terça-feira, 13 outubro, 2026 19:00
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Vegetação de MS perde 34% do carbono armazenado em 40 anos

de Redação Bonitonet
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Mato Grosso do Sul perdeu mais de um terço do carbono armazenado em sua vegetação nativa ao longo de quatro décadas. Entre 1985 e 2024, o volume estimado caiu de 248,2 milhões para 162,8 milhões de toneladas, uma redução de 85,4 milhões de toneladas, equivalente a 34,4%. O resultado revela a dimensão das transformações ambientais ocorridas no Estado, especialmente no Cerrado, onde a retirada da vegetação nativa para a expansão de pastagens e lavouras teve papel predominante nas perdas.

Os números fazem parte da pesquisa publicada recentemente na revista científica internacional Forest Ecology and Management, que reconstruiu a evolução do carbono armazenado na vegetação acima do solo nos três biomas presentes em Mato Grosso do Sul: Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica.

O estudo, conduzido pelo pesquisador Rômullo Oliveira Louzada e colaboradores, combinou informações de inventários florestais do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) com mapas anuais de cobertura vegetal e registros de queimadas do MapBiomas.

A análise permitiu identificar não apenas quanto carbono havia na vegetação no início e no fim do período, mas também como o desmatamento, os incêndios e a recuperação natural contribuíram para as mudanças registradas.

“Já tinha uma noção de que o carbono ia cair. Caiu a quantidade de vegetação nativa, cai a quantidade de carbono. Mas a gente não tinha noção da magnitude”, explica Louzada.

Maior redução – O Cerrado apresentou a maior perda absoluta de carbono armazenado entre os biomas analisados. Em 1985, a vegetação do bioma em Mato Grosso do Sul reunia aproximadamente 151,4 milhões de toneladas de carbono. Em 2024, esse volume havia diminuído para 79,2 milhões, uma redução de 72,2 milhões de toneladas.

A queda equivale a aproximadamente 47,7% do estoque estimado no início da série histórica. Segundo a pesquisa, a principal explicação está na transformação de áreas de vegetação nativa em pastagens e lavouras. Quando a cobertura original é retirada, parte da biomassa que armazenava carbono desaparece, reduzindo a capacidade de mantê-lo na vegetação.

Durante o crescimento, as plantas absorvem gás carbônico da atmosfera e utilizam o carbono para formar troncos, galhos, folhas e outros tecidos. Por isso, a quantidade de vegetação existente e suas características influenciam diretamente o volume armazenado.

Os incêndios também contribuíram para as perdas no Cerrado. Entre 1985 e 2024, o estudo estimou perdas acumuladas de 11,6 milhões de toneladas de carbono atribuídas ao fogo, enquanto os ganhos associados à recuperação e às mudanças da vegetação somaram 6,3 milhões.

Apesar desse desequilíbrio, o desmatamento teve maior peso na redução do estoque de carbono do bioma. A situação é diferente no Pantanal, onde a pesquisa identificou perdas acumuladas expressivas associadas à repetição das queimadas. Nesse bioma, o fogo pode atingir uma área diversas vezes ao longo dos anos, mesmo quando a vegetação consegue rebrotar depois dos incêndios.

Carbono perdido – No Pantanal sul-mato-grossense, o estoque estimado de carbono na vegetação passou de 83,1 milhões de toneladas, em 1985, para 73,4 milhões, em 2024. A redução foi de 9,7 milhões de toneladas. Embora menor que a registrada no Cerrado, essa diferença não representa toda a movimentação de carbono ocorrida no período.

Ao somar as perdas atribuídas aos incêndios ao longo das quatro décadas, os pesquisadores chegaram a 145,7 milhões de toneladas de carbono no Pantanal. Os pesquisadores estimaram em 27 milhões os ganhos associados à recuperação e às mudanças da vegetação.

Os números mostram a importância de considerar os processos ocorridos entre o início e o fim da série histórica. Uma mesma área pode perder carbono durante uma queimada, recuperar parte dele com o crescimento da vegetação e voltar a sofrer perdas quando outro incêndio acontece.

A comparação entre os dois biomas evidencia que a redução do carbono armazenado não tem uma única causa. No Cerrado, predomina a conversão da vegetação nativa para outros usos da terra. No Pantanal, a recorrência do fogo se destaca entre os processos analisados.

Quatro décadas – Um dos principais diferenciais da pesquisa foi o uso de 2.662 inventários florestais associados a processos de licenciamento ambiental do Imasul. Esses documentos reúnem informações sobre as espécies encontradas em áreas de vegetação nativa e os volumes de madeira estimados nos levantamentos. A partir desses registros e de dados científicos sobre a densidade da madeira, os pesquisadores calcularam a quantidade de carbono armazenada em diferentes tipos de vegetação.

As estimativas foram associadas aos mapas do MapBiomas, que registram anualmente as mudanças na cobertura e no uso da terra desde 1985. A pesquisa também incorporou os registros de áreas atingidas pelo fogo.

Com isso, foi possível reconstruir a evolução dos estoques de carbono ao longo de 40 anos, identificando períodos de perda e de recuperação.

Antes, explica Louzada, os levantamentos disponíveis permitiam conhecer a quantidade estimada de carbono em determinadas áreas ou momentos. O novo estudo acrescenta uma dimensão histórica, mostrando como esse armazenamento mudou ao longo das décadas.

A metodologia também permite distinguir situações que podem produzir resultados semelhantes quando observadas apenas no início e no fim do período. Uma área que perdeu vegetação de forma permanente, por exemplo, apresenta uma dinâmica diferente daquela que queimou, se regenerou e voltou a ser atingida pelo fogo.

Os autores ressaltam, contudo, que os resultados são estimativas científicas. O levantamento concentrou-se no carbono armazenado na vegetação acima do solo e não incluiu diretamente os estoques existentes nas raízes e no solo.

Recuperação ambiental – Para Louzada, conhecer a quantidade de carbono armazenada em diferentes formações vegetais pode contribuir para o planejamento de ações de conservação e restauração ambiental. As estimativas permitem avaliar, por exemplo, quanto carbono determinada área poderá voltar a armazenar caso sua vegetação nativa seja recuperada.

“Se algo vai ser restaurado, eu tenho uma ideia de quanto aquilo vai contribuir para a mitigação climática”, afirma.

Louzada defendeu o manejo integrado do fogo e a recuperação de áreas degradadas como medidas importantes para a conservação da vegetação. No Cerrado, a retirada da vegetação nativa para a expansão de pastagens e lavouras teve maior peso na redução do carbono armazenado. No Pantanal, destacaram-se as perdas acumuladas provocadas pelos incêndios recorrentes.

Fonte:Campo Grande News

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