O avanço das facções criminosas pelo interior de Mato Grosso do Sul mostra que o combate ao crime organizado não pode começar apenas quando o primeiro tiro é disparado. Quando surgem execuções, disputas territoriais e confrontos armados, os criminosos já estabeleceram rotas, movimentaram dinheiro, recrutaram jovens e criaram redes de influência dentro das comunidades.
Reportagem de Bruna Marques, do Campo Grande News, mostra que PCC e Comando Vermelho ampliam sua presença por meio de ações assistenciais, infiltração na economia formal e alianças locais. Levantamento do Ministério Público identificou, somente entre janeiro e julho de 2026, confrontos, execuções e mortes relacionadas a disputas territoriais em 25 municípios sul-mato-grossenses. O Estado ainda não está dominado pelas facções, segundo o Gaeco, mas os sinais de avanço são evidentes. E ignorá-los seria entregar tempo e território ao crime organizado. Leia a reportagem.
Mato Grosso do Sul ocupa uma posição estratégica no mapa do tráfico internacional. São extensas fronteiras com Paraguai e Bolívia, cortadas por estradas, rios, pistas clandestinas e caminhos rurais difíceis de fiscalizar. Por essas rotas entram cocaína, maconha, armas, munições e mercadorias contrabandeadas. O mesmo território que favorece a integração econômica e a Rota Bioceânica também desperta o interesse das maiores organizações criminosas do País.
Não é razoável deixar uma área tão sensível sob a responsabilidade quase exclusiva de forças policiais que, embora atuem com coragem e apresentem resultados, enfrentam limitações de pessoal, equipamentos e extensão territorial. Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal e forças estaduais precisam do apoio permanente das Forças Armadas.
A legislação já permite essa atuação. A Lei Complementar nº 97 autoriza Marinha, Exército e Aeronáutica a desenvolver ações preventivas e repressivas na faixa de fronteira contra delitos transfronteiriços. Os militares podem realizar patrulhamento, revistar pessoas, veículos, embarcações e aeronaves, além de efetuar prisões em flagrante, preservadas as atribuições das polícias judiciárias. Portanto, não falta respaldo legal. Falta transformar a previsão em presença contínua, planejamento e resultado.
Acionar as Forças Armadas não significa militarizar as cidades nem substituir as polícias. Significa empregar pessoal, inteligência, radares, aeronaves, embarcações e capacidade logística onde o crime organizado começa a formar sua cadeia de abastecimento. O trabalho militar deve se concentrar na fronteira e nas rotas de entrada, integrado às instituições responsáveis pela investigação, identificação de lideranças e lavagem de dinheiro.
A Operação Ágata demonstra que essa integração é possível. Coordenada pelo Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, ela reúne militares e órgãos de segurança para combater narcotráfico, tráfico de armas, contrabando, descaminho e outros crimes. O problema é que operações de duração limitada, embora necessárias, não bastam diante de organizações que trabalham todos os dias, durante o ano inteiro. Segundo o Ministério da Defesa, a ação envolve vigilância aérea, patrulhamento de rios e fiscalização das estradas que dão acesso ao País.
O crime não tira férias nem espera o calendário oficial de operações. Enquanto o poder público mobiliza tropas por alguns dias, as facções estudam caminhos alternativos, compram silêncio, corrompem agentes, abrem empresas de fachada e encontram jovens vulneráveis dispostos a trabalhar por dinheiro rápido. A resposta precisa ser permanente, baseada em inteligência e acompanhada de investimentos sociais nos municípios mais expostos.
Também não basta apreender toneladas de drogas se o dinheiro do tráfico continuar circulando em mercados, transportadoras, imóveis, postos de combustíveis e outros negócios aparentemente legais. É necessário bloquear contas, confiscar patrimônio, identificar financiadores e interromper a estrutura econômica das facções. A presença militar na fronteira deve ser uma parte de uma estratégia maior, nunca uma ação isolada.
O Brasil não pode aceitar que Mato Grosso do Sul seja tratado como simples corredor de drogas e armas. Cada carregamento que atravessa a fronteira financia a compra de armamento, o recrutamento de adolescentes, a corrupção e a expansão territorial das organizações criminosas.
As Forças Armadas existem para proteger o território nacional. Neste momento, proteger a fronteira também significa impedir que o poder das facções avance sobre as cidades. Quanto mais cedo o Estado fechar as portas de entrada do crime, menor será o preço pago pela população depois.
Fonte:Campo Grande News