sexta-feira, 6 novembro, 2026 14:17
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Como a queda de um banco que esbanjava autoconfiança chocou o Paraguai

de @bonitonet
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O que está acontecendo no Paraguai? Entenda crise que levou a pedido de impeachment do presidente

O Banco Ueno está presente em todo o Paraguai. O banco patrocina estádios, festivais de música, a seleção nacional de futebol, um bar e o principal piloto de corrida do país. Seus cartões de crédito oferecem grandes descontos em supermercados. Embora só tenha recebido uma licença bancária completa em 2023, a fintech já atende 2,9 milhões de paraguaios: quase dois terços da população adulta. Em feiras de artesanato co-organizadas pela primeira-dama do país, promotoras de vendas do Ueno, vestindo jeans justos, distribuem leitores de cartão aos artesãos indígenas.

Para muitos paraguaios acostumados a guardar seu dinheiro debaixo do colchão, o Ueno ajudou a abrir a primeira conta bancária. Suas agências ofereciam telas sensíveis ao toque, cappuccinos e sofás confortáveis: muito diferente dos horários inconvenientes, da decoração sisuda, dos exigentes requisitos de depósito e dos seguranças carrancudos dos concorrentes. Frequentemente comparada ao Monzo ou ao Revolut, o Ueno esperava atingir uma avaliação de US$ 1 bilhão e, assim, se tornar o primeiro “unicórnio” do Paraguai.

Isso durou até às 3h23 da madrugada de 3 de novembro, quando o Banco Central do Paraguai (BCP, o banco central e órgão regulador do setor bancário) assumiu o controle do Ueno e começou a dissolvê-lo formalmente. A polícia prendeu o diretor-geral do Ueno, Miguel Vázquez, e o levou para uma prisão de alta segurança. Outros executivos do banco foram encapuzados e algemados. Eles respondem por acusações que incluem abuso de confiança, contabilidade irregular e tentativa de fraude. Clientes do banco em lágrimas, sem acesso às suas economias, tiveram de ser contidos pela polícia para não entrarem nas agências. O presidente do BCP, Carlos Carvallo — que até três anos atrás era chefe do Ueno —, renunciou a pedido do presidente do Paraguai, Santiago Peña.

Manifestantes marcharam em direção ao palácio presidencial. A oposição começou a se preparar para abrir um processo de impeachment contra Peña, que até o ano passado detinha ações da Ueno Holding, uma empresa ligada ao banco. Seu vice-presidente, Pedro Alliana, também correu o risco de sofrer impeachment (na quinta-feira, 5, Câmara rejeitou o pedido contra Alliana, mas deu sequência ao de Peña, rejeitando seu pedido de renúncia). Em uma mensagem em vídeo, Peña afirmou que 98% dos clientes do Ueno receberiam seu dinheiro de volta por meio do fundo garantidor de depósitos (FGC no Brasil) e que os responsáveis pela crise seriam punidos: “O sistema financeiro é forte.”

Por trás do colapso do Ueno está uma série de eventos que mancharam sua imagem jovem. A participação do banco nos negócios do governo cresceu exponencialmente sob a gestão de Peña. Cerca de US$ 850 milhões de dinheiro público estão atualmente depositados no Ueno, incluindo um décimo dos fundos de previdência pública do país. A Itti, uma empresa coligada ao banco, lida com grandes quantidades de dados confidenciais dos cidadãos após ter conquistado mais de uma dúzia de contratos públicos. O presidente tem “responsabilidade direta” pela crise, afirma Rafael Filizzola, senador da oposição de centro-esquerda. “Trata-se de uma conspiração criminosa para utilizar recursos públicos em empresas privadas ligadas a Peña.” (Peña negou qualquer irregularidade.)

Também está sob escrutínio a prática de empréstimos irresponsáveis pelo próprio Ueno. No mês passado, veio à tona que o banco havia desembolsado cerca de US$ 150 milhões para pequenas empresas ligadas a seus acionistas e funcionários, aparentemente violando regras regulatórias e colocando em risco seu próprio balanço patrimonial. Senadores leais ao ex-presidente Horacio Cartes — cuja família é proprietária de outro banco e que recentemente rompeu com Peña — começaram a aumentar a pressão.

À medida que as notícias negativas se multiplicavam e os investidores entravam em pânico, os títulos do Ueno no valor de US$ 350 milhões com vencimento em 2031, emitidos em março, perderam cerca de 12% de seu valor. Na semana passada, a empresa anunciou uma recapitalização de US$ 100 milhões. Foi muito pouco, muito tarde. Autoridades do BCP afirmaram na terça-feira que o índice de solvência do Ueno caiu para menos da metade do mínimo exigido e que seus investigadores haviam descoberto mais irregularidades.

“Reina a incerteza”, afirma Esteban Caballero, analista político. O Partido Colorado, no poder, controla ambas as casas do Congresso, mas está dividido entre os apoiadores do presidente e de Cartes, seu antigo mentor. Um fundo de reserva bancária foi autorizado a reembolsar os clientes do Ueno em até US$ 38 mil no prazo de 15 dias; os legisladores votaram para acelerar esse processo. Acima desse valor, o BCP oferecerá apenas “a maior proteção possível”. Quanto ao Ueno, recentemente surgiram rumores de que outra instituição financeira estaria negociando sua aquisição. Alguns temem que as informações biométricas que o Ueno coletou de seus clientes possam ser vendidas para quem pagar mais. “Esses são dados confidenciais”, afirma Maricarmen Sequera, da TEDIC, uma ONG de direitos digitais.

Outros temem que o escândalo possa manchar a imagem da economia não petrolífera mais promissora da América do Sul, que cresceu 6,6% em 2025. Ao contrário da crise de 1995, que levou à falência metade dos bancos do Paraguai, o sistema financeiro como um todo está seguro, afirma Fernando Arriola, ex-banqueiro de Wall Street e diretor da câmara de fintech do Paraguai. Mas as empresas de médio porte que mantinham seu dinheiro com Ueno serão prejudicadas. “Isso afetará o mercado”, acrescenta Arriola, culpando os reguladores por terem ficado de braços cruzados, o Ueno por conceder empréstimos generosos demais a seus associados e o presidente por não ter conseguido evitar a impressão de favoritismo.

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