Estado responde por 9,2% do mercado nacional de seguro agrícola; economista explica importância da proteção para a gestão de riscos no campo
A contratação de seguro agrícola em Mato Grosso do Sul caiu 42,7% no acumulado de janeiro a maio de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados da Conjuntura CNseg, análise mensal da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). No acumulado de 12 meses, entre maio de 2025 e maio de 2026, a retração chega a 47,3%.
O Estado representa 9,2% do mercado nacional de seguro agrícola. Diante da redução nas contratações, a discussão sobre o papel do seguro no planejamento econômico da atividade rural ganha relevância, especialmente porque a lavoura concentra uma parcela significativa do capital investido pelo produtor ao longo do ciclo produtivo.
Para o economista e diretor de negócios da Agricon Consultoria, Hudson Garcia, o seguro agrícola deve ser encarado como uma ferramenta estratégica de gestão de riscos, e não apenas como um custo adicional da produção.
“O seguro agrícola é uma ferramenta estratégica porque permite ao produtor transferir parte de um risco que, de outra forma, ficaria totalmente dentro da propriedade. É uma forma de proteger o capital investido na lavoura e preservar a capacidade financeira do produtor diante de uma eventual perda”, explica.
Segundo Hudson, a decisão sobre a contratação deve fazer parte do planejamento da safra e considerar a capacidade financeira de cada propriedade.
“A questão não é simplesmente quanto custa o seguro, mas quanto risco o produtor consegue assumir. É preciso avaliar quanto capital está exposto, quais riscos podem comprometer esse capital e quanto dessa exposição pode ser transferida por meio da cobertura contratada”, afirma.
O seguro agrícola é uma das modalidades do seguro rural voltadas à proteção contra perdas decorrentes de eventos climáticos, conforme as condições previstas em cada apólice. A cobertura pode ser estruturada sobre diferentes bases, como custeio, produtividade ou faturamento, de acordo com o produto contratado.
Para o economista, a proteção deve ser analisada em conjunto com os demais componentes da estrutura financeira da safra.
“O produtor planeja os custos com sementes, fertilizantes, defensivos, combustível, operações, mão de obra, financiamento e logística. O seguro precisa estar dentro dessa mesma lógica de planejamento, porque estamos falando de proteger uma parcela do capital que foi investido antes de a receita da produção acontecer”, destaca.
Menor proteção
A queda na contratação do seguro agrícola em Mato Grosso do Sul ocorre em um contexto de redução também da proteção proporcionada pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).
Em 2024, aproximadamente R$ 1,072 bilhão em subvenções permitiram a emissão de 138.101 apólices, abrangendo cerca de 7,3 milhões de hectares e R$ 51,6 bilhões em capital segurado. Em 2025, foram utilizados R$ 565,4 milhões, com mais de 42 mil produtores, 3,2 milhões de hectares e R$ 17,8 bilhões de capital protegido.
Os números do PSR não representam todo o mercado de seguro agrícola, já que existem contratações realizadas sem subvenção federal, mas demonstram a redução recente da área protegida pelo programa.
Para Hudson Garcia, a decisão sobre o seguro deve considerar o risco que cada propriedade tem condições de absorver.
“Todo negócio assume riscos. No agronegócio não é diferente. O produtor pode reter determinados riscos, reduzir outros com tecnologia e manejo e transferir uma parcela por meio do seguro. O importante é entender qual nível de risco a propriedade consegue suportar sem comprometer seu capital de giro, suas obrigações e a próxima safra”, conclui.
Contexto climático
A próxima safra também será acompanhada de um cenário de maior atenção às condições climáticas. A atualização de agosto do Climate Prediction Center, da NOAA, aponta 95% de probabilidade de o El Niño atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026. O fenômeno, no entanto, não determina isoladamente o comportamento da produção agrícola, que depende de fatores como cultura, localização, solo, época de plantio, manejo e distribuição das chuvas.
Assim, mais do que antecipar perdas, o cenário reforça a importância de incorporar a gestão de riscos ao planejamento econômico da atividade rural.
Fonte: InfinitoComunicação