Nos últimos anos, os drones comerciais transformaram capacidades antes associadas principalmente a forças militares avançadas em ferramentas acessíveis que estão redefinindo a segurança na América Latina. A redução dos custos de desenvolvimento, a rápida difusão tecnológica e a crescente militarização dos drones comerciais por atores não estatais transformaram essas plataformas em elementos-chave para a segurança e a defesa na região.
De acordo com o relatório em duas partes, Cielos en disputa, elaborado pela Universidade Internacional da Flórida (FIU) e pelo Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM), os drones se tornaram ferramentas utilizadas tanto por governos quanto por organizações criminosas. O relatório alerta que os drones comerciais estão revolucionando as atividades ilícitas, permitindo tarefas como vigilância, transporte de drogas e até ataques com explosivos. “Essas tecnologias, juntamente com as criptomoedas, estão facilitando operações mais sofisticadas e difíceis de rastrear”, destaca o relatório.
Em toda a região, as forças armadas incorporaram drones a missões de inteligência, vigilância, segurança de fronteiras e combate ao tráfico de drogas. Ao mesmo tempo, setores civis como agricultura e logística registram um crescimento significativo em seu uso, demonstrando a versatilidade dessas ferramentas. No entanto, a crescente utilização de drones por organizações criminosas preocupa autoridades e analistas de segurança. Segundo o relatório da FIU, ao longo da última década, tecnologias de baixo custo, como os drones, transformaram as táticas de cartéis e grupos criminosos, reduzindo barreiras operacionais e enfraquecendo o controle estatal sobre o espaço aéreo e os sistemas financeiros.
Analistas alertam que grupos como o Cartel Jalisco Nova Geração no México, o Primeiro Comando da Capital no Brasil e outras organizações criminosas vem incorporando cada vez mais tecnologias de dupla utilização às suas operações.
Jean Paul Pinto, especialista equatoriano em segurança internacional, explicou à Diálogo: “Na região andina, grandes organizações criminosas já empregam drones para fins ofensivos. As dissidências das FARC na Colômbia, por exemplo, os utilizam contra forças convencionais, assim como o Clã do Golfo. No Equador, grupos como Los Lobos e Los Choneros protagonizaram ataques com drones em prisões de segurança máxima”.

Um dos exemplos mais recentes e letais ocorreu em abril de 2026, quando um ataque com drones atribuído ao grupo armado colombiano Comandos de la Frontera deixou três soldados mortos e dois feridos perto da fronteira com o Equador, informou a AP. As autoridades colombianas afirmam que grupos armados e organizações criminosas recorrem cada vez mais a drones comerciais modificados para transportar explosivos em ataques contra forças de segurança e grupos rivais.
O uso crescente de drones armados tornou-se uma importante preocupação de segurança na Colômbia. De acordo com a Anadolu Agency, as autoridades colombianas registraram mais de 8000 ataques com drones em 2025, perpetrados por grupos guerrilheiros e organizações criminosas, refletindo uma importante mudança tática no conflito interno do país. Autoridades colombianas apontam que grupos como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e facções dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) têm adaptado cada vez mais drones comerciais para transportar artefatos explosivos improvisados. Analistas de segurança afirmam que a Colômbia se tornou um dos principais laboratórios da região, onde grupos criminosos utilizam cada vez mais sistemas comerciais adaptados para lançar explosivos, realizar missões de reconhecimento e apoiar seus esforços de controle territorial.
O Equador também registrou incidentes relacionados ao uso de drones pelo crime organizado, particularmente dentro do sistema penitenciário. A imprensa equatoriana informou, em março de 2026, que a polícia interceptou um drone carregado com explosivos que se dirigia ao Centro de Prisão El Oro nº 1, em Machala. O incidente soma-se a outros casos registrados em prisões do país, incluindo um episódio ocorrido em 2023 na penitenciária de La Roca, em Guayaquil, onde as autoridades neutralizaram um drone carregado com explosivos antes que atingisse a instalação.
Miguel Navarro, analista internacional chileno, destacou à Diálogo que a acessibilidade dessa tecnologia representa um desafio crescente para a segurança pública. “A tecnologia dos drones está ao alcance de praticamente qualquer pessoa, o que facilita seu uso em larga escala, inclusive para fins criminosos.”
Nesse contexto, os especialistas concordam que a cooperação internacional é essencial para enfrentar essa ameaça. Pinto afirma que os países devem trabalhar conjuntamente para desenvolver tecnologias antidrones de baixo custo e aprimorar a coordenação regulatória. “O que ocorre entre o Reino Unido e a Ucrânia é um exemplo claro: enquanto os britânicos treinam os ucranianos, também aprendem com sua experiência prática no uso de drones para vigilância e ataque”, observou.
Regulamentação e cooperação: adaptação diante da ameaça dos drones
Os governos da América Latina estão passando cada vez mais de uma abordagem regulatória tradicional para estratégias operacionais antidrones, à medida que grupos armados e organizações criminosas ampliam o uso de sistemas não tripulados.
A Colômbia tornou-se um dos exemplos mais claros dessa transição. Após o forte aumento de ataques com drones comerciais adaptados para transportar explosivos, o governo colombiano anunciou, em janeiro de 2026, uma iniciativa nacional antidrones de R$ 8,4672 bilhões destinada a fortalecer a capacidade do país de detectar, rastrear e neutralizar ameaças aéreas não tripuladas. O projeto inclui a aquisição de sistemas antidrones, o reforço da proteção de unidades militares posicionadas em zonas de conflito e a criação de capacidades operacionais especializadas voltadas para a guerra com drones.
O governo colombiano também endureceu as restrições à importação de drones, enquanto as forças de segurança enfrentam ataques cada vez mais sofisticados realizados com tecnologia disponível no mercado. Analistas alertam que os grupos armados estão se adaptando rapidamente, incorporando táticas observadas em conflitos como o da Ucrânia ao ambiente de segurança interna colombiano.
O Equador também reforçou sua resposta diante do crescente uso criminoso de drones como parte da campanha governamental contra o crime organizado transnacional. As autoridades ampliaram as operações militares e policiais em torno de prisões e infraestruturas estratégicas após múltiplos incidentes envolvendo drones utilizados para transportar contrabando ou explosivos. As autoridades de segurança consideram cada vez mais esses sistemas não tripulados parte do arsenal operacional de organizações criminosas como Los Lobos e Los Choneros, especialmente no sistema penitenciário do país.
Especialistas apontam que a rápida expansão de tecnologias de baixo custo está obrigando os países da região a repensar os modelos tradicionais de segurança. Além de atualizar as regulamentações aeronáuticas, os governos investem cada vez mais em sistemas antidrones, capacidades de guerra eletrônica, monitoramento do espaço aéreo e treinamento especializado para enfrentar ameaças que evoluem mais rapidamente do que as estruturas convencionais de segurança.
No Chile, a Direção Geral de Aeronáutica Civil (DGAC) alertou para os riscos associados a essa tecnologia e estabeleceu alianças estratégicas com organismos internacionais, como a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), a Comissão Latino-Americana de Aviação Civil (CLAC) e a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA).
“Com essas entidades, são compartilhadas normas, critérios técnicos e lições aprendidas, para acompanhar tendências emergentes, avançar na harmonização regulatória e trocar informações técnicas e operacionais, especialmente em relação a incidentes e riscos”, informou a DGAC ao Diálogo.
A Argentina também avançou na modernização de suas regulamentações sobre drones. A Administração Nacional de Aviação Civil (ANAC) aprovou um novo marco regulatório voltado para integrar de forma mais segura e eficiente o uso civil, comercial e científico de drones ao sistema aeronáutico nacional, em conformidade com os padrões internacionais.
A rápida expansão do uso de drones na região apresenta desafios para governos e forças de segurança, mas também abre oportunidades para fortalecer as capacidades de vigilância e operação tanto em áreas urbanas quanto rurais. Nas palavras de Pinto: “Essas ferramentas podem ser muito úteis para operações de vigilância sem a necessidade de mobilizar grandes contingentes humanos. No entanto, o sucesso depende da capacidade dos países de se adaptarem a essa ameaça dinâmica e manterem uma regulamentação eficaz”.
A tecnologia de drones tornou-se uma faca de dois gumes na América Latina. Enquanto seu potencial civil e comercial continua a se expandir, sua crescente utilização por organizações criminosas expôs vulnerabilidades nas estratégias regionais de segurança. Nesse contexto, a cooperação internacional, o desenvolvimento de capacidades antidrones e a atualização dos marcos regulatórios tornam-se cada vez mais importantes para enfrentar uma ameaça que está redefinindo rapidamente a segurança no hemisfério.
Fonte:dialogo-americas