quarta-feira, 4 novembro, 2026 17:51
Home EconomiaQuebra do Ueno Bank paralisa comércio no Paraguai

Quebra do Ueno Bank paralisa comércio no Paraguai

de @bonitonet
0 comentários

Dois terços das transações eletrônicas nas grandes lojas de varejo eram feitos por meio de contas da instituição

O fechamento do Ueno Bank está afetando empresas que passaram a depender do banco digital no Paraguai. A associação de importadores e varejistas do país alertou para uma “semiparalisação” do comércio, afirmando que dois terços das transações eletrônicas nas grandes lojas de varejo eram feitos por meio de contas do Ueno.

“Não podemos exibir seu saldo. Tente novamente mais tarde.”

Era tudo o que a estudante de enfermagem Deisy Asva, de 20 anos, conseguia ver das economias de uma vida na manhã de terça-feira, ao tentar acessar sua conta no Ueno Bank, que atende um em cada três paraguaios.

Pouco depois das 3h, enquanto a maior parte do país dormia, o Banco Central do Paraguai anunciou o fechamento da instituição devido a uma crise de solvência.

Paraguaios protestam nas ruas após quebra de banco digital e bloqueio de contas

O Ministério Público abriu uma investigação e expediu mandados de prisão contra pelo menos oito pessoas ligadas ao Ueno, incluindo Miguel Vázquez, presidente do conselho de administração do acionista controlador do banco, o Grupo Vázquez. O presidente Santiago Peña já foi investidor da holding do Ueno e vendeu sua participação em março de 2025.

As autoridades financeiras têm insistido que a situação é isolada e que depósitos de até 228 milhões de guaranis (US$ 37.400) estão garantidos — valor que o Banco Central tem 15 dias para devolver. Ainda assim, isso tem trazido pouco alívio a clientes como Asva, que tentam descobrir como pagar desde aluguel e compras de supermercado até passagens de ônibus, agora que seus depósitos foram congelados.

Na capital, Assunção, clientes se reuniram diante de agências fechadas em busca de respostas. Centenas de pessoas se aglomeraram em uma unidade do Ueno em Ciudad del Este, enquanto reclamações de clientes sem acesso ao próprio dinheiro inundaram as redes sociais. A Polícia Nacional entrou em alerta máximo de segurança e enviou agentes para unidades do banco em todo o país.

Para Asva, que mora em San Lorenzo, nos arredores de Assunção, o fechamento significa perder temporariamente o acesso à conta que usava todos os dias para recarregar o cartão de transporte, comprar lanches na universidade e cobrir outras despesas rotineiras. Ela também tem mensalidades da universidade com vencimento no sábado.

— Com tanta tecnologia disponível hoje em dia, como isso pode levar 15 dias? — questionou. — Vou ter que pedir dinheiro emprestado à minha família.

A dimensão do transtorno reflete o quanto o Ueno havia se integrado às finanças cotidianas dos paraguaios. O banco informou em junho que tinha mais de 2,9 milhões de clientes — em um país de aproximadamente 6,1 milhões de habitantes — e processava mais de 3 milhões de transações por dia. Mais de 32 mil aposentados o utilizavam para receber os benefícios do IPS, o órgão de seguridade social do Paraguai.

Poucas horas antes do anúncio do Banco Central, o Ueno ainda atraía clientes para colocar mais dinheiro na instituição.

Na noite de segunda-feira, a contadora Rocío Zárate transferiu 1 milhão de guaranis para sua conta no Ueno, atraída por uma das promoções generosas que ajudaram a impulsionar a rápida expansão do banco. Clientes que depositassem novos recursos na instituição e os mantivessem ali até 7 de novembro receberiam um reembolso de 50% em uma compra com cartão de crédito.

Poucas horas depois, o Banco Central do Paraguai anunciou que estava submetendo o Ueno a um processo de resolução, após constatar que seu índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido, depois de ajustes em seus balanços.

— Eu estava me preparando para sair para o trabalho quando meu tio perguntou: “Você tem dinheiro no Ueno? Porque o banco sofreu intervenção” — contou Zárate, de 36 anos, que já tinha outros 2 milhões de guaranis na instituição. — Foi um choque muito grande. Fui completamente pega de surpresa.

A tensão chegou ao limite em Ñemby, nos arredores da capital, onde um cliente de 45 anos quebrou uma porta de vidro de uma agência do Ueno após ir ao local em busca de informações sobre suas economias, segundo o jornal local Última Hora. Ele sofreu um corte na perna e foi levado para atendimento médico antes de ser intimado pelo Ministério Público por causa do episódio.

María Elena González, administradora de empresas e gerente de uma consultoria, de 41 anos, usava o Ueno para receber o aluguel de um apartamento que possui com o marido. Assim que soube da notícia, na manhã de terça-feira, pediu a ele que garantisse que os inquilinos parassem de transferir dinheiro para a conta.

— Fiquei muito surpresa — disse González.

Sua maior preocupação, porém, é a aposentadoria. González contribui há 18 anos para o sistema previdenciário do IPS, que tem cerca de US$ 300 milhões depositados no Ueno. Com mais uma década de contribuições pela frente, ela teme que o fundo não tenha dinheiro suficiente quando se aposentar.

— Não sei como esse fundo estará daqui a dez anos — afirmou.

O Banco Central tem buscado conter o pânico, descrevendo os problemas do Ueno como isolados e afirmando que o restante do sistema financeiro paraguaio permanece saudável. Cerca de 97% dos depositantes do Ueno têm saldos dentro do limite da garantia de depósitos respaldada pelo governo, segundo as autoridades.

Mas mesmo os clientes que esperam recuperar todo o dinheiro enfrentam um problema imediato: atravessar os dias ou semanas até que possam acessá-lo. Para Zárate, qualquer confiança que tivesse no Ueno já acabou.

— Assim que me devolverem o dinheiro, vou transferi-lo imediatamente para um banco em que eu confie.

Fonte: OGlobo

Você também pode gostar

-
00:00
00:00
Update Required Flash plugin
-
00:00
00:00