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Do Pantanal a Davos: Onçafari cresce, ganha prêmio global e mira captação internacional para ampliar conservação no Brasil

de Redação Bonitonet
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Em 2011, o ex-piloto de corridas Mario Haberfeld deu início às atividades de ecoturismo da ONG Onçafari na pousada Caiman, no Pantanal. Inspirado nos safáris que viu na África, introduziu o modelo de habituar os felinos – no caso do Brasil, as onças-pintadas – aos veículos com turistas hospedados no refúgio ecológico em Miranda, no Mato Grosso do Sul. “Achavam que a gente era maluco, que aquele negócio não daria certo”, recorda.

Quinze anos depois, o fundador e CEO do Onçafari foi o único brasileiro premiado como empreendedor social na edição deste ano do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. No último dia 20/1, Haberfeld recebeu o prêmio da Fundação Schwab junto com outros 20 líderes globais nas áreas de inovação e empreendedorismo social.

Ao longo de sua trajetória, o Onçafari expandiu suas atividades para áreas como ciência, educação, reintrodução de espécies na natureza, combate a incêndios, social e advocacy. Hoje a ONG possui 17 bases espalhadas por quatro biomas (Pantanal, Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica) e atua na proteção de mais de 30 espécies ameaçadas de extinção. A organização já beneficiou mais de 5.900 pessoas por meio de programas sociais e de educação e, em 2025, arrecadou US$ 13 milhões para a criação de corredores ecológicos.

Do Equador, onde estava de férias, Haberfeld conversou com Um Só Planeta sobre a importância da premiação em Davos e o atual foco do Onçafari em captar recursos no exterior para ampliar a atuação no Brasil e no resto da América do Sul.

Premiado em Davos, fundador do Onçafari aposta em doações internacionais para expandir corredores ecológicos. — Foto: Onçafari/Divulgação
Premiado em Davos, fundador do Onçafari aposta em doações internacionais para expandir corredores ecológicos. — Foto: Onçafari/Divulgação

UM SÓ PLANETA – Nesses 15 anos de trajetória, quais foram as principais inovações que Onçafari trouxe para a área de conservação ambiental no Brasil?

MARIO HABERFELD – Começamos inovando com o ecoturismo de onça pintada, fazendo habituação [dos animais a veículos com turistas], isso não existia. Cinco anos depois da nossa fundação, conseguimos reintroduzir onças pintadas na natureza com sucesso. Foi a primeira vez que isso aconteceu no mundo. Hoje o maior impacto do Onçafari é por meio da compra de terras e da criação de grandes corredores ecológicos, no que a gente chama de frente de florestas.

Como funciona essa frente de florestas?

Em 2019, começamos a comprar terras para preservação e para desenvolvê-las sustentavelmente. Normalmente são áreas preservadas, que estão sob algum tipo de ameaça, como desmatamento, e que estão localizadas em áreas estratég2icas. Eu brinco que parece um jogo de War: olhamos para o mapa e buscamos as terras mais adequadas para se formar novos corredores ecológicos.

Poderia dar um exemplo?

O melhor exemplo é a Reserva Santa Sofia, vizinha do Refúgio Ecológico Caiman, na região de Miranda, no Mato Grosso do Sul. É uma área de 35 mil hectares, 99% preservada, que havia sido colocada à venda. Um grande pecuarista da região tinha intenção de comprá-la e desmatá-la. Para evitar que isso acontecesse, o Onçafari fez uma campanha para arrecadar recursos, comprou a terra e formou uma aliança chamada 5P (Pantanal, preservação, parcerias, pecuária, produtividade) com outros empresários e fazendeiros vizinhos que compartilham da mesma consciência ambiental. Conectadas, as terras da 5P formam um corredor ecológico de 430 mil hectares. O objetivo dessa aliança é promover o desenvolvimento sustentável da região.

Refúgio Ecológico Caiman, na região de Miranda, no Mato Grosso do Sul. — Foto: Eduardo Fragoso/Divulgação
Refúgio Ecológico Caiman, na região de Miranda, no Mato Grosso do Sul. — Foto: Eduardo Fragoso/Divulgação

Em todo o Brasil, qual foi o impacto da criação desses corredores ecológicos até agora?

Hoje temos cerca de 150 mil hectares de terras próprias no Pantanal e na Amazônia, uma área equivalente ao tamanho da cidade de São Paulo. Juntando os corredores que a gente faz, o impacto é de mais de 2,6 milhões de hectares preservados no país.

De onde vem o financiamento para essas ações do Onçafari?

Temos parceria para tudo o que fazemos. Nossos carros são fornecidos pela Land Rover; os pneus são da Goodyear; os uniformes, da The North Face; as passagens aéreas, da United Airlines; a parte de advogados é do escritório Pinheiro Neto. Quando a ONG completou 10 anos, a Land Rover lançou uma versão Onçafari do Defender, e esse modelo foi vendido nas concessionárias. Parte do dinheiro das vendas veio para nós. Além dessas parcerias, outras fontes de recursos são os projetos de ecoturismo e consultoria.

De onde vem os recursos para a compra de terras?

Aí fazemos campanhas específicas. Até três anos atrás, 99% dos recursos vinham de pessoas físicas do Brasil, que doavam para comprarmos terras e criarmos os corredores ecológicos. Hoje eu diria que 50% são do Brasil, mas os outros 50% vêm de grandes fundações de fora do país. Temos uma pessoa morando em Nova York, que toca o Onçafari internacional. Começamos a focar bastante nesse mercado de fora, para conseguirmos aumentar o nosso impacto.

Quem são os principais doadores internacionais?

A Rainforest Trust, a Bobolink Foundation e a Wyss Foundation.

Terra Indígena Perigara, localizada no Pantanal de Mato Grosso. — Foto: Mario Haberfeld
Terra Indígena Perigara, localizada no Pantanal de Mato Grosso. — Foto: Mario Haberfeld

O que uma premiação como essa, no Fórum Econômico Mundial, significa para a expansão internacional do Onçafari?

A gente pega um atalho na construção de uma confiança internacional. Uma coisa é eu no Brasil falar: “Sou Mário, do Onçafari”. Talvez alguém já tenha ouvido falar de mim ou da nossa ONG. Agora, nos Estados Unidos, o cara não tem a menor ideia de quem somos. Para ser premiado pela Fundação Schwab, é preciso passar por um processo gigantesco de verificação e checagem. Então isso dá um selo internacional de que estamos fazendo a coisa certa.

Que outros benefícios essa premiação prevê?

Nos próximos dois anos, sou convidado a participar do encontro da Fundação Schwab, em Davos. É uma rede global de 510 empreendedores que já ganharam esse prêmio e tentam se ajudar. Você sempre fica sabendo de alguém que faz a mesma coisa e vai conhecendo as pessoas, fazendo contatos. Também vou fazer um curso em Harvard voltado para os inovadores sociais premiados pela fundação.

O que é o projeto Jaguar Rivers, que vocês anunciaram na Semana do Clima em Nova York em setembro do ano passado?

É uma iniciativa de formar corredores de vida selvagem, mas ultrapassando as fronteiras do Brasil. Temos parceiros na Argentina, na Bolívia e no Paraguai, tentando conectar diferentes áreas através dos cinco principais rios da bacia do rio Paraná. Na Argentina, por exemplo, trabalhamos com a Rewilding Argentina. Na Bolívia, nossa parceira é a Nativa. Fazemos intercâmbio de conhecimento e estamos unindo esforços, por exemplo, para o combate aos incêndios. Cada organização coordena os esforços em seu país, mas é importante falar que o Jaguar Rivers não é um projeto só do Onçafari no Brasil. A gente coordena, mas podemos ter outras instituições, ONGs, governos, o que for, trabalhando junto com a gente.

Onça pintada no Onçafari, em MT. — Foto: Pedro Reali/Divulgação
Onça pintada no Onçafari, em MT. — Foto: Pedro Reali/Divulgação

Quais são os planos do Onçafari para os próximos 15 anos?

Esse projeto do Jaguar Rivers é um foco grande que a gente tem. Queremos impactar uma área gigantesca, equivalente a quase duas vezes o Alasca. Para isso, temos que seguir nosso planejamento e ver estrategicamente quais áreas comprar e preservar para que esse corredor realmente seja funcional. Fora isso, é continuar crescendo no ecoturismo no Brasil, talvez para outras espécies e até outros biomas. E cada vez mais teremos que nos preocupar com o problema dos incêndios, porque esse é o maior risco hoje em dia, principalmente no Pantanal.

De um dia para o outro, o fogo queima milhares de hectares. Acho que todos os incêndios que aconteceram no Pantanal no ano passado foram causados pelo homem, mas nenhum foi intencional. Por exemplo, um cara foi pegar mel de abelha. Ele colocou fogo na colmeia, perdeu o controle e o fogo acabou queimando 400 mil hectares de área. O cara fez isso provavelmente a vida inteira, só que o Pantanal era mais úmido antes. Hoje tem essa seca e não dá para continuar fazendo desse jeito. Então é necessário fazer um trabalho de prevenção e conscientização.

Quando você fundou o Onçafari em 2011, imaginava que a ONG atingiria a dimensão que tem hoje?

Sinceramente, quando comecei o negócio do safári, de habituar a onça pintada aos carros com turistas, a ideia era simplesmente fazer dar certo na Caiman e, quem sabe, expandir para algum outro lugar. Aí as coisas foram acontecendo, fizemos uma frente de ciência, depois de combate aos incêndios. Aí vimos que poderíamos ter um impacto maior criando os corredores ecológicos. O que eu acho legal do Onçafari é isso: a gente vai fazendo. Tem uma frase que o [ambientalista e filantropo norte-americano] Douglas Tompkins dizia, que é assim: “Faz e depois vê como dá certo”. Eu acredito muito nisso, porque, se você fica pensando em tudo que pode dar errado, nem sai de casa.

Fonte:Oplaneta

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