Com foco em industrialização, atração de investimentos estrangeiros, expansão da maquila, uso intensivo de energia renovável e reformas regulatórias, o governo aposta em um plano de longo prazo para transformar a economia do Paraguai, elevar exportações, gerar empregos e dobrar o PIB em apenas uma década
A economia do Paraguai está dando ótimos sinais. O país encerrou 2025 com US$ 1,309 bilhão em exportações da maquila, crescimento de 18% no emprego formal e um plano estatal para dobrar o Produto Interno Bruto em dez anos, combinando incentivos industriais, logística fluvial, energia renovável e foco em valor agregado, segundo dados oficiais e estratégias divulgadas recentemente.
OBS: Maquila é um regime industrial especial que permite a empresas estrangeiras produzir no Paraguai com impostos muito reduzidos, desde que a maior parte da produção seja exportada.
A maquila paraguaia voltou a registrar resultados recordes em 2025, consolidando-se como um dos principais vetores de geração de emprego e exportações do país.
Os dados foram apresentados pela Secretaria Nacional da Indústria Maquiladora de Exportação, vinculada ao Ministério da Indústria e Comércio.
O valor total exportado sob o regime alcançou US$ 1,309 bilhão, reforçando a importância da indústria de transformação para uma economia historicamente concentrada na exportação de matérias-primas. O resultado marca mais um ano de crescimento contínuo do setor.
Do montante exportado, US$ 1,262 bilhão correspondeu a bens de consumo e produtos tangíveis. Outros US$ 47 milhões vieram de serviços intangíveis, segmento que começa a ganhar espaço dentro da estrutura da maquila e amplia o escopo do regime.

Impacto no mercado de trabalho e na economia do Paraguai
O avanço das exportações teve impacto direto sobre o mercado de trabalho e a economia do Paraguai. Em 2025, a maquila registrou um crescimento interanual de 18% no emprego formal, totalizando 35.357 postos ativos, o equivalente à criação de 5.401 novos empregos em relação a 2024.
Segundo o responsável interino pela Secretaria Nacional da Indústria Maquiladora de Exportação, Diego Peyrat, o setor não apenas superou a marca de US$ 1 bilhão em exportações, como também reforçou seu papel social ao ampliar a geração de empregos formais.
Esses resultados, divulgados pelo portal abc.com.py, colocam a maquila como um dos pilares da estratégia paraguaia de crescimento industrial e inserção regional, com reflexos diretos na renda, no emprego e na diversificação produtiva.
Autopartes lideram, mas estrutura produtiva se diversifica
A composição das exportações mostra que a maquila paraguaia segue ancorada em setores industriais integrados ao mercado regional. As autopartes lideraram os envios em 2025, respondendo por 34% do total exportado sob o regime.
Na segunda posição aparecem as confecções e os produtos têxteis, com participação de 16%. O segmento é considerado estratégico pela capacidade de absorver mão de obra e pela dinâmica constante de renovação de produtos.
O alumínio e suas manufaturas responderam por 14% das exportações, enquanto os produtos alimentícios representaram 12%. Já plásticos e produtos farmacêuticos somaram 6% do total, com destaque para o crescimento das vendas externas do setor farmacêutico.
Os principais destinos das exportações da maquila continuam concentrados nos países do Mercosul, o que reforça a integração produtiva regional e a importância do bloco para a indústria paraguaia.
Setor têxtil concentra potencial de emprego intensivo
Dentro da estrutura da maquila, o segmento de confecções e têxteis é apontado como um dos mais promissores em termos de expansão futura. Trata-se de um setor caracterizado por ciclos curtos de produção e elevada demanda por mão de obra.
Linhas industriais desse segmento podem empregar entre 500 e 600 trabalhadores em uma única planta dedicada à produção de vestuário. Esse perfil torna o setor relevante para políticas de geração de emprego em escala.
A secretaria registra de forma recorrente solicitações de aprovação de novos programas de maquila por empresas do ramo têxtil, indicando interesse contínuo em ampliar operações no país e aproveitar os incentivos do regime.
2026 combina expectativas positivas e desafios regulatórios
As perspectivas para 2026 e a economia do Paraguai são avaliadas como positivas, embora desafiadoras. A expectativa do governo paraguaio é de que novas leis de investimento, maquila e produção, aprovadas no ano anterior, ampliem o potencial de crescimento do setor industrial.
Segundo Peyrat, as novas normativas devem fortalecer especialmente a maquila de serviços, área que já conta com empresas exportadoras, mas que tende a ganhar maior segurança jurídica e previsibilidade com o novo marco legal.
A estabilidade macroeconômica do Paraguai, combinada a um ambiente jurídico considerado claro e a custos de produção competitivos frente aos países vizinhos, é apontada como fator central para atrair novos projetos industriais.
A expectativa oficial é de que um volume significativo de novos empreendimentos seja apresentado ao longo de 2026, ampliando tanto a base exportadora quanto a geração de empregos formais.
Serviços entram no radar da maquila
A ampliação da maquila de serviços representa uma mudança relevante na lógica tradicional do regime, historicamente associado à produção industrial física. Com a nova legislação, o governo busca atrair empresas voltadas à exportação de serviços.
A estratégia inclui ampliar a segurança jurídica para esse tipo de operação e incentivar a contratação de mão de obra local, especialmente em atividades que demandam qualificação técnica.
A diversificação para serviços é vista como instrumento para reduzir a dependência exclusiva de manufaturas e ampliar a resiliência da base exportadora paraguaia.
Plano Paraguay 2X mira duplicação do PIB em dez anos
Paralelamente ao desempenho da maquila, o Paraguai estruturou uma estratégia industrial de longo prazo conhecida como Paraguay 2X. O plano tem como objetivo dobrar o tamanho da economia em um horizonte de dez anos.
Atualmente, o Produto Interno Bruto do país gira em torno de US$ 45 bilhões. Duplicar esse valor significaria alcançar um patamar próximo de US$ 90 bilhões até meados da próxima década.
Segundo o vice-ministro da Indústria, Marco Riquelme, o país reúne condições estruturais e macroeconômicas para sustentar esse salto, desde que consiga acelerar o processo de industrialização e agregação de valor.
A estratégia foi detalhada em reportagem da revista Forbes e envolve a concentração de esforços em setores considerados estratégicos para a competitividade internacional.
Visibilidade internacional como primeiro passo
De acordo com Riquelme, um dos principais desafios iniciais do plano é ampliar a visibilidade internacional do Paraguai como destino de investimentos produtivos. O país, segundo ele, ainda enfrenta um déficit de conhecimento externo sobre suas vantagens competitivas.
Nesse contexto, a agenda internacional do presidente Santiago Peña é vista como instrumento central para inspirar confiança e atrair investidores, posicionando o Paraguai como alternativa regional viável.
A lógica é mostrar que o país já dispõe de marcos regulatórios, estabilidade macroeconômica e condições estruturais para receber projetos industriais de médio e grande porte.
Foco em 27 produtos e quatro verticais estratégicas
O plano Paraguay 2X identificou 27 produtos nos quais o Paraguai apresenta condições claras de competir nos mercados internacionais. Esses produtos foram agrupados em quatro grandes verticais estratégicas.
A primeira vertical é a de alimentos, aproveitando a forte base agropecuária do país e buscando avançar no processamento e na geração de valor agregado.
A segunda vertical é a metalmecânica, vinculada tanto ao agronegócio quanto à indústria regional, com potencial para integração em cadeias produtivas mais complexas.
A terceira corresponde ao setor florestal, com foco em móveis, celulose e derivados industriais. A quarta vertical envolve novas tecnologias, como Power to X, inteligência artificial e atividades intensivas em energia.
Energia barata como vantagem estrutural
A disponibilidade de energia elétrica abundante e de baixo custo é um dos pilares centrais da estratégia industrial paraguaia. O país gera e consome eletricidade praticamente 100% de origem renovável, proveniente de hidrelétricas.
Essa característica sustenta a atração de indústrias eletrointensivas, embora o governo e o setor privado ressaltem a importância de priorizar atividades que gerem empregos e valor agregado.
Há preocupação com atividades que consomem energia, mas empregam pouca mão de obra, o que poderia limitar os ganhos sociais do modelo no longo prazo.
Incentivos fiscais e ambiente regulatório
Regimes como a maquila, a lei 60/90 e novas normativas para bens de alta tecnologia compõem o pacote de incentivos utilizado pelo Paraguai para competir por investimentos industriais.
Esses instrumentos foram atualizados recentemente, com o objetivo de ampliar sua divulgação internacional e reforçar a competitividade do país em um ambiente regional cada vez mais restritivo em termos fiscais.
Do ponto de vista empresarial, o Paraguai se diferencia por menor carga tributária, menor incidência de impostos indiretos e processos burocráticos mais simples em comparação a outros países do Mercosul.
Mercosul e integração regional
Apesar da integração comercial existente, autoridades paraguaias avaliam que o Mercosul ainda carece de uma identidade clara como bloco industrial integrado. Investidores tendem a analisar Brasil, Argentina e Uruguai de forma isolada.
Avançar para uma visão mais integrada poderia ampliar a atratividade do mercado regional como unidade econômica, facilitando decisões de investimento de maior escala.
Logística e Hidrovia Paraguai–Paraná
A logística é outro eixo central da estratégia industrial. Persistem percepções equivocadas sobre o custo logístico do Paraguai, que acabam excluindo o país de análises iniciais de investidores.
Para enfrentar esse problema, o governo busca fortalecer a marca da Hidrovia Paraguai–Paraná como corredor estratégico de transporte. A via se estende por mais de 3.400 quilômetros.
Mais de 80% do comércio exterior paraguaio é transportado por essa hidrovia, que permite movimentar grandes volumes a custos inferiores aos do transporte rodoviário.
Planejamento territorial e parques industriais
No campo interno, o governo atua em três frentes para sustentar o crescimento industrial. A primeira é o planejamento territorial, com uma nova lei de parques industriais.
O objetivo é coordenar melhor a ocupação do território, delimitando áreas industriais e urbanas em conjunto com os municípios, reduzindo conflitos e ampliando a eficiência logística.
Financiamento como gargalo estrutural
O segundo eixo é o financiamento. O próprio governo reconhece que o país ainda não dispõe de instrumentos suficientes para oferecer crédito de longo prazo a taxas mais baixas para investimentos industriais.
A estratégia envolve trabalhar com o sistema bancário e com a banca pública para desenvolver alternativas que viabilizem projetos de maior porte e maturação mais longa.
Capacitação e capital humano
O terceiro eixo é a capacitação laboral. A expansão industrial exige alinhamento entre formação profissional e demanda das novas indústrias que se instalam no país.
Instituições de treinamento e universidades técnicas são chamadas a desempenhar papel central nesse processo. Ainda assim, há reconhecimento de que as próprias empresas terão de investir na formação de trabalhadores.
Representantes do setor privado alertam que o capital humano pode se tornar o principal gargalo do modelo, tanto na formação quanto na retenção de talentos em um mercado mais dinâmico.
Valor agregado como objetivo central
A industrialização é apresentada como caminho para elevar o valor das exportações paraguaias. Transformar soja em proteína animal ou milho em alimentos processados significa mudar o patamar de preços por tonelada exportada.
Esse movimento tem impacto direto sobre a geração de divisas e sobre os salários pagos internamente. Exportar produtos acabados permite maior remuneração do trabalho do que a venda de matérias-primas.
A lógica defendida é que indústria, agro e serviços não competem entre si, mas se complementam em um modelo integrado de desenvolvimento econômico.
Um modelo em execução
Com incentivos fiscais, energia renovável, logística fluvial, planejamento territorial e foco em capacitação, o Paraguai busca consolidar-se como plataforma produtiva regional.
O desafio está em executar com velocidade e coerência um modelo capaz de transformar vantagens estruturais em desenvolvimento econômico sustentável de longo prazo, mantendo o ritmo de crescimento observado em 2025 e respondendo a um cenário internacional cada vez mais competitivo e volátil, no qual decisões rápidas e coordenação institucional serão determinantes para o sucesso do país, mesmo diante de limitações históricas de financiamento e formação profissional que ainda precisam ser superadas ao longo do tempo.
Este artigo foi elaborado com base em informações publicadas pelo portal abc.com.py sobre o desempenho da maquila paraguaia em 2025 e nas análises da revista Forbes a respeito do plano Paraguay 2X e da estratégia de industrialização do Paraguai para dobrar sua economia em dez anos.