e interpretação de áreas naturais pela Universidade Federal de Lavras (Ufla), localizada no Sul de Minas Gerais. Há nove anos, Wendling é presidente da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul (Fundtur-MS).
Hoje, Mato Grosso do Sul é um dos estados mais potentes na atividade turística, referência nacional em turismo responsável, inclusivo e LGBT+. É também citado frequentemente como um dos destinos mais sustentáveis do planeta. Wendling credita isso ao sucesso de políticas públicas contínuas.
Em abril, o turismólogo lançou o livro Design de Destinos (Editora Life), nele reúne suas experiências ao longo de 26 anos no setor. O guia é um instrumento técnico e estratégico para inspirar políticas públicas e novas formas de pensar o turismo como vetor de desenvolvimento.
Em entrevista com a reportagem, Bruno Wendling fala da nova blitz em São Paulo – que promove destinos como o Pantanal e a cidade de Bonito –, de parcerias público-privadas, de como qualificar a experiência do visitante, de sua gestão à frente do Fornatur, dos desafios do ecoturismo nas próximas décadas e da certificação de Bonito como o primeiro destino de ecoturismo do mundo certificado como “Carbono Neutro”.
A Fundtur realizou na semana passada, em São Paulo, a blitz Mato Grosso do Sul: Especial por Natureza. Essas blitze pretendem percorrer o país e chegar a destinos emissores como Minas Gerais?
Por enquanto só em São Paulo. Foi a segunda edição que a gente fez o road show de Mato Grosso do Sul. Tínhamos feito há dois anos, a primeira edição tinha sido só um dia de evento no Museu da Casa Brasileira e este ano estendemos um pouco mais a ação. Agora temos voo direto de Belo Horizonte para Campo Grande e também uma ação conjunta com a Azul Viagens. Pode ter possibilidade de uma ação parecida em Minas Gerais, mas não da envergadura e do tamanho que foi em São Paulo.
“Eu gosto da ideia de fazer as blitze e estamos estudando uma ação com Minas especificamente por conta do voo”.
Qual é a posição de Minas no ranking de emissão de turistas para Mato Grosso do Sul?
Minas Gerais está entre os primeiros cinco emissores, em terceiro, quarto ou quinto. O primeiro é sempre São Paulo, depois Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, que ficam mudando de posição a cada ano.
Mato Grosso do Sul é conhecido por destinos como Pantanal e Bonito. Há algum outro destino no estado ou a ideia é concentrar a promoção nesses que já são ícones do turismo no estado?
A gente sempre entende que Pantanal e Bonito são a nossa vitrine e estamos fortalecendo esse posicionamento. Internamente, nós temos trabalhado no desenvolvimento de novas regiões há quase 10 anos, promovendo-as com calma no mercado regional. Temos a campanha chamada “Mato Grosso do Sul: Meu Estado, Meu Destino”, focado no público sul- mato-grossense. Tem alguns que já vendemos em doses homeopáticas lançando um mercado nacional:
- A própria capital Campo Grande com o Bioparque Pantanal;
- Apostamos muito na região Norte, onde está a cidade de Costa Rica e o Parque Nacional das Emas, na divisa com Goiás;
- Há também um parque que precisa de maior estrutura no entorno, o Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, na borda com o Paraná, no sudeste do estado, com um baita potencial, mas onde ainda falta adensamento empresarial;
- Além disso, tem a pesca esportiva em diversos lugares, como Três Lagoas, no Rio Paraná, onde tem hoje o maior campeonato de pesca esportiva do Brasil;
- E Ponta Porã para compras, que é um destino conhecido dentro e fora do estado, com voo direto de Campinas. É um bom destino para compras, pois o Paraguai fica logo ali do lado.
Como temos muito para crescer de forma responsável no circuito Campo Grande/Pantanal/Bonito, com várias cidades envolvidas, estamos buscando fortalecer cada vez mais essa rota. Depois outros destinos vão aparecer em nível nacional também.
Você deu uma entrevista dizendo que precisa romper a barreira dos 300 mil turistas em Bonito. Como fazer isso sem tornar o destino alvo do turismo de massa?
Nós temos uma caraterística do destino que até a capacidade de carga definida é controlada. Então, olhando mês após mês, a gente consegue enxergar onde tem baixa temporada ainda. Bonito tem mais meses com boa visitação, sem comprometer a taxa de ocupação. Por exemplo, junho é um mês de baixa temporada. A baixa temporada ocorre nos meses de março, abril, junho, setembro e outubro. Nossa alta temporada normalmente é nas férias e feriados, então conseguimos aumentar o fluxo fazendo a estratégia de ocupar essa baixa temporada e sem ultrapassar o limite de carga dos atrativos.
“Tem como crescer o fluxo de Bonito sem comprometer a questão ambiental. São ao menos 40 atrativos na região”.

Você está há nove anos à frente da Fundtur. Temos eleições este ano. A continuidade de gestão é importante para um destino turístico?
A continuidade da política pública é bem importante, mais do que uma pessoa – e eu sou uma exceção à regra, porque estou há quase dez anos na Fundtur – nós temos que trabalhar para a continuidade da política pública. Mesmo o Riedel (Eduardo) continuando governador, ele pode encerrar com a minha gestão.
A política pública que foi implementada hoje no estado precisa continuar, porque fortalece o Conselho Estadual de Turismo que criamos com lideranças privadas. As nove regiões também têm as suas associações com liderança do privado. Hoje, o time da fundação entendeu qual é a lógica do planejamento de longo prazo, com ações de cursos e ciclos anuais de gestão.
“Eu tenho uma boa expectativa com a minha saída quando ela acontecer, se for daqui a quatro anos, que haja uma continuidade da política pública que vem dando resultados no estado e hoje se tornou referência nacional em gestão”.
A parceria público-privada tem funcionado bem em Mato Grosso do Sul?
O empresariado entendeu essa lógica de trabalhar a governança de um destino, que não basta somente ficar olhando para sua empresa de forma individual. Esse formato de empoderar o setor privado na liderança do Conselho Estadual de Turismo, nas instâncias regionais, de eles tomando decisões com a gente repassando os recursos, eles entenderam essa lógica como positiva. Também temos uma parceria muito saudável entre poder público, iniciativa privada, terceiro setor, Sebrae, Senac e várias outras instituições”.
“Hoje eu posso afirmar com tranquilidade que o trade é totalmente parceiro da política pública do estado, porque eles enxergaram resultados, o estado ganhou posicionamento, visibilidade e, os números, de forma qualitativa, cresceram”.

Você lançou recentemente o livro Design de Destinos. Sobre o que fala a obra? E como tornar destinos mais competitivos e inovadores?
Essa obra, na verdade, é muito da experiência que eu vivi nos últimos 26 anos como turismólogo, mas com o recorte dessa última década. Ao invés de pegar um conceito teórico do nada, eu parti de uma estratégia que vem dando certo há uma década e criei um conceito a partir de uma prática de gestão de destinos.
“Eu gosto de falar que eu não faço gestão pública, mas gestão do destino, um conceito que é um modelo mais orgânico. Pensar na gestão de destinos turísticos, focando em governança, na inovação, no planejamento, na promoção, no apoio e na comercialização, na tecnologia”.
É um conceito que propõe fazer uma gestão mais orgânica, sem uma sequência exatamente lógica de que devo fazer isso primeiro, segundo, terceiro, até porque a vida é dinâmica. É um conceito que acompanha um pouco essa dinâmica do que é um gestor de um destino público ou privado, mas pensando no território de forma conjunta.
O livro é mais prático ou teórico.? Os destinos podem adotar esse conceito na prática?
O livro serve para qualquer destino brasileiro ou internacional. É uma prática que gerou um conceito de design de destino, eu desenhei um destino turístico. É um case manual que você pode aplicar por meio de exemplos no seu destino, é uma forma de questionar mesmo como é essa dinâmica de gerir um destino turístico, de continuidade, do privado à frente do processo, estratégico de mercado, segmentação.
Como qualificar o visitante e melhorar sua experiência sem massificar esse turismo? Hoje uma grande discussão no mundo é o overturismo.
O overturismo – impacto negativo do turismo exacerbado em certa localidade – está acontecendo de maneira muito mais forte fora do Brasil. O Brasil ainda é novo no turismo se compararmos com Barcelona, onde o turismo de massa é muito grave.
“A gente melhora a experiência do turista com a segmentação. Se você não definir seu posicionamento de mercado, naturalmente você vai ter todos os tipos de turistas. Isso acontece muito mais no Brasil no segmento sol e praia”.
Se você analisar Porto Seguro, Porto de Galinhas, Salvador e outros destinos litorâneos, o alcance do overturismo é devido à falta de ordenamento territorial. Enfrentei isso quando fui secretário de turismo de Morro de São Paulo”. A falta de segmentação das ofertas e das demandas. Se você não comunica bem qual é a sua oferta, naturalmente você vai ter uma demanda em desacordo com isso. Canoa Quebrada e Jericoacoara estão bem complicados. O overturismo da Europa não tem solução, não há como brecar o aumento de turistas pelo direito de ir e vir.
Bonito está entrando em seu terceiro ciclo de certificação como destino de ecoturismo carbono neutro? Tem palavrinhas novas no turismo que vieram para ficar: sustentabilidade, inclusão, ESG, carbono zero. Tem mais alguma?
Todo mundo está falando muito, com isso, há mais interesse do que prática. Eu nem gosto de usar a palavra turismo sustentável, que é uma utopia, prefiro falar em turismo responsável, que é mais uma ação para gente. Sobre o carbono neutro, as pessoas estão começando a entender agora. A agenda climática e a emissão de carbono são os principais desafios que a gente precisa combater.
“A certificação de Bonito é justamente para chamar atenção para uma série de coisas que temos que fazer, mas vamos nos concentrar no primeiro ponto que é o mais importante, a questão do carbono. Existe um método que a gente pode medir para, a partir disso, ter ações para reduzir. Tanto é que Bonito já está no terceiro ciclo e já houve uma queda de 5% nas emissões de carbono”.
Neutralizar é algo mais complexo. Para neutralizar, você compra crédito de carbono, aumento das atividades de floresta, regenerativo, mas o grande desafio da humanidade é a redução”.
Como reduzir a pegada de carbono no turismo a partir da sua cidade? Na Europa, os europeus estão parando de usar aviões para viajar, mas essa é uma dinâmica, onde eles podem se deslocar de um país para outro de trem, de carro elétrico, de bicicleta, diferente de nós na América do Sul. Você tem que cuidar de seu território. Os atrativos têm trabalhado o tema do carbono negativo, como o Grupo Rio da Prata. E o problema do lixo mesmo, tem aumentado o número de empreendimentos procurando certificar o lixo zero.
O turismo de natureza cresceu muito no período pós-pandemia. Quais desafios os destinos de ecoturismo têm pela frente?
Um dos desafios é adequar esse crescimento à estrutura que oferece o atrativo e à experiência do turista. Você como ecoturista, quando procura atividades externas, em meio natureza, primeiro quer ter pequenos grupos, ter mil pessoas numa trilha como está acontecendo no Everest. Esse não é um tipo de atividade outdoor.
“O controle da capacidade de carga versus o crescimento da atividade é um grande desafio e, para mim, o sistema de gestão de segurança”.
Você viu a reportagem no “Fantástico” sobre o caso dos italianos que morreram na caverna junto com uma matéria sobre a chamada “Lagoa Misteriosa”, um atrativo nosso. Temos que continuar a ter atividades de aventura seguras para melhor idade, família, turismo acessível e outros desafios.Também é importante crescer o turismo de acessibilidade para os atrativos de aventura.
Eu fiquei surpreso quando o presidente da Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil me disse que Mato Grosso do Sul é um dos estados mais avançados na legislação e no atendimento a esse público. Fale um pouco sobre isso.
Eu vou ser bem direto e sincero: em 2019 eu conheci o Alex (Bernardes), organizador do Fórum LGBT+, quem me despertou esse olhar para o segmento. Ao mesmo tempo, ouvi uma fala infeliz e complicada do nosso ex-presidente (Jair Bolsonaro fez essa declaração em abril de 2019 em um café para jornalistas no Palácio do Planalto), de que o Brasil não é um país do turismo gay, e nesse momento eu me senti desafiado e falei: “é, sim”.
Eu vi que tinha uma posição totalmente fora da casinha e enxerguei que outros estados, ao contrário, começaram a recuar nesse posicionamento. Por questões deles, de ideologia, de falta de estratégia, de falta de planejamento. Santa Catarina, tinha, há anos, um programa LGBT+ super legal e abandonou. Houve uma oportunidade de ser resistência e de entender que era um baita mercado. Nós trouxemos o Alex, fizemos sensibilização, capacitação do trade – que respondeu de forma positiva.
“Essa história começou há sete anos, nós somos gay friendly de verdade, não é “oba oba”, somos validados pelo público. Ele fez campanha, marcou nova campanha, patrocínio dos principais eventos e está aí o resultado sete anos depois como uma política pública que veio para ficar. O estado tem uma subsecretaria para atender o turista LGBT+, tem lei”.

Bioparque Pantanal. em Campo Grande – Foto: Bruno Rezende / Divulgação
Você foi presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo (Fornatur) de 2020 a 2023. Qual é o legado que você deixou como presidente da Fornatur?
O Fornatur deve ser um espaço de construção de políticas públicas de forma coletiva. O legado que eu deixei foi de profissionalizar o fórum como espaço para participar dos debates, para construir com outras entidades. Eu ocupei o Fornatur na época da pandemia, surgiu um movimento chamado Supera Turismo, que só tinha privado.
Eu comecei a mostrar para eles que havia gestão profissional, nós ocupamos um espaço super legal, que o meu sucessor, o Fabrício (Amaral, secretário de Turismo de Goiás), continuou meu trabalho. Hoje a Fornatur tem uma figura jurídica e recursos. Nós representamos destinos, não é um espaço de poder, mas para poder fazer.
Como você avalia a gestão do Marcelo Freixo à frente da Embratur? Como ele tem ajudado Mato Grosso do Sul a se promover no mercado internacional?
A Embratur nos ajudou bastante e nós também ajudamos eles. No governo passado, a Embratur ficou fora da cena internacional e o Mato Grosso do Sul acabou ocupando esse espaço e representando o Brasil no maior evento de turismo do mundo, o Adventure Travel Trade Association, da Atta, participando de reuniões de ministros da América Latina. Eu ocupei esse espaço solitário quando a Embratur não tinha um gestor à altura. Q
Quando a Embratur volta à vida com o Freixo, o Bruno Giovanni Reis. Em uma Embratur forte, um Brasil forte, ajuda o turismo a funcionar melhor, a mostrar nossa marca, ter espaços em eventos que tínhamos perdido. O Plano Brasis é uma estratégia a nível internacional, é uma parceria bem saudável. Foi o primeiro estado a fazer um convênio com a Embratur para potencializar a promoção do estado no mercado espanhol. Eu tenho uma preocupação muito grande com a descontinuidade com o próximo governo.
Mato Grosso do Sul recebeu o prêmio de destino do site Mercado & Eventos e se destacou no Prêmio Nacional de Turismo como Melhor Destino de Promoção Internacional. Qual é a importância disso para o estado?
Esses prêmios estão, de fato, reconhecendo a consistência do nosso trabalho. A estratégia que o estado tem adotado nos últimos anos e os resultados do prêmio da Embratur como Melhor Destino de Promoção Internacional legitima nosso trabalho, alguns prêmios validam o trabalho e aumentam nossa visibilidade, empolga nossa equipe.
Quantos turistas estrangeiros Mato Grosso do Sul recebe atualmente?
Recebemos algo em torno de 100 mil turistas internacionais por ano, especialmente paraguaios, bolivianos, norte-americanos e europeus. Nos últimos três anos, estivemos entre os sete estados que mais receberam turistas estrangeiros. Somos um estado com cerca de 2 milhões e meio de pessoas, não temos praia.
E o que falta para crescer mais em turistas estrangeiros? Conectividade?
Já estamos aumentando a oferta de novos hotéis no Pantanal, Bonito também conta com um público mais qualificado. Claro que se eu tiver um pouco mais de voos, aumenta o volume, mas eu sou bem atendido, estamos conectados por Brasília, Belo Horizonte, São Paulo e Campinas. Nossa oferta tem que ser mais qualificada para atingir um tipo de público que ainda não alcançamos.
Só agora descobri que você é mineiro.
“Eu nasci em BH. Descobri o turismo por conta de Minas Gerais”.
Eu estudei na PUC Minas nos anos 1990. Percorri Minas Gerais: o Pico da Bandeira, o Caraça, a Serra da Canastra, o Ibitipoca. Tive uma operadora de turismo na rua Grão Mogol, no Carmo-Sion. Eu sou operador de turismo por conta de Minas Gerais, que abriu minha mente. Depois eu vim para Mato Grosso do Sul.
Se você tivesse que indicar para o sul-mato-grossense um destino de Minas Gerais, qual seria?
Gosto de tudo, mas especialmente a Serra do Cipó, a Cachoeira do Tabuleiro, Tiradentes, Serra da Canastra e a Casca d’Anta e Ibitipoca, os meus destinos preferidos.
Minas Gerais enfim se assumiu como destino gastronômico. Mato Grosso do Sul também divulga sua gastronomia?
Em 2022, nós lançamos com o Paulo Machado a Rota Gastronômica Pantaneira em feiras internacionais não para servir a comida, como Minas Gerais faz muito bem. A gente levava a culinária no contexto de um produto turístico do Pantanal como forma de contar sobre a cultura pantaneira.
Hoje, somos um pouco mais reconhecidos pela gastronomia pantaneira. No B2B, os operadores já começam a reconhecer e vender nossa gastronomia. Nossa estratégia é trabalhar com um produto agregado. Nós estamos distante de Minas, que já começou isso há décadas, mas conseguimos dar uma impulsionada. O Pantanal tem uma gastronomia potente.
Fonte:Otempo