sexta-feira, 22 maio, 2026 16:40
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Com 143 inquéritos abertos, fiscalização tenta conter impactos em rios de Bonito

de Redação Bonitonet
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Os rios cristalinos de Bonito e da Serra da Bodoquena dependem hoje de um esforço permanente de fiscalização, conservação do solo e controle da ocupação urbana para continuarem transparentes. Em uma região pressionada pelo turismo, pela agropecuária e pela expansão imobiliária, Ministério Público, governo, prefeitura e organizações ambientais desenvolvem ações para reduzir a erosão, o assoreamento e os impactos sobre nascentes e cursos d’água.

Impactada por múltiplos fatores, a região, ambientalmente sensível, tem sido alvo constante de denúncias e ações por parte do Ministério Público. Somente na Promotoria de Justiça de Bonito, 300 procedimentos estão em andamento, a maior parte relacionada a questões ambientais. Segundo o promotor de Justiça substituto Felipe Blos Orsi, a estratégia tem sido atuar preventivamente, antes que os problemas avancem para disputas judiciais.

“Só vai para o judicial quando a gente não consegue resolver extrajudicialmente, seja através de reuniões ou através de termo de ajustamento de conduta”, afirmou.

Atualmente, a promotoria mantém 143 inquéritos civis e 73 procedimentos administrativos voltados ao acompanhamento de TACs (Termos de Ajustamento de Conduta) ambientais. As ações envolvem desde a recuperação de áreas degradadas até adequações ambientais e compensações.

O promotor explica que, entre os principais problemas monitorados, estão o desmatamento, construções irregulares em APPs (Áreas de Preservação Permanente), loteamentos clandestinos, atividades sem licenciamento, além de casos de assoreamento e turbidez dos rios.

“Desmatamento é o principal”, resumiu.

Segundo ele, intervenções inadequadas próximas a nascentes, córregos e rios têm reflexos em toda a dinâmica hídrica da região. “Isso acaba trazendo diversos problemas, turvamento do rio, assoreamento, poluição, o que acaba desenrolando um problema para toda a bacia hidrográfica da região.”

Além de denúncias da população, o Ministério Público utiliza imagens de satélite para monitorar alterações ambientais, especialmente desmatamentos.

Uma das principais ações em andamento neste ano, segundo o promotor, questiona licenças ambientais concedidas para desmatamento por parte do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) e a abertura de áreas destinadas à monocultura na Serra da Bodoquena. O foco da discussão está na ausência de análise dos impactos cumulativos das autorizações.

“Eram analisadas individualmente cada propriedade, não fazendo uma análise sinergética, ou seja, uma análise como um todo”, explicou Felipe Orsi ao se referir ao impacto conjunto das licenças individuais.

Turismo – A promotoria também acompanha consequências provocadas pelo turismo e pela expansão urbana, como excesso de visitantes em atrativos naturais, extravasamento de esgoto em períodos de chuva e crescimento urbano sem drenagem adequada.

“Não pode ser aquela circulação em massa para não prejudicar ainda mais os nossos ecossistemas”, afirmou o promotor ao comentar os desafios do turismo sustentável.

Enquanto o Ministério Público atua na fiscalização, outro trabalho acontece diretamente no território para tentar impedir que a chuva leve terra e sedimentos para os rios cristalinos.

Mapa mostra a redução da área florestal entre 1985 e 2021 (Foto: Reprodução Fundação Neotrópica do Brasil)

Conservação do solo – O presidente do IASB (Instituto das Águas da Serra da Bodoquena), Eduardo Folley Coelho, explica que o órgão foi criado justamente a partir da percepção de que a pressão humana sobre a região havia atingido um novo patamar. Segundo ele, Bonito passou a concentrar centenas de sítios de lazer próximos a rios e áreas ribeirinhas, ampliando a abertura de estradas e intervenções no terreno.

“Você tem uma pressão de uso desse recurso natural que, quando chove, a água vai para o ponto mais baixo, que normalmente são os rios. A estrada é um lugar muito bom para a água correr”, afirmou.

O IASB desenvolve ações voltadas à conservação do solo e da água, incluindo recuperação e cercamento de nascentes, reflorestamento de matas ciliares, construção de curvas de nível, terraços e caixas de contenção, além da adequação de estradas rurais para reduzir erosão e transporte de sedimentos.

Um dos principais projetos é o “Águas de Bonito”, realizado na microbacia do Rio Mimoso. O trabalho envolve levantamento ambiental das propriedades, orientação técnica aos produtores rurais e implantação de estruturas para aumentar a infiltração da água no solo.

Segundo o instituto, as medidas já reduziram os períodos de turbidez após chuvas fortes. As ações incluem ainda plantio de mudas nativas, isolamento de APPs (Áreas de Preservação Permanente), conservação de cabeceiras e integração entre propriedades rurais para que as estruturas de conservação funcionem em toda a bacia hidrográfica.

Trabalhos semelhantes também são desenvolvidos pela Fundação Neotrópica do Brasil, em Bonito e na região da Serra da Bodoquena. A entidade atua em projetos de recuperação de matas ciliares, proteção de nascentes, monitoramento da qualidade da água e incentivo ao turismo sustentável.

Turvamento no Rio Mimoso após fortes chuvas em 2022 (Foto: Fundação Neotrópica Brasil)

Turvamento dos rios – Entre as principais iniciativas estão o projeto Observ’Água, voltado ao monitoramento dos rios da Bacia do Rio Formoso; programas de restauração ambiental em áreas degradadas; ações de educação ambiental com crianças e jovens; projetos de conservação de aves ameaçadas e migratórias da Serra da Bodoquena, com capacitação de observadores e guias de observadores de pássaros; além do projeto Oásis Bonito, que apresentou à comunidade mecanismos de PSA (Pagamento por Serviços Ambientais) para remunerar produtores rurais que preservam vegetação nativa e recursos hídricos.

A fundação também participa da elaboração de políticas públicas, do manejo integrado do fogo, do fortalecimento de unidades de conservação e da capacitação de comunidades locais para conciliar conservação da biodiversidade e desenvolvimento sustentável.

Segundo o gestor ambiental da fundação, Fernando de Almeida Louveira, os episódios de turbidez nos rios da região diminuíram em relação aos casos mais graves registrados nos últimos anos, como o ocorrido no Rio da Prata. Ele atribui essa redução ao trabalho conjunto de conservação do solo, recuperação ambiental e à maior atenção pública sobre o problema. Apesar disso, afirma que o turvamento ainda ocorre e que o tempo para a água voltar à transparência aumentou.

Sem curvas de nível, o escoamento superficial intensifica a perda de solo em áreas agrícolas (Foto: Fundação Neotrópica Brasil)

“Antes, a água voltava ao normal em um ou dois dias. Hoje demora quase uma semana”, relatou.

Para o gestor ambiental, o problema está ligado ao aumento do carreamento de sedimentos para os rios, provocado por mudanças no uso do solo na região. Entre os fatores apontados estão o avanço de atividades agrícolas intensivas, o maior revolvimento e exposição do solo, a redução de matas ciliares e a diminuição de áreas de banhado, que funcionam como filtros naturais da água.

Louveira afirma que as estradas rurais também contribuem para o assoreamento, mas defende que o impacto não pode ser atribuído exclusivamente a elas.

“As lavouras podem carregar sedimentos para as estradas e, depois, para os rios da mesma forma”, explicou.

A fundação desenvolve estudos de monitoramento ambiental utilizando dados do MapBiomas para acompanhar as transformações na cobertura vegetal da Serra da Bodoquena ao longo das últimas décadas. Segundo Louveira, os levantamentos indicam mudanças significativas na ocupação do solo da região e também incluem análises laboratoriais da qualidade da água, realizadas em parceria com a UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). Ele afirma que ações integradas de recuperação de mata ciliar, conservação do solo e educação ambiental têm contribuído para reduzir os impactos sobre os rios cristalinos da região.

Imagens comparam período de águas cristalinas e turvas no Rio Formoso. (Foto: Arquivo)

Parcerias – O IASB também participa, em parceria com o Prosolo (Plano Estadual de Manejo e Conservação de Solo e Água), a Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), a UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e o ITV (Instituto Taquari Vivo), de ações de readequação de estradas, sistemas de drenagem e combate ao assoreamento nos rios Formoso, Prata, Salobra e Betione. Outra frente envolve educação ambiental urbana.

Para Eduardo Coelho, a responsabilidade pela pressão ambiental não pode ser atribuída exclusivamente ao agronegócio.

“Não é só a agricultura e a pecuária. É a ocupação humana do território”, disse.

Ele afirma que a região vive um processo crescente de antropização e que a recuperação ambiental será gradual.

“A gente demorou para estragar, agora vai demorar para arrumar também.”

Ação governamental – Parte dessa tentativa de recuperação passa pelo Prosolo Rios Cênicos, programa estadual voltado à conservação do solo e da água nas bacias hidrográficas da Serra da Bodoquena.

Segundo o engenheiro agrônomo do Prosolo, Paulo Sérgio Gimenes, o principal vetor de sedimentos atualmente não está apenas nas áreas agropecuárias, mas principalmente em estradas rurais e vias urbanas sem drenagem adequada, fato que ele afirma ter constatado em sua rotina diária.

“Se a estrada não está feita com uma engenharia adequada e com manutenção adequada, ela vira um corredor de água para os rios”, afirmou.

Estrada readequada com construção de terraços integrados ao sistema de drenagem, em ação conjunta da Patrulha, ITV e arrendatário. Projetos avaliados pela Câmara Técnica. (Foto: Eloise Silveira do Instituto Taquari Vivo)

Prosolo –  Conforme Gimenes, desde 2019, qualquer movimentação de solo nas bacias dos rios Formoso, Prata, Salobra e Betione precisa ser acompanhada por projeto técnico de conservação do solo e da água, aprovado por instâncias ambientais.

O programa executa readequação de estradas rurais, implantação de sistemas de drenagem e integração das estruturas com práticas conservacionistas dentro das propriedades.

Estrada em formato de canaleta evidencia o volume da água da enxurrada. (Foto: Paulo Gimenes)

Pontos críticos – Gimenes explica que já foram apresentados 576 projetos e cerca de 35 quilômetros de estradas passaram por readequação. Também foram identificados, inicialmente, 38 pontos críticos de turvamento em microbacias que influenciam rios como Formoso, Mimoso, Anhumas e Formosinho.

“O rio sempre turva em chuvas muito fortes. O que muda é a velocidade com que ele volta a ficar cristalino”, explicou.

O trabalho é acompanhado por uma Sala de Situação instalada em Bonito, que presta atendimento técnico a proprietários rurais, monitora dados de chuva e acompanha pontos de turbidez nas bacias hidrográficas.

“Infelizmente ainda existem registros de turvamento, mas em escala menor e com tendência de queda”, afirmou o engenheiro agrônomo.

Estrada de acesso ao Rio Sucuri com vegetação danificada. (Foto: PMA)

Área urbana – Na área urbana, a prefeitura de Bonito também tenta avançar em soluções para drenagem e conservação do solo. Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Thyago Sabino, o tema se tornou uma das principais discussões do novo Plano Diretor do município, ainda em fase de conclusão.

Entre as propostas debatidas estão áreas de amortecimento, infiltração e uso de tecnologias verdes para drenagem urbana.

“Bonito não é 100% asfaltado. Toda rua sem asfalto tende necessariamente a mandar material para a parte mais baixa”, explicou.

Segundo o secretário, a prefeitura pretende ampliar a pavimentação urbana até o fim do mandato, justamente como estratégia para reduzir processos de turvamento.

Ele também afirma que a taxa ambiental, em parceria com o governo do Estado e o Prosolo, tem fortalecido ações de conservação em áreas rurais.

Aquário natural –  Toda essa mobilização ocorre em uma região considerada uma das mais sensíveis ambientalmente do país. Bonito, Jardim e Bodoquena concentram alguns dos rios mais transparentes do Brasil, como Rio da Prata, Rio Sucuri, Rio Formoso, Rio Mimoso, Rio Salobra e Rio Perdido.

A transparência das águas está diretamente ligada à geologia calcária da Serra da Bodoquena. O calcário funciona como um filtro natural, fazendo com que partículas em suspensão decantem rapidamente. Mas especialistas alertam que o sistema é altamente vulnerável à erosão, ao desmatamento e ao assoreamento.

Além da importância para o turismo, esses rios integram a bacia do Alto Paraguai e ajudam na manutenção do equilíbrio hídrico do Pantanal.

Tons azuis e esverdeados se destacam nas águas do Rio Sucuri (Foto: Prefeitura Municipal de Bonito)

Fonte:CampoGrandeNews

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