Irã e Omã negociam um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo. A proposta pode restabelecer o tráfego de navios na região, mas também ampliar o controle iraniano sobre a passagem, segundo autoridades envolvidas nas tratativas.
Pelo modelo discutido, embarcações que entram no Golfo Pérsico utilizariam um canal próximo à costa do Irã. Já os navios que deixam a região seguiriam por uma rota próxima a Omã.
Autoridades iranianas afirmam que o plano prevê uma taxa de serviço destinada a cobrir despesas ambientais, segurança das embarcações e custos operacionais. As receitas seriam divididas entre Irã e Omã.
Uma autoridade dos Estados Unidos, porém, contestou essa versão. Segundo ela, eventuais rotas temporárias não dependeriam de autorização iraniana nem envolveriam cobrança de pedágios.
Reabertura é prioridade para Trump
A retomada do tráfego no Estreito de Ormuz é considerada politicamente importante para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A passagem interrompida tem provocado impactos sobre o transporte de petróleo, os preços dos combustíveis e a economia internacional.
Apesar disso, o Irã condiciona a abertura ao fim do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos aos portos iranianos no Golfo Pérsico e à retomada de um plano diplomático firmado anteriormente.
Trump afirmou que a reabertura pode ocorrer rapidamente e declarou que a primeira etapa das negociações envolve o estreito. A segunda seria voltada ao programa nuclear iraniano.
Controle iraniano preocupa autoridades
O principal impasse envolve o grau de influência que o Irã terá sobre a navegação. Autoridades iranianas defendem um modelo que reconheça sua capacidade de controlar diariamente o tráfego pela região.
A proposta contraria a posição pública do secretário de Estado americano, Marco Rubio. Ele defende que o Estreito de Ormuz volte a funcionar como uma rota internacional aberta, sem cobranças ou exigências impostas por um único país.
“Se criarmos um precedente no Oriente Médio em que um Estado-nação pode decidir controlar uma via navegável internacional, cobrar pedágio e, se você não pagar, explodir seus navios, teremos criado um precedente muito perigoso”, afirmou Rubio.
Para o secretário, a discussão envolve não apenas o estreito, mas o princípio da liberdade de navegação e as regras que sustentam o comércio internacional.
Minas dificultam navegação
Integrantes do Pentágono demonstram preocupação com o acordo em discussão. Um dos motivos é a presença de minas na rota localizada próxima a Omã.
Mesmo que os navios utilizem esse trajeto, eles podem precisar de coordenação com o Irã para navegar em segurança. Na avaliação de algumas autoridades, isso manteria Teerã em posição de influência sobre a passagem.
O Comando Central dos Estados Unidos tem orientado embarcações na região, mas os navios continuam expostos ao risco de ataques com mísseis iranianos.
Negociação inclui programa nuclear
O acordo concede prazo de 60 dias para que Irã e Omã negociem a abertura do estreito. Durante esse período, Estados Unidos e Irã também devem retomar as discussões sobre o estoque iraniano de urânio enriquecido.
Os Estados Unidos defendem que o combustível seja diluído e posteriormente enviado para outro país, onde possa ser descartado ou utilizado em usinas nucleares.
Apesar do prazo estabelecido, autoridades americanas admitem que uma negociação sobre o programa nuclear pode se estender por vários meses.
Irã busca preservar vantagem
O vice-diretor do programa para o Oriente Médio do International Crisis Group, Ali Vaez, avaliou que o Irã pretende manter influência sobre o estreito por considerar esse controle uma de suas principais vantagens após os conflitos recentes.
“Qualquer solução que deixe o Irã no controle do estreito será muito difícil de vender para Trump, mas também não existe solução militar para remover o controle iraniano sobre o estreito”, afirmou.
Segundo ele, o governo americano está diante de duas alternativas complexas: ampliar um conflito sem perspectiva clara de vitória ou aceitar um acordo politicamente desconfortável.
Fonte;Estadão