O que é o inquérito das fake news, que agora tem Fachin na relatoria, após tirar Moraes da mesma

O Inquérito 4781, mais conhecido como o Inquérito das Fake News, é um dos procedimentos investigativos mais controversos e longevos da história do Supremo Tribunal Federal (STF) e do país. A apuração ganhou notoriedade por alterar ritos tradicionais do sistema acusatório brasileiro, concentrando no ministro relator papéis de investigador, vítima e julgador.

Agora, o presidente da Corte, o ministro Edson Fachin passou a relatar os próximos atos. Todas as decisões anteriores seguem sob o antigo relator, o ministro Alexandre de Moraes. O presidente pediu manifestações da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal. Ele já disse que é sua intenção encerrar e foi criticado por Flávio Dino por isso.

Origem e contexto
A abertura do processo ocorreu em 14 de março de 2019 por determinação do então presidente do STF, ministro Dias Toffoli. A medida fundamentou-se no artigo 43 do Regimento Interno da Corte, dispositivo que disciplina a apuração de crimes cometidos nas dependências do tribunal. A relatoria foi atribuída diretamente ao ministro Alexandre de Moraes por escolha de Toffoli, sem a realização de sorteio prévio ou distribuição por livre concorrência entre os demais integrantes do tribunal. Além disso, a investigação foi instaurada de ofício, dispensando a provocação inicial da PGR.

O objetivo anunciado era apurar a disseminação das práticas, então recentes, das notícias falsas nas redes sociais, além de supostos ataques, ameaças e declarações caluniosas direcionadas aos ministros do STF e seus familiares.

O grande estopim para a abertura do procedimento foi a publicação da reportagem “O amigo do amigo do meu pai” pela revista Crusoé e reproduzida pelo site O Antagonista, que citava uma suposta relação entre Dias Toffoli e o empreiteiro Marcelo Odebrecht. Inicialmente, o relator ordenou a remoção do conteúdo do ar — medida criticada como censura prévia —, mas a decisão acabou revogada dias depois.

Principais críticas
Inconstitucionalidade de origem: juristas e especialistas apontam violação ao princípio do juiz natural devido à ausência de sorteio, além do desrespeito ao sistema acusatório, já que a própria Corte instaurou a investigação e passou a atuar como acusadora e julgadora.

Ausência de escopo e prazo: o procedimento é apelidado por críticos de “inquérito sem fim”, por ser renovado periodicamente sem a apresentação de um objeto delimitado ou data para conclusão.

Censura e sanções administrativas: ordens de bloqueio de perfis e remoção de canais em redes sociais afetam o debate público e aplicam punições antes do trânsito em julgado das ações.

Sigilo excessivo: a restrição de acesso aos autos e a opacidade das apurações dificultam a atuação regular do amplo direito de defesa dos investigados.

Expansão e ramificações
Ao longo dos anos, o procedimento passou a funcionar como uma “árvore de investigações”, originando novos desdobramentos e processos paralelos no tribunal. Entre as apurações derivadas estão o Inquérito dos Atos Antidemocráticos (INQ 4828), o Inquérito das Milícias Digitais (INQ 4874) e as investigações relativas aos eventos de 8 de janeiro.

A tramitação do Inquérito 4781 atingiu dezenas de alvos, incluindo parlamentares, empresários, jornalistas, influenciadores digitais e ex-integrantes do Poder Executivo. As medidas cautelares impostas envolvem bloqueio de páginas em redes sociais, quebra de sigilos bancário e fiscal, retenção de passaportes, monitoramento por tornozeleira eletrônica e prisões preventivas.

Principais alvos:
Políticos e parlamentares
O ex-deputado federal Daniel Silveira teve a prisão decretada em desdobramentos do inquérito após a divulgação de vídeos com ataques a ministros da Corte.

O ex-deputado Roberto Jefferson também foi alvo de mandados de busca e apreensão e, posteriormente, teve a prisão preventiva decretada.

Outros nomes do cenário político foram incluídos nas investigações, como as deputadas Bia Kicis e Carla Zambelli, que tiveram quebras de sigilo bancário e fiscal determinadas, além do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, investigado após declarações contra a Corte em reunião ministerial.

O partido PCO (causado por falas de Rui Pimenta) teve perfis e conteúdos removidos das redes sociais, enquanto nomes como Filipe Barros, Cabo Junio Amaral, Luiz Philippe de Orléans e Bragança, Douglas Garcia e Gil Diniz figuraram entre os investigados.

O ex-presidente Jair Bolsonaro também se tornou alvo de procedimentos correlatos derivados dessa estrutura investigativa.

Influenciadores, jornalistas e ativistas
O jornalista Allan dos Santos, do canal Terça Livre, tornou-se alvo de ordens de prisão preventiva, bloqueios de contas bancárias, cancelamento de perfis digitais e pedido de extradição internacional. O influenciador e jornalista Bernardo Küster sofreu mandados de busca e apreensão e teve seus perfis bloqueados por ordem judicial.

Os ativistas Edson Salomão, Marcos Belizzia, Sara Winter e Winston Lima também foram submetidos a buscas e retenção de aparelhos eletrônicos. Outros nomes alcançados pelas medidas cautelares e apurações incluem Enzo Leonardo (“Enzuh”), o humorista Reynaldo Bianchi Junior e o jornalista Luís Pablo.

Empresários
Entre os empresários atingidos pelas medidas do inquérito está Luciano Hang, dono da rede Havan, que foi alvo de mandados de busca e apreensão, quebras de sigilo bancário e fiscal e sucessivos bloqueios de perfis em plataformas digitais. O empresário Edgard Corona, das redes Smart Fit e BioRitmo, e Otavio Fakhouri, colaborador do site Crítica Nacional, também foram alvos de buscas e quebras de sigilo sob a suspeita de financiar a disseminação de desinformação e ataques contra as instituições.

Ministro do STF
O ministro André Mendonça chegou a ser incluído por Moraes, depois de derrubar sigilo sobre mensagens de Moraes para o banqueiro Daniel Vorcaro. Fachin posteriormemnte revogou este enquadramento na investigação.

Fonte: GazetadoPovo, por Hermano Freitas

Related posts

Rio da Prata registra nova seca em Bonito e Jardim após três anos de alertas

Por que municípios pequenos de MS concentram as maiores taxas de violência do estado?

‘Eu não imaginava’, diz observador que filmou casal da maior águia das Américas com câmera trap