Viagens podem favorecer o bem-estar físico, mental e social, além de desafiar estereótipos sobre a velhice
Quando era jovem, em Juazeiro do Norte, no Ceará, Josefa Feitosa, de 66 anos, gostava de observar os paus de arara que chegavam com romeiros de lugares distantes para visitar a cidade de Padre Cícero. O movimento dos viajantes, vindos de locais que ela mal conseguia imaginar, despertava uma curiosidade que ia além das fronteiras do município. Anos depois, um namorado marinheiro ajudaria a alimentar esse desejo, contando sobre as viagens que fazia a bordo dos navios.
“O mundo sempre me fascinou. Eu olhava as revistas de viagem e sonhava com o dia em que iria conhecer aqueles lugares”, conta Josefa. Quando se aposentou das atividades como assistente social, em 2016, decidiu tirar o sonho do papel. Estabeleceu uma meta: conhecer 20 países, o máximo que imaginava ser possível. Na lista estavam destinos como Portugal, Espanha, Suíça, Inglaterra, Argentina, África do Sul, Egito, Tailândia e Índia.
Desde então, Josefa já passou por 81 países nos cinco continentes e, há cerca de dois anos, vive sem endereço fixo. Adotou uma vida nômade, passando temporadas nos lugares que visita. Tudo isso, claro, oferece altos e baixos: na Austrália, foi impedida de se hospedar em um hostel apenas por ser mais velha; em Nairóbi, no Quênia, ficou detida por um dia após ser confundida com refugiados. Mas, para ela, tudo isso é história para contar.
“Tenho um pacto com minha família: envio sempre o endereço de onde vou ficar. Se eu não mantiver contato por mais de 48 horas, é porque algo aconteceu. Mas não vivo sob o medo, e sim sob essa sensação que viajar me desperta: de ser uma mulher destemida, jovial e que respeita muito a si mesma”, diz a aposentada.
Suely Cardoso, de 70 anos, também é do tipo que tem “rodas nos pés”. Pratica trekking desde os 26 anos e, ao longo do tempo, transformou as caminhadas de longa distância em uma das formas de conhecer o mundo. Hoje, calcula ter visitado cerca de 22 países. Em 2019, caminhou os quase 800 quilômetros do Caminho Francês de Santiago, na Espanha, em 31 dias. Neste ano, voltou a calçar as botas para caminhar 380 quilômetros pelos arredores de Madri.
“Não sou a mesma de anos atrás, respeito os limites do corpo, mas não deixo de fazer as caminhadas — apenas sigo num ritmo diferente”, diz Suely. Os destinos do próximo ano já estão traçados: Islândia, Holanda e, quem sabe, ir a Salvador, na Bahia, para um encontro de canoagem em equipe. “Viajar é um encontro não só comigo mesma, com minha companhia — que eu, aliás, adoro —, mas com algo que sempre prezei muito: a liberdade”, diz a ex-bibliotecária.
Novos caminhos para velhas certezas
Embora o envelhecimento seja uma experiência individual, algumas mudanças podem fazer parte do processo. A aposentadoria deixa os dias mais livres, os filhos seguem seus próprios rumos e os vínculos afetivos se transformam. Também há perdas, seja de pessoas queridas ou de um corpo que já não é mais o mesmo e pode impor alguns limites.
Viajar, avalia a gerontóloga Isabela Azevedo, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), é uma das formas de atravessar essas mudanças. Não como fuga, nem garantia de cura, mas como possibilidade de ressignificar experiências e passar por elas de maneira mais acolhedora. Há o prazer de conhecer um lugar novo, mas também de preparar malas, fazer planos, imaginar o destino… Tudo isso ajuda a manter a curiosidade acesa e a lembrar que ainda há espaço para novidades.
“Ter algo pelo qual esperar, organizar o roteiro e depois recordar e compartilhar aquela experiência também fazem parte do prazer e do envolvimento com a vida”, diz Isabela.
Josefa, por exemplo, decidiu apostar na vida nômade depois de voltar de uma viagem curta e perceber que a casa estava, de fato, vazia: os filhos haviam se casado, mudado de cidade… Diante disso, decidiu abrir mão do aluguel e das contas para investir em estadias não tão passageiras assim. Agora mesmo, ela está no México, onde pretende ficar por três meses, o período máximo permitido pelo visto.
“Aluguei a casa que tinha, me desfiz de móveis e me vejo uma pessoa simples, sem muitas roupas e livre para o que der e vier”, diz a viajante. “Não tenho um canto, mas tenho todos os cantos do mundo — dentro das minhas possibilidades, claro”, complementa.
O psicólogo Francisco Soldá, especialista em envelhecimento e membro da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), lembra que as viagens — seja para perto ou longe — também podem fortalecer a autoestima e ampliar a percepção sobre o envelhecimento. Isso porque a velhice ainda é muito associada à perda de autonomia e à diminuição dos desejos e interesses. Não por acaso, ver uma pessoa mais velha viajando ou aproveitando a vida de outras formas pode gerar estranhamento e colocar em xeque alguns estereótipos. “Existem, sim, transformações difíceis, mas também podem existir ganhos e possibilidades”, diz o psicólogo.
No caso de Josefa, explorar o mundo se tornou uma oportunidade de autoconhecimento. Desde que se encorajou a desbravar novos horizontes, ela diz que passou a reconhecer melhor suas forças e fragilidades. “Me tornei mais esperta e aberta a buscar estratégias para superar dificuldades”, conta. “Também tenho mais disposição para aprender coisas novas sobre mim e o mundo, eliminar preconceitos e criar memórias que dão combustível para uma velhice mais alegre, sem mágoas e arrependimentos.”
Não tenho um canto, mas tenho todos os cantos do mundo
Viajar também é exercício para o cérebro
Suely é do tipo que sabe aproveitar a própria companhia. Costuma viajar sozinha, embora saiba que em alguns casos e locais é bom estar acompanhada. Em janeiro de 2027, por exemplo, vai à Islândia em pleno inverno, quando os dias são curtos e o frio não dá trégua. Para essa aventura, preferiu se juntar a um grupo organizado por uma agência.
“Tem muita gente que diz: ‘Ah, mas não faz sentido viajar sem companhia’. Eu penso que ter companhia é ótimo, mas não ter não deveria ser impeditivo, dependendo do caso. Há muitos ganhos em levar a si mesmo para passear”, diz ela.
Nas caminhadas e peregrinações, aliás, a companhia costuma aparecer pelo caminho. Na última viagem à Europa, Suely conheceu um casal de franceses com quem compartilhou parte do percurso. “Fomos conversando e depois cada um seguiu no seu próprio tempo”, conta. “Gosto disso porque é uma forma de aprender a respeitar o ritmo de cada um e entender o momento de se separar.”
Os encontros também acontecem nos albergues, seja como hóspede ou como voluntária, ajudando a receber outros peregrinos. Hoje, Suely tem amigos na Espanha, em Malta, na República Tcheca e em Portugal, além de Bogotá e de diferentes lugares do Brasil. A língua, vale dizer, não costuma ser uma barreira. Ela tem inglês básico, se vira melhor em espanhol e vem estudando francês pelo aplicativo Duolingo. “Mas não sou fluente em nada. Tem vezes que apelo para o tradutor ou mesmo para a mímica”, brinca.
De acordo com Soldá, experiências como essas podem estimular a saúde do cérebro. O contato com outras culturas, por exemplo, exige abertura para compreender costumes e modos de vida diferentes. Josefa se lembra do choque de realidade ao ver corpos sendo cremados em piras a céu aberto na Índia e conhecer a forma como o hinduísmo encara a morte. Na Jamaica, também se surpreendeu com a religião rastafári e sua relação com a música, vista como uma espécie de oração.
Até tarefas corriqueiras — como encontrar o caminho para um restaurante, interpretar um mapa, escolher o meio de transporte ou arriscar algumas palavras em outro idioma — podem exercitar habilidades cognitivas, diz Isabela. “Não dá para afirmar que viajar previne demência ou faz viver mais, mas é razoável dizer que uma viagem pode reunir vários comportamentos favoráveis à saúde e ao bem-estar.”
O contato com lugares e situações novos também pode beneficiar a saúde mental, com possíveis efeitos sobre estresse, ansiedade, depressão e até o abuso de substâncias, acrescenta o geriatra Milton Crenitte, colunista do Pulsa. “Quando você abre espaço para o deslumbramento e as surpresas, o mental também sai ganhando”, diz o médico. E há ainda o movimento: ao sair para explorar um destino — mesmo sem encarar um trekking como os de Suely —, é comum caminhar mais, o que pode contribuir para melhorar indicadores de saúde.
“Quando existe segurança e bom planejamento, é uma experiência que pode mobilizar simultaneamente o cérebro, as emoções e também o corpo”, afirma Isabela.
Não existe “guia” para o envelhecimento
Apesar dos benefícios, viajar nem sempre é uma experiência prazerosa. “Pode envolver fadiga, inseguranças, dificuldades sensoriais, barreiras de acessibilidade, alterações na rotina e sobrecarga de estímulos”, lembra Soldá.
Nesses casos, adaptar o planejamento, respeitar os próprios limites e prever pausas pode ajudar. Afinal, nem todo roteiro precisa ser cumprido à risca, e o tempo livre não precisa virar uma maratona de passeios.
Mas há também uma questão de gosto pessoal: tem gente que simplesmente não gosta de viajar, seja por questões psicológicas, falta de paciência para planejar ou pelo apego à própria rotina.
Crenitte também alerta para o risco de transformar as viagens em uma espécie de “régua” do envelhecimento saudável. Há muitas maneiras de envelhecer, e nenhuma delas precisa seguir um modelo preestabelecido. “Não podemos pensar que um idoso saudável é necessariamente aquele que corre maratonas, está sempre viajando ou com uma agenda cheia de compromissos”, diz o médico.
Da mesma forma, envelhecer não significa abrir mão do lazer, das viagens e das novas experiências. O importante é que cada pessoa possa encontrar o que faz sentido para si, inclusive quando isso significa desacelerar e aproveitar momentos mais tranquilos.
“Também temos o direito de ficar sozinhos, contemplar a vida, aproveitar nossa casa, ler um livro, ouvir música e curtir a família”, lembra Crenitte.
Novos horizontes nem sempre precisam de passagem
Para viajar pelo mundo, Josefa apostou no planejamento. Antes de se aposentar, guardou 15% do salário durante oito anos. Hoje, a aposentadoria e a decisão de viver sem endereço fixo ajudam a manter os planos. “Há muitas possibilidades”, diz ela. “Talvez o mais importante seja coragem e desprendimento para sair da zona de conforto e enfrentar o desconhecido”, opina.
Suely também acredita que dá para tornar as viagens mais acessíveis, seja pelo Brasil ou mundo afora. Hospedagens simples, como hostels, ajudam a economizar e ainda abrem espaço para conhecer outros viajantes. Escolher destinos mais baratos, parcelar passagens e planejar os gastos com antecedência são outras opções.
Mas, por mais que existam alternativas, viajar ainda não é uma possibilidade para todos (e vai muito além da realidade financeira). “Envolve não apenas renda, mas também disponibilidade, suporte familiar e inúmeras outras condições que não são igualmente distribuídas no Brasil”, diz Isabela.
Crenitte reforça que o importante não é o carimbo do passaporte, mas o lazer e a curiosidade diante do mundo de modo geral. “Algumas pessoas veem o lazer como algo secundário, mas não é”, diz.
A saúde, lembra ele, não se constrói apenas no consultório. “Além das viagens, a saúde pode estar em um baile, em um clube, em uma viagem, em viver um romance, em uma partida de baralho com os amigos…”
Suely, por exemplo, encontra maneiras de viajar “sem sair do lugar” — e de forma gratuita — em São Paulo, cidade onde mora. Gosta de visitar o Museu da Língua Portuguesa, conferir exposições e cursos do Sesc, passear pelo Parque Ibirapuera, conhecer as mostras da Caixa Cultural e “bater perna” pelas construções históricas do centro. “Só de observar os prédios lindos, como o centenário da Pinacoteca, já me sinto ‘turistando’.”
Fonte: Estadão