segunda-feira, 14 setembro, 2026 11:59
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Guerra sangrenta de PCC e CV na fronteira do MS com a Bolívia

de @bonitonet
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Disputa por rotas do tráfico leva facção carioca a espalhar terror em áreas dominadas pelo PCC no Mato Grosso do Sul e em território boliviano

A disputa por rotas de tráfico de cocaína entre as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) tem criado uma onda de violência na fronteira de Brasil e Bolívia. A nova escalada de crimes ocorre em cidades de Mato Grosso do Sul e também no lado boliviano. Autoridades do país vizinho responsabilizam as duas organizações criminosas brasileiras por ao menos dez homicídios nas últimas semanas.

Do lado de cá da fronteira, só neste ano ao menos 100 mortes foram causadas por esta guerra, segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul. No dia 3, uma operação do MP prendeu um integrante do CV responsável por divulgar uma lista de 24 pessoas marcadas para morrer por suposta ligação com a facção rival. Dois integrantes da lista foram assassinados dias após a divulgação – uma criança de 3 anos morreu em um dos ataques.

No mês passado, a Bolívia lançou o plano Fronteiras Seguras para combater a expansão de grupos criminosos estrangeiros. Na ocasião, o ministro da Defesa da Polícia da Bolívia, Marco Antônio Ovieda, atribuiu a alta criminalidade à disputa PCC x CV. O plano prevê aumento de polícias especializadas dos dois países nas áreas limítrofes.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil e o governo de Mato Grosso do Sul dizem atuar de forma integrada no combate ao narcotráfico. Já Mato Grosso diz ter intensificado “ações de enfrentamento na região de fronteira, apesar de ser responsabilidade da União”.

A nova guerra entre as facções começou no ano passado, mas ficou mais sangrenta este ano, segundo o promotor de Justiça Felipe Marques, do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS). Desde janeiro, segundo ele, mais de 100 pessoas já foram mortas em razão da batalha.

PCC e CV disputam o comando de rotas para escoar drogas que entram no Brasil por meio das fronteiras com Paraguai e Bolívia. Pela localização estratégica (fronteira seca, ou seja, sem o obstáculo de rios e lagos), Mato Grosso do Sul é estratégico para o domínio de território e, consequentemente, das rotas de escoamento de cocaína. Foi a partir daí que as mortes começaram, segundo ele.

“No Mato Grosso do Sul sempre houve hegemonia do PCC, em razão da proximidade com o oeste de São Paulo, onde há concentração de presos da facção. Já Mato Grosso historicamente foi dominado pela facção carioca. Este ano, a gente percebeu que eles começaram a expandir o domínio do Mato Grosso para o Mato Grosso do Sul, provavelmente em razão das rotas de drogas oriundas da Bolívia e do Paraguai”, diz Marques.

Lista da morte em redes sociais
Marques conta que a estratégia do CV é ampliar o domínio de território em cidades do norte do Estado, como Sonora, Coxim, Cassilândia e Chapadão do Sul, impondo terror digital. “Criaram perfis em redes sociais, como Instagram e TikTok, para ameaçar pessoas vinculadas ao PCC ou cidadãos que decidiram não aderir à ideologia deles”, explica.

No dia 3, o MP desencadeou a Operação Death List (Lista da Morte) e prendeu, em Juscimeira (MT), o suspeito de divulgar uma lista de 24 pessoas marcadas para morrer. A lista identificava nominalmente possíveis vítimas e as apresentava como “decretadas” pelo CV, com fotografias, apelido e cidade ou bairro de residência.

A operação prendeu Pablo Santos, de 19 anos, apontado como autor de uma das listas. Ele adotava o nome de usuário @zoidegatocvtudo2 e o nome Cassilandia MS: os alvos estavam em cidades como Cassilândia, Inocência e Miranda, no Mato Grosso do Sul. A reportagem tenta contato com a defesa de Santos.

Segundo o promotor, parte expressiva das publicações queria projetar a presença da facção no interior do Estado e a comunicar, de forma ostensiva, a pretensão de controle territorial, como avisos: “Mato Grosso do Sul: O CV está Avançando”.

Dois que tinham os nomes na lista foram assassinados. Uma das vítimas, Gustavo Loschiavo Araujo, de 29 anos, foi morto a tiros em Cassilândia, a 490 km de Campo Grande, em seu carro. Após o homicídio, o perfil de Pablo publicou a fotografia da vítima com a inscrição: “eliminado”.

Imagens de pessoas marcadas para morrer que circularam em redes sociais com ameaças do Comando Vermelho no Mato Grosso do Sul.

Na noite de 1º de agosto, também em Cassilândia, Márcio Aparecido Filho, de 27 anos, o ‘Márcio Pelé’, e a enteada dele, de 3 anos, morreram baleados dentro de um Fiat Uno. Outra criança no veículo ficou ferida. O atirador fugiu de moto.

Segundo o promotor, há outras listas em perfis ainda ativos. “Tivemos muitas mortes na fronteira, no interior, e em confrontos com a polícia. Em Ivinhema atiraram em uma mulher grávida”, diz.

O ataque foi no dia 20 de julho, quando um grupo de pessoas conversava em frente a uma casa. Dois homens, de moto, fizeram vários disparos. Um deles, que estava em uma das ‘listas da morte’ do CV, morreu na hora. A grávida de seis meses foi socorrida e sobreviveu. No dia 26, os suspeitos do ataque – de 21 e 22 anos – foram mortos em confronto com a polícia.

A Meta, dona do Instagram, diz que não teve acesso aos perfis indicados pela reportagem, mas as regras da empresa não permitem o uso dos seus serviços para promover atividades criminosas ou conteúdos que glorifiquem, apoiem ou representem organizações e indivíduos perigosos.

“Removemos esse tipo de conteúdo sempre que identificamos violações e estamos continuamente aprimorando nossa tecnologia e treinando nossas equipes para detectar e lidar com atividades suspeitas. Também incentivamos as pessoas a denunciar qualquer conteúdo que considerem contrários aos nossos padrões da comunidade, ajudando-nos a manter nossas plataformas seguras para todos”, diz em nota. A Meta acrescenta que trabalha com autoridades e responde a solicitações legais, colaborando com forças de segurança.

A TikTok informou que os conteúdos com ameaças do Comando Vermelho foram removidos por violarem as diretrizes da Comunidade para Segurança e Civilidade, as quais não permitem ameaçar ou expressar o desejo de agredir fisicamente as pessoas; promover ou glorificar a violência; promover roubo ou destruição de propriedade; compartilhar instruções sobre como cometer crimes; entidades extremistas violentas e pessoas que praticam violência em massa ou em série.

Ainda segundo a TikTok, o sistema de moderação da plataforma atua de forma contínua e, mesmo sem denúncias, retira automaticamente conteúdos que violentam suas diretrizes. No primeiro trimestre deste ano, 99,6% dos conteúdos sobre comportamento violento e criminoso foram removidos proativamente, com 89,8% tendo caído antes de qualquer visualização.

Neste período, 96,2% dos conteúdos denunciados por usuários foram respondidos em menos de 2 horas, e apenas 0,2% levaram mais de 24 horas.

Paraguai funciona como entreposto da droga produzida na Bolívia e Peru
Marques lembra que, embora seja grande produtor de maconha, o Paraguai não produz cocaína, mas funciona como entreposto da droga produzida na Bolívia e Peru. “As drogas vêm diretamente da Bolívia por veículos ou pelo modal aéreo, ou vão da Bolívia para o Paraguai e seguem por terra pelas estradas do Mato Grosso do Sul ou de helicóptero, em voos curtos para o oeste paulista ou o Paraná.”

Fora de São Paulo, Mato Grosso do Sul é o Estado com mais membros do PCC, segundo o MP sul-matogrossense. Há dez anos, desde o atentado que matou Jorge Rafaat Toumani, o “Rei da Fronteira”, o Primeiro Comando controla a rota mais tradicional do tráfico entre os dois países pela cidade paraguaia Pedro Juan Caballero e a brasileira Ponta Porã.

O Comando Vermelho opera para mudar esse cenário. Apesar de ter ensaiado trégua em maio de 2025, através de suas lideranças, nas linhas de frente as facções continuaram as disputas territoriais.

Droga viaja de trem
Desde o começo deste ano, as forças policiais de Mato Grosso do Sul realizam ofensivas contra o avanço das facções, como diz ao Estadão o secretário da Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira. “Esses crimes aumentaram muito na divisa com o Mato Grosso, já que lá o Comando Vermelho lidera as facções. Eles se enfrentam ali na divisa, principalmente no nordeste do Mato Grosso do Sul, um maciço verde, pois é área de produção de celulose”, diz.

A disputa territorial entre as duas facções acontece em cidades como Sonora, Paranaíba, Três Lagoas e Cassilândia, na divisa entre Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e São Paulo. “É o Comando Vermelho querendo ocupar o espaço do PCC para ter o controle das rodovias. E também porque no Mato Grosso tem aquele modal de transporte ferroviário em Rondonópolis. A droga é embarcada ali com destino a Santos, Paranaguá, e vai tudo de trem.”

Além da fronteira
A guerra entre as duas facções invadiu também o território boliviano. Em 30 de julho, em San Matías, um grupo armado emboscou efetivos policiais durante operação, matando um subtenente e deixando dois policiais feridos. Outros tiroteios ocorreram em San Ignacio de Velasco, totalizando nove mortos em cinco dias. Mais de 200 policiais foram enviados à região.

As forças de segurança bolivianas fizeram operações em ruas e imóveis de San Matías, com abordagens, buscas e prisões. Segundo o governo boliviano, a violência está concentrada em uma região estratégica para o escoamento da cocaína produzida no país. De acordo com dados das Nações Unidas, a Bolívia é o terceiro maior produtor mundial de cocaína, atrás apenas de Colômbia e Peru.

O ministro de Governo da Bolívia, Marco Antônio Oviedo, disse que houve acordo com o Brasil para manter um escritório permanente da PF na fronteira da Bolívia. “Também teremos policiais bolivianos no Brasil para manter fluxo contínuo de inteligência e de troca de informações”, afirmou.

Segundo o governo da Bolívia, a medida faz parte de acordo de cooperação bilateral para o combate ao crime organizado. Nos últimos meses, autoridades bolivianas afirmam ter ampliado as apreensões de drogas, aeronaves e bens ligados ao narcotráfico.

A Bolívia afirma que vem prendendo e expulsando brasileiros acusados de elo com as facções. Este ano, 17 supostos integrantes do PCC e do CV, capturados na Bolívia, foram entregues a autoridades brasileiras.

O Ministério da Justiça informa que a PF já conta com duas unidades diplomáticas e de cooperação internacional em La Paz e Santa Cruz de La Sierra. Sobre a instalação de um escritório permanente da PF na fronteira, disse que a corporação tem autonomia para definir suas estratégias de combate ao tráfico.

A Secretaria de Segurança Pública do Mato Grosso informou que adota política de tolerância zero às facções criminosas e vem intensificando as ações de enfrentamento na região de fronteira, apesar de ser responsabilidade da União. Além de equipar as forças de segurança com armas longas e curtas, ampliou o efetivo das bases policiais no interior e construiu, em 2023, um Centro de Inteligência do Grupo Especial de Fronteira (Gefron) no município de Cáceres, investindo ainda na melhoria física da base do Posto do Limão, em Porto Esperidião.

Somente em 2026, o Gefron apreendeu 25 toneladas de drogas, mais do que em todo ano de 2025. Foram apreendidas 12 aeronaves ligadas ao tráfico de drogas. O Gefron atua de forma contínua em quase 30 municípios, sendo quatro de fronteira direta com a Bolívia.

Fonte: Estadão, por José Maria Tomazela

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