Rio da Prata registra nova seca em Bonito e Jardim após três anos de alertas

O Rio da Prata não acordou um belo dia e resolveu desaparecer por capricho. O problema que voltou a assustar Jardim e toda a região turística de Bonito em 2026 carrega uma história bem mais comprida. Desde 2024, a seca de trechos do rio mobiliza moradores, ambientalistas, Polícia Militar Ambiental e Ministério Público. Em 2025, a cena se repetiu. Agora, em 2026, o assunto volta ao radar. Três anos consecutivos são suficientes para trocar a palavra “surpresa” por uma pergunta bem mais incômoda: afinal, o que está acontecendo com uma das águas mais valiosas da Serra da Bodoquena?

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul abriu, em 12 de julho de 2024, o Inquérito Civil nº 06.2024.00000662-9 para investigar as causas da seca em parte do Rio da Prata. A apuração alcançou um trecho de aproximadamente 6,9 quilômetros e buscou identificar propriedades às margens do rio que eventualmente não estivessem respeitando as Áreas de Preservação Permanente. Naquele ano, além da estiagem, apareceram indícios de interferência humana: em um ponto foi encontrada até uma barragem improvisada com sacos de ráfia cheios de terra, interrompendo o fluxo da água. (Campo Grande News)

A situação não terminou com a mudança do calendário. Em setembro de 2025, o próprio MPMS informou que havia prorrogado o inquérito por mais um ano porque ainda existiam diligências a serem concluídas. Pelo segundo ano consecutivo foi necessário resgatar peixes presos em poças formadas no leito seco. Na operação daquele setembro, 148 peixes foram retirados e levados para partes mais profundas e seguras do rio. No ano anterior, outra ação já havia realocado cerca de 200 animais. Ou seja: quando é preciso carregar peixe para onde ainda existe água, talvez o problema já tenha ultrapassado a fase do discurso ambiental bonito para fotografia. (Ministério Público de MS)

É importante não simplificar a causa. A região atravessou períodos severos de escassez hídrica e falta de chuvas regulares. Mas a investigação do Ministério Público existe justamente porque fatores climáticos não encerraram as dúvidas sobre possíveis interferências humanas. O próprio MPMS informou que a apuração pretende aprofundar a análise dos impactos ambientais e de eventuais ações irregulares na cabeceira do rio. Portanto, atribuir tudo exclusivamente à seca antes da conclusão da investigação seria tão precipitado quanto afirmar que toda a responsabilidade é humana. (Ministério Público de MS)

E aqui a memória ambiental de Bonito começa a ficar particularmente interessante. Dez anos antes da atual crise, em maio de 2016, a Polícia Militar Ambiental realizou uma grande fiscalização nas várzeas e nascentes ligadas ao Rio da Prata. Na Fazenda São Francisco, os policiais identificaram 26 quilômetros de drenos, abrangendo uma área de 993 hectares, construídos para promover a secagem do solo das várzeas destinada à atividade agrícola. Segundo a PMA, também haviam sido desmatados 684 hectares de vegetação de várzea e os drenos desembocavam no sistema hídrico ligado ao Rio da Prata. O proprietário recebeu, à época, multa administrativa de R$ 13 milhões e as atividades foram interditadas. (Portal do Munícipio)

E atenção para não colocar todas as fazendas no mesmo curral: os famosos 993 hectares não pertenciam à Fazenda Arco-Íris. Eram referentes à Fazenda São Francisco. A Arco-Íris apareceu na mesma sequência de fiscalizações de 2016 por outros problemas. Segundo a PMA, havia gado dentro de Área de Preservação Permanente do Córrego Turvo, afluente do Rio da Prata, ausência de cercamento e aproximadamente 8,5 hectares de área protegida afetada. A propriedade também foi alvo de autuação ambiental naquele período. (Sejusp)

A ligação política daquela história também merece registro histórico, sem necessidade de acrescentar tempero. A Fazenda Arco-Íris pertencia ao então prefeito de Bonito, Leonel Lemos de Souza Brito, o Leleco, conforme registros publicados à época. Reportagem do Campo Grande News informou multa de aproximadamente R$ 520 mil relacionada às irregularidades ambientais encontradas na propriedade. Portanto, quando alguém disser que as preocupações com as nascentes e várzeas do Rio da Prata começaram ontem, talvez seja conveniente apresentar um calendário: já em 2016 polícia, órgãos ambientais e Ministério Público olhavam para aquela região com bastante atenção. (Campo Grande News)

O que ainda precisa ser esclarecido é quanto daquela história ambiental foi efetivamente resolvido. Multa aplicada não significa automaticamente multa paga; autuação não é sinônimo de condenação definitiva; e recuperação ambiental determinada precisa ser acompanhada para saber se saiu do papel. É justamente aí que mora uma parte importante da próxima etapa desta investigação jornalística: descobrir o destino dos processos, dos valores e das obrigações de recuperação ambiental estabelecidas naquela época.

Enquanto isso, o Rio da Prata continua mandando um recado difícil de ignorar. Secou em 2024. Voltou a apresentar situação crítica em 2025. E chega a 2026 novamente no centro das preocupações. O Ministério Público mantém uma investigação aberta para compreender as causas do problema, enquanto documentos oficiais mostram que intervenções ambientais nas várzeas e nascentes da região já preocupavam as autoridades há pelo menos uma década.

Bonito vende ao mundo natureza preservada, rios transparentes e sustentabilidade. O Rio da Prata ajuda a sustentar essa fotografia, movimentando turismo, empregos e dinheiro em toda a região. Só existe um pequeno detalhe que nenhuma campanha publicitária consegue resolver: para continuar vendendo água cristalina, primeiro é preciso garantir que continue existindo água.

Bonito Sem Filtro News — porque memória ambiental também faz parte da preservação.

Antes de depois do Rio da Prata em Jardim MS — Foto: Nisroque Soares Junior

Fonte:Bonitosemfiltro

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