A palavra como território, gesto e resistência conduziu a participação do poeta Sergio Vaz na 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB), nesta quarta-feira (8), no Palco Literário. Em palestra com o tema “O delírio da Palavra e a imaginação”, o escritor falou sobre literatura periférica, criação poética e a força da escrita como forma de existência.
Fundador da Cooperifa e um dos principais nomes da literatura periférica brasileira, Sergio Vaz recitou poemas, conversou com o público e respondeu perguntas de estudantes que acompanharam a atividade. Autor de obras como “Colecionador de pedras” e “Literatura, pão e poesia”, ele defendeu que escrever também é um ato de permanência, mesmo quando parece não haver leitores ou reconhecimento imediato.
“Não é porque as pessoas não estão lendo que a gente vai deixar de escrever. Não é porque as pessoas não estão vendo que a gente vai deixar de fazer. A periferia está produzindo, publicando e ocupando espaço na literatura brasileira”, afirmou.
Para Sergio Vaz, a ideia de centro também precisa ser revista. Ao comentar sua presença em Bonito, distante dos grandes eixos editoriais do país, o poeta defendeu que cada território reconheça a própria potência. “Nós, que somos da periferia, precisamos inverter a bússola. Onde estivermos, somos o centro. Se estamos em Bonito, que Bonito seja a capital neste momento. É preciso valorizar a nossa existência e ter autoestima para entender que aqui também é o centro”, disse.
A troca com os estudantes foi um dos pontos altos da palestra. A jovem Naiane perguntou sobre o momento certo para publicar o que se escreve. Sergio respondeu com simplicidade e incentivo: é preciso escrever. Para ele, o medo da opinião dos outros não pode ser maior que o desejo de criar.
O poeta também compartilhou referências de leitura com a plateia. Indicou “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, aos estudantes, e contou que tem se dedicado à leitura de autores russos, como Dostoiévski, citando obras como “Os Irmãos Karamázov” e “Noites Brancas”.
Ao falar sobre IA, Sergio defendeu a experiência humana como matéria essencial da literatura. “Esse negócio de inteligência artificial nunca vai reproduzir a experiência de um Dostoiévski. Como reproduzir esse tipo de experiência? Eu não troco esse negócio por inteligência natural”, provocou.
Entre poesia, provocação e escuta, Sergio Vaz transformou o bate papo mediado pela professora Karina Vicelli (IFMS Dourados) em uma conversa sobre leitura, pertencimento e coragem criativa. Na FLIB, sua presença reforçou a literatura como espaço de imaginação, mas também de afirmação de quem escreve a partir das margens e reivindica, com a palavra, o direito de ocupar o centro.
Evento oficial
A FLIB, em 2026, presta homenagem à escritora Lygia Fagundes Telles e ao escritor e editor douradense Luciano Serafim, que faleceu em 2025 e teve participação marcante na história da feira.
A edição conta com apoio de instituições públicas e privadas, incluindo recursos viabilizados por emendas parlamentares, além da participação da Caixa, Sesc MS, Sebrae, Sanesul, Prefeitura Municipal de Bonito, Câmara Municipal de Bonito, Ministério da Cultura e do Estado de Mato Grosso do Sul.
A FLIB integra o Calendário Municipal de Eventos de Bonito e, desde a publicação do decreto estadual nº 6.457, de 11 de agosto de 2025, também faz parte do Calendário Oficial de Eventos de Mato Grosso do Sul, reforçando sua relevância no cenário cultural e educacional do estado.
Serviço:
10ª Feira Literária de Bonito (FLIB)
Data: 7 a 12 de julho de 2026
Local: Praça da Liberdade, Bonito/MS
Programação disponível em https://flibonito.com