O filme “100 Dias” estreia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (29) mostrando essa travessia inédita
Há 42 anos, o navegador Amyr Klink chegava à Praia da Espera, em Camaçari, no litoral norte da Bahia, após realizar um feito inédito: tornar-se a primeira pessoa a cruzar o Atlântico Sul sozinho em um barco a remo.
A chegada colocou fim a uma jornada de 100 dias e nove horas em alto-mar. Klink havia partido de Lüderitz, na costa da Namíbia, e percorrido cerca de 3,7 mil milhas náuticas — quase 7 mil quilômetros — até alcançar o litoral brasileiro.
O próprio nome do destino ganhou um significado particular naquela ocasião. A Praia da Espera recebeu essa denominação em referência às esposas que aguardavam o retorno dos pescadores. Para o paulistano, representava o fim de mais de três meses de isolamento no oceano e o aguardado retorno à terra firme.
Nesta semana, no próximo dia 29, a história de Amyr ganha mais um episódio com o lançamento de 100 Dias, cinebiografia desta aventura, dirigida por Carlos Saldanha e protagonizada por Filipe Bragança.
O feito histórico de Amyr Klink
A dimensão da façanha era ampliada pelas características da embarcação. Construído especialmente para a travessia, o barco utilizado por Klink tinha apenas 5,94 metros de comprimento e largura máxima de 1,52 metro. Não havia motor: para avançar pelo Atlântico, o navegador dependia essencialmente da força dos próprios braços.
Sua rotina incluía aproximadamente oito horas de remadas por dia. O restante do tempo era dividido entre tarefas indispensáveis, como preparar refeições, realizar a limpeza e a manutenção da embarcação e dormir. Em meio ao percurso, Klink também encontrou animais como tubarões, baleias, gaivotas e peixes.
Outro obstáculo era a tecnologia disponível em 1984. Décadas antes da popularização dos sistemas de localização por satélite, o navegador não contava com GPS para acompanhar sua posição em tempo real.
Para se orientar, utilizava um sextante, instrumento de navegação que permite determinar a posição de uma embarcação a partir da observação dos astros. A comunicação com quem estava em terra também era limitada. Familiares e amigos precisavam aguardar horários previamente combinados para estabelecer contato por rádio.
A aventura, porém, não começou no momento em que Klink entrou no barco. O brasileiro participou de praticamente todas as etapas de preparação do projeto. A própria embarcação foi desenhada especificamente para enfrentar as condições encontradas durante a travessia do Atlântico Sul.
A escolha da rota entre a costa africana e a Bahia também foi cuidadosamente planejada, levando em consideração fatores como as correntes oceânicas e a época do ano em que a viagem seria realizada.
Até mesmo a alimentação precisou ser calculada antecipadamente. Klink levou 150 embalagens destinadas ao café da manhã, almoço e jantar. Os alimentos eram desidratados e preparados sem sal, estratégia que permitia manter uma dieta equilibrada ao mesmo tempo em que reduzia o peso e o volume da carga transportada.
Após mais de três meses enfrentando sozinho o oceano, Klink finalmente alcançou a Bahia e completou uma viagem que muitos consideravam impossível. A travessia consolidou seu nome na história da navegação brasileira e abriu caminho para outras expedições que realizaria nas décadas seguintes.
“No final das contas, percebi que não importa qual é o seu sonho ou projeto: ponha em prática, não espera muito tempo. Eu tenho amigos até hoje que se inspiraram pelas primeiras viagens, que testemunharam o que eu fiz e que estão até hoje preparando o sonho de um dia morar num barco, fazer uma volta ao mundo, e nunca vão. Eles nunca irão! Eu acho muito triste você deixar de sair do mundo da intenção para passar para o mundo da execução. A gente tem muitos recursos maravilhosos hoje para pôr em prática sonhos complicadíssimos”, declarou Klink a Fabio Previdelli, em entrevista exclusiva para Aventuras na História.