segunda-feira, 16 fevereiro, 2026 18:30
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Tereré é identidade sul-mato-grossense, mas erva vem majoritariamente de fora

de Redação Bonitonet
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Em Mato Grosso do Sul, roda de tereré não precisa de convite. Está no trabalho, na calçada, no campo, na universidade. O costume já virou patrimônio imaterial do Estado e tem reconhecimento internacional no contexto da cultura paraguaia. O tereré é identidade!

Mas tem um detalhe pouco falado: a erva que enche a cuia, na maior parte das vezes, não é daqui.

“Cerca de 90% da erva industrializada no Estado vem de fora”, afirma Felipe das Neves, pesquisador da Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural) e chefe do Núcleo de Fomento e Produção de Mudas. Para ele, existe uma contradição evidente entre o peso cultural da bebida e a fragilidade da produção local.

Segundo Felipe, Mato Grosso do Sul já foi potência mundial na exportação de erva-mate até o fim da década de 1960. A atividade era concentrada na antiga Companhia Mate Laranjeira e baseada na extração de árvores nativas. Depois, o cenário mudou.

“A partir da década de 60, houve avanço de outras culturas, como pastagem, soja e milho. Isso reduziu as áreas nativas com erva-mate. Sem investimento e sem renovação produtiva, o Estado perdeu espaço para Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.”

Hoje, a tentativa é reconstruir a cadeia pela agricultura familiar. Em 2020 e 2021, a Agraer desenvolveu projeto de fortalecimento da cultura e já distribuiu mais de 570 mil mudas, segundo o pesquisador. A aposta está concentrada em municípios da fronteira sul, onde a planta é nativa e ainda resiste em pequenas propriedades.

“As primeiras mudas vieram de Santa Catarina, com genética adaptada a outro clima. Lá o inverno é chuvoso; aqui temos inverno seco, verão chuvoso e longos períodos de estiagem, além de altas temperaturas”, explica.

Ele cita um experimento em Campo Grande para ilustrar o problema. “Numa semana registramos 4°C e, três dias depois, 37°C. Não há muda que suporte essa variação brusca sem preparo adequado.”

O gargalo principal, segundo ele, é água. Mesmo com a distribuição de kits de irrigação, houve alta mortalidade das plantas. A falta de genética adaptada ao clima local pesa. “Precisamos de melhoramento genético com seleção de matrizes adaptadas ao tereré.”

Além do clima, há resistência tecnológica. “Muitos produtores, por tradição familiar, não adotam tecnologias no plantio. Falta cobertura vegetal adequada, irrigação e adubação. Isso compromete o estabelecimento da muda.”.

A saída, segundo ele, passa por transferência de tecnologia e assistência contínua. “O aumento de produtividade significa aumento de renda para o pequeno produtor.”

Vendedor de erva-mate há 11 anos, Júlio César Negrete diz que a lógica do campo mudou há décadas. “Os produtores daqui têm preferência por outras culturas, como cana-de-açúcar, soja e pecuária. A erva-mate perdeu espaço.” O resultado é abastecimento vindo principalmente do Paraná e do Rio Grande do Sul.

Ele também explica que o consumidor percebe diferença no sabor. “A erva nativa é mais forte, com um sabor específico, diferente da erva de plantação.” Algumas opções no mercado tentam se aproximar desse perfil, como a crioula e a chamada “pura folha”, mas a origem, segundo ele, também é de fora.

Parte da indústria local atua no beneficiamento. Fabricantes de Campo Grande e Naviraí compram erva de outros estados, misturam e adicionam sabores como menta, limão e tutti-frutti. “A erva com menta acaba sendo um atrativo, principalmente por causa do calor, porque traz mais refrescância”, afirma Júlio.

Se a erva regional pode ganhar espaço, ele responde sem romantismo. “Vai depender muito da qualidade da produção daqui e também do preço. O preço ainda é muito importante para o consumidor.”

A força cultural do tereré também ganhou novo espaço na internet. O humorista e criador de conteúdo Higor Alexandre, 32 anos, usa o hábito como marca dos vídeos que produz há seis anos. Ele começou no stand-up comedy, mas encontrou nas redes sociais o principal palco.

“Quando comecei, senti falta de uma referência que falasse da nossa rotina. Vinha muita gente de fora falar de uma realidade que não é a nossa. Então pensei: vou ser essa referência”, conta.

Para ele, o tereré é um costume tão enraizado que o sul-mato-grossense “já nasce com esse drive instalado”. A origem Guarani e a proximidade com a fronteira ajudaram a consolidar o hábito como parte do cotidiano.

Higor relata que boa parte das dúvidas que recebe vem de pessoas de fora do Estado. “Já me perguntaram se a gente toma um sabor diferente por dia, qual erva comprar, como funciona.” Ele orienta que iniciantes comecem por ervas mais suaves, como limão ou menta, antes de experimentar as mais fortes.

Segundo ele, o estranhamento com o sabor mais amargo ajuda a explicar por que ervas mais industrializadas ganham mercado fora da região. “Quem já está acostumado não sente repulsa. Mas em outras regiões o pessoal acha muito amarga.”

Sobre o futuro da produção local, ele avalia que Mato Grosso do Sul já é referência cultural, mas enfrenta limites climáticos. “Nas regiões de fronteira há produção, mas ampliar isso exige tecnologia para cultivo em áreas mais quentes.”

Felipe concorda que o potencial existe, mas não fala em solução rápida. Ele cita o exemplo do Paraná, onde o setor movimentou cerca de R$ 1 bilhão no último ano. “Temos potencial, mas não é algo imediato. Precisamos de políticas públicas, investimento e genética voltada ao tereré”, termina o pesquisador.

Fonte:Campo Grande News

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