quinta-feira, 16 abril, 2026 15:27
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‘Somos oprimidos no Brasil’: a onda de brasileiros rumo ao Paraguai em busca de ‘sonho de direita’

de Redação Bonitonet
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“Bem-vindos ao Paraguai“, repetia alto o chefe do serviço de imigração em Ciudad del Este enquanto caminhava entre cadeiras de praia, bancos de plástico e cangas.

“Amanhã, às 7h, começaremos a distribuição de fichas. Às 8h, começa o atendimento para quem quer tirar residência.”

A mensagem era destinada a centenas de brasileiros organizados em uma longa fila que faziam silêncio – pontuado por aplausos – para ouvir as orientações em espanhol após um dia inteiro acampados sob o sol forte e no chão de terra vermelha de Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil.

Era noite do penúltimo domingo de março. Só dali a 12 horas começaria de fato o mutirão itinerante do governo paraguaio para agilizar a emissão de documentos para quem quer se mudar para o país.

A fila, porém, já quase dobrava a esquina, e os brasileiros ainda tinham pela frente várias horas mais de calor, chuva e mosquitos para garantir atendimento no dia seguinte.

“Viemos conhecer tudo isso que o Paraguai tem para oferecer aos brasileiros”, dizia sorridente Delly Fragola, de 55 anos, sentada em uma cadeira de praia colorida comprada para encarar a espera.

Dona de um salão de cabeleireiro em Anápolis, no interior de Goiás, ela tinha chegado às 8h junto com a filha e o genro.

Estavam ali porque o “Brasil não tem mais oportunidades” para seu negócio. No Paraguai, diziam, poderiam encontrar “mão de obra mais facilitada”.

“No Brasil, ninguém quer trabalhar.”

Vista aérea de fila cheia de pessoas na porta de prédio público
Legenda da foto,Fila com brasileiros vira a madrugada em Ciudad del Este, no Paraguai

Um pouco mais atrás, o também empresário Dilberto Wegrnen, de 63 anos, de Cascavel, no interior do Paraná, tomava uma cerveja enquanto esperava assar as carnes de um churrasco improvisado numa grelha em cima de um tonel, organizado pelos novos amigos de espera.

Dilberto estava ali pela crença de que “o Paraguai vai ser o maior país da América Latina muito em breve” e também porque tem muitas críticas ao governo Lula.

“Empresários estão saindo do Brasil para vir para o Paraguai. Aqui, a carga tributária é muito menor e as leis trabalhistas são muito mais acessíveis. Tudo isso leva a quê? A essa fila enorme aqui hoje”, explicava o paranaense.

O grupo faz parte de uma onda crescente de brasileiros que querem se mudar para o Paraguai e tem chamado a atenção de autoridades do país, que desde o ano passado promove mutirões para organizar a demanda e atender os aspirantes a residentes.

A principal porta de entrada é Ciudad del Este, famosa pelas compras baratas e comércio caótico do outro lado da Ponte da Amizade. O mutirão de março foi o segundo do ano na cidade — somados, foram cerca de 4 mil atendimentos só ali — e o governo paraguaio planeja mais 19 ao longo do ano no país.

Em 2025, o Paraguai bateu recorde ao conceder 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros. Mais da metade (23,5 mil) eram brasileiros, muito mais do que os segundos colocados, os argentinos (4,3 mil).

Para 2026, a expectativa é que o número seja ainda maior. Só nos três primeiros meses do ano, foram emitidas 9,2 mil autorizações para brasileiros.

Dois homens brindam
Legenda da foto,Antes de passarem a madrugada na fila, brasileiros organizaram churrasco com cerveja em frente ao centro que promove mutirão em Ciudad del Este

A BBC News Brasil acompanhou por três dias a fila do mutirão. Todos com quem a reportagem conversou disseram estar ali movidos por suas posições políticas e pela busca de uma vida com mais conforto e menos impostos.

São pessoas de todas as regiões do Brasil, que em geral começam a sonhar com a vida no Paraguai navegando nas redes sociais.

Os vídeos que se proliferam em geral enumeram as “vantagens econômicas” de se mudar para o país, reforçando a baixa carga tributária do Paraguai e a predominância de governos de direita na sua história.

Eles são publicados principalmente por influenciadores brasileiros que vivem ou fazem compras na Paraguai. Muitos oferecem serviços de assessoria para quem quiser fazer o mesmo caminho.

Foi assim que Marcelo Mendes, um arquiteto aposentado de 70 anos de Recife, abandonou o plano de se mudar para Portugal, onde sua filha mora.

“Na internet, a gente teve conhecimento em vários grupos. A gente viu vídeos de pessoas que já vieram contando a situação, como é que tira os documentos”, conta ele.

Seu plano agora é vender sua casa na capital pernambucana e comprar outra na cidade de Encarnación, a quatro horas de carro ao sul de Ciudad del Leste, na fronteira com a Argentina. Mas antes precisa convencer sua mulher, que chegou a ir ao Paraguai, mas ainda não está disposta a se mudar para lá.

“A gente não está aguentando o Brasil, o salário da gente está perdendo valor. O que eu ganho em real também não dá para viver em Portugal. Aqui, consigo viver bem”, diz Marcelo, que pretende complementar a renda trabalhando como corretor de imóveis.

PEssoas sentadas em cadeira na fila
Legenda da foto,Primeiros na fila chegaram por volta das 8h de domingo, 24 horas antes da abertura dos portões

A mudança de perfil: de estudantes de medicina à motivação política

A carioca Zena Cheraze, de 68 anos, percorreu sozinha 1,5 mil km de ônibus do Rio de Janeiro à Ciudad del Este “no escuro”, sem saber direito se tinha em mãos todos os documentos que precisava.

“É muita propaganda no YouTube, cada um diz uma coisa. Mas vim aqui pra ver”, explica. Professora aposentada e viúva, ela espera conseguir pagar um plano de saúde mais barato no Paraguai.

Desde 3 horas da manhã na fila do mutirão, Zena gravava um vídeo para dizer a amigos que, na verdade, não estava só: havia uma legião de pessoas como ela à espera de um “sim” do Paraguai.

“Nós, da direita, nos sentimos as pessoas mais oprimidas. A gente não tem liberdade”, justificou a aposentada à BBC News Brasil sobre sua empreitada. “É um governo que só está nos fazendo mal.”

Um grande número de brasileiros com o mesmo perfil de Zena tem sido notado pelas autoridades de imigração.

Zena, uma senhora idosa, com camisa branca cabelo louro e piercing
Legenda da foto,Zena diz que chegou no “escuro” ao Paraguai

Cornelio Melgarejo, que chefia a imigração no departamento de Alto Paraná, na fronteira com o Brasil, calcula que há dois anos 80% dos que solicitavam residência eram estudantes de Medicina em busca de faculdades com mensalidades mais baratas do que no Brasil.

Mas, nos últimos tempos, apareceram muitos empresários querendo abrir negócios no país e aposentados, “em busca da estabilidade econômica e política”, diz Melgarejo.

Em comum, a visão de que a vida no Paraguai hoje corresponde melhor às suas posições ideológicas.

O atual presidente paraguaio, Santiago Peña, é o nono governante de direita entre os dez que comandaram o país desde a redemocratização, após o fim da ditadura do general Alfredo Stroessner, em 1989.

Foi seu governo que criou os mutirões migratórios, chamados de Migramovil. Criada em 2025, a iniciativa reúne em um só lugar órgãos como a Direção Nacional de Migração e a Polícia Nacional, que pode fornecer garantias de que o imigrante não tem problemas com a Justiça.

A gestão busca capitalizar ativamente a nova onda imigratória. A chegada de imigrantes ao Paraguai é anunciada como uma indicação de que o país vai bem – uma das peças promocionais oficiais sobre o assunto diz que o “Paraguai abre suas portas ao mundo”.

Os estrangeiros são apontados como responsáveis por trazer dinamicidade à economia local, ao mesmo tempo em que o governo muda leis e dá ainda mais incentivos fiscais para atrair investimentos e empresas.

Alinhado ao governo de Donald Trump, Peña sancionou em março um polêmico acordo que autoriza a presença de militares e empresas americanas no país para combater o crime organizado.

“99% das pessoas que estão vindo são de direita”, contabiliza a carioca Roberta Viegas, que mora há 1 ano no Paraguai e tem promovido reuniões entre empresários como ela e oferece serviços de assessoria a interessados pela mudança.

Antes de se mudar, Roberta, de 47 anos, estava especialmente preocupada com a educação de seus quatro filhos no Rio de Janeiro, especialmente a do de 14 anos, mesmo matriculado numa escola particular e cristã.

“A gente não estava se sentindo bem no Brasil no cenário atual, pelas minhas crenças, por aquilo que eu acredito”, explica Roberta, que planejava inicialmente ir para a Austrália, mas mudou a rota para o Paraguai após um amigo passar a viver lá.

A família, explica Roberta, também não estava vendo futuro no negócio de venda planos de saúde que mantinha no Rio e se sentia acuada pela violência urbana na cidade.

“Não tem aquele ditado ‘quem está incomodado que se mude’?. Eu falei para o meu marido: ‘Não adianta a gente ficar aqui passando ranço’. Vamos para outro lugar onde a gente se sinta bem para criar nossos filhos.”

Entre os pais com filhos pequenos na fila do serviço de imigração, também é comum encontrar quem deseja ensinar os filhos em casa, o chamado homeschooling.

A paranaense Marluize Ávila, de 42 anos, vendia brigadeiros acompanhada dos dois filhos, Eduardo e Isabela, enquanto esperava para dar entrada nos documentos. Ela pretende cuidar da educação deles de manhã e vender a comida à tarde na porta de universidades.

Marluize Avila, mulher de pee morena e cabelo liso, ao fundo a entrada do prédio
Legenda da foto,Marluize diz que o Paraguai vai permiti-la fazer educação domiciliar com os filhos

“O Paraguai é um país bem tradicional e não prejudica se você fizer a educação domiciliar”, diz Marluize.

Quem apoia essa ideia argumenta que a educação tem que ser decidida pela família e não por regras educacionais estabelecidas pelo Estado. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) defendeu a liberdade dos pais de optar por essa forma de ensino e propôs regulamentá-la em sua campanha à reeleição.

No Brasil, em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a educação domiciliar no Brasil era ilegal, cabendo ao Congresso Nacional aprovar uma lei federal a respeito. Um projeto passou pela Câmara em maio de 2022 e, hoje, tramita no Senado.

O Paraguai, apesar de não ter regulamentação específica sobre o tema, é frequentemente apontado pela comunidade de pais que defende o homeschooling comoum destino possível para a prática, porque não haveria uma “perseguição” a quem faz isso.

“Vou ter mais liberdade tanto para empreender como para fazer as aulas extracurriculares com eles”, diz Marluize.

“Todos os lugares têm coisas boas e ruins, mas aqui tem um pensamento mais conservador. Caiu a tarde, os jovens estão conversando e brincando na rua. É diferente de estar bebendo e fumando, sabe?”

Baixos impostos e ‘maquilas’ da Lupo e Riachuelo

Vista aérea da Ciudad del Este
Legenda da foto,Ciudad del Este recebe brasileiros para compras – e pra morar

Quem pede o direito à residência no Paraguai é questionado pelos funcionários do governo sobre as razões por que querem imigrar.

“As respostas mais frequentes são sobre o custo do nosso imposto”, diz Cornelio Melgarejo, do serviço migratório paraguaio.

A carga tributária total do Paraguai, ou o peso dos tributos arrecadados pelo governo em relação à economia, gira em torno de 14,5% do PIB, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). No Brasil, a taxa é mais que o dobro, 32%, segundo o Ministério da Fazenda.

O Paraguai consolidou ao longo dos anos 1990 e 2000 uma regra simples sobre a cobrança de impostos: 10-10-10.

Ou seja, os três tributos mais importantes — o imposto sobre valor agregado (IVA), o imposto de renda de pessoa física e o imposto de renda das empresas — têm a mesma alíquota de 10%.

Em comparação, o Brasil pretende criar seu IVA, aprovado na reforma tributária de 2023, unificando cinco tributos federais, estaduais e municipais. A estimativa é que esse imposto entre em vigor completamente em 2033, com uma alíquota entre 25% e 28%.

A tributação da renda no Brasil vai de 7,5% a 27,5% para pessoas físicas e, no caso de empresas, começa em 15%, com adicional de 10% sobre lucros acima de R$ 20 mil por mês.

A carga tributária mais baixa e o sistema mais simples do Paraguai são destacados pelos governantes do país como uma das bases para atrair investimentos que poderiam ir para as outras nações mais desenvolvidas da região.

O sistema começou a ser delineado em 1992 e foi sendo consolidado nos sucessivos governos de direita. O único presidente de esquerda, Fernando Lugo (2008–2012), chegou a propor algumas reformas, mas sofreu um impeachment.

Além disso, desde 2000 o país adotou o esquema chamado de “maquila”, em que fábricas instaladas no Paraguai podem importar matéria-prima quase sem imposto, produzir no terrório paraguaio e exportar pagando quase nenhum tributo. A estratégia levou ao país unidades fabris de marcas brasileiras como a Lupo e Riachuelo.

Desculpe, mas não é possível exibir esta parte da história nesta página de acesso resumido de celular.

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O economista Alexandre da Costa, pesquisador na Unila (Universidade da integração latino americana) e na UFPR (Universidade Federal do Paraná), explica que o modelo paraguaio tem contribuído para o país crescer em torno de 4% nos últimos três anos, acima da média da América Latina, embora ainda seja uma das menores economias da região e tenha um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano e também de renda per capita.

O PIB do Brasil, ressalta Costa, é cerca de 50 vezes maior do que o do Paraguai — e a economia paraguaia acaba sendo muito atrelada ao que acontece no Brasil, seu maior parceiro comercial.

“A estratégia de desenvolvimento do Paraguai tem como base, sobretudo, o baixo custo de produção para empresas e o baixo custo de vida para os demais”, diz Costa.

Um dos exemplos mais citados sobre o custo de vida mais baixo no Paraguai é a energia elétrica.

Graças à grande quantidade de eletricidade excedente gerada pelas hidrelétricas de Itaipu, construída em parceria com o Brasil, e Yacyretá, em parceria com a Argentina, os paraguaios têm a energia mais barata da região.

Mas, no caso de Itaipu, há uma negociação em curso para o acordo atual que pode deixar os paraguaios em situação menos confortável. Segundo dados da consultoria do setor elétrico SEG, em média, a energia no Brasil é 2,8 vezes mais cara que no Paraguai.

“No caso do empresário, ele também é atraído principalmente pela baixa carga tributária e baixo custo da mão de obra. Os direitos trabalhistas no Paraguai, se comparados com no Brasil, são bem inferiores”, segue Costa.

O país, por exemplo, não tem FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), e as férias começam em 12 dias úteis por ano, aumentando com o tempo de empresa, podendo chegar a 30 dias. Não há seguro desemprego.

Mas a carga tributária menor também significa que o Paraguai arrecada menos dinheiro e tem uma baixa capacidade de estimular a economia e o desenvolvimento, sobretudo com projetos de infraestrutura, saúde e educação.

“Então, o ponto central é verificar a sustentabilidade desse modelo no médio e longo prazo. Muitos desses brasileiros, por exemplo, vêm procurar o SUS aqui em Foz do Iguaçu quando precisam”, afirma Costa.

O sistema público de saúde no Paraguai é bastante fragmentado — entre quem tem emprego formal ou não, por exemplo — e, apesar de existir uma gratuidade por lei, tem muitas limitações. Quem é atendido muitas vezes precisa pagar por todos os insumos, de remédio à seringa usada.

Apesar de reduções importantes nos últimos anos, a extrema pobreza atinge 4,1% no país (no Brasil, é 3,5%), segundo os órgãos de estatísticas oficiais.

Para o economista, essa nova onda de divulgação de informações sobre um “milagre econômico” do Paraguai precisa ser vista com cautela, especialmente quando começa a atrair pessoas em busca de emprego.

No Paraguai, o salário mínimo oficial é maior do que no Brasil (o equivalente a R$ 2.300), mas a taxa de informalidade dos empregos — ou seja, pessoas sem vínculos formais de trabalho — é de 62,5%, índice muito maior que o do Brasil, que está em 37,5%.

Cornelio Melgarejo, chefe da imigração em Ciudad del Este, percebe a mudança de perfil do brasileiro que busca morar no Paraguai
Legenda da foto,Cornelio Melgarejo, chefe da imigração em Ciudad del Este, percebe a mudança de perfil do brasileiro que busca morar no Paraguai

Para os brasileiros que estão imigrando, porém, o modelo paraguaio é o que eles defendem como o ideal.

Quase todos ouvidos pela reportagem disseram considerar que o Brasil vive uma crise econômica, mesmo que os dados hoje apontem para uma inflação dentro da meta, um baixo índice de desemprego e crescimento do PIB.

“Falam que os índices [do Brasil] são muito bons. Mas não sabemos se são todos verdadeiros. Não sei…”, dizia Joraci de Lima, empresário de 61 anos de Campo Mourão, no interior do Paraná, que não conseguiu ser atendido no primeiro dia mutirão em Ciudad del Este, mesmo chegando às 3h na fila.

O paranaense explicava que seu negócio do ramo de metalurgia estava saudável no Brasil, mas, devido à carga tributária e possiblidade de reeleição do presidente Lula, ele queria uma filial no Paraguai.

“Ninguem quer trocar sua pátria. Mas a condição dos impostos no Brasil não nos ajuda em nada.”

“O sentimento de todos aqui é de perda, dor, angústia e desilusão”, lamentava.

Muitos na fila não consideram rever a decisão de se mudar mesmo que a direita volte à presidência brasileira em 2027. Eles argumentam que a sistema brasileiro já estaria viciado.

A vida no Paraguai: até quando?

Miriam e Guilherme e o filho
Legenda da foto,Miriam e Guilherme pretendem seguir no Paraguai por muitos anos

Na casa de Miriam Costa, 37 anos, e Guilherme Lopes, 34, em uma rua tranquila na periferia da Ciudad del Este, o tereré, uma bebida gelada a base de mate, já virou tradição.

O casal trocou há três meses seu pequeno apartamento em Serra, no Espírito Santo, por uma casa de dois andares, onde trabalham juntos para vender romances eróticos para um “público mais conservador” escritos por Miriam em português e vendidos pela internet.

Os dois sentiam que não precisavam estar mais no Brasil para manter o negócio. No mundo da “literatura hot”, Miriam é “Alicia Bianchi”, que assina romances como Tudo Pela Luxúria, com cenas picantes de sexo, mas sem entrar em temas considerados tabus. Guilherme organiza a estratégia de vendas.

No Paraguai, eles usufruem de uma regra que aplica tributação mínima a quem recebe renda do exterior.

Os dois se consideram libertários e anarcocapitalistas e consideram positivo o fato de os serviços públicos do Paraguai serem pouco desenvolvidos, já que o governo arrecada menos dinheiro.

Tereré já faz parte da rotina do casal brasileiro
Legenda da foto,Tereré já faz parte da rotina do casal brasileiro

“A gente prefere um Estado menor, com menos intervenção na economia, menos intervenção na nossa vida pessoal. Isso significa que o Paraguai não tem uma saúde planificada como no Brasil, mas, ao mesmo tempo, você tem um plano de saúde top de linha com um preço muito mais acessível”, defende Miriam, que diz pagar o equivalente a R$ 800 de plano de saúde para toda família.

“Eu prefiro essa maneira de viver. Eu vou escolher aonde que o meu dinheiro vai e onde vou investir na minha educação e saúde.”

Pais de um filho no espectro autista, o casal diz conseguir pagar por uma escola melhor no Paraguai (por cerca de R$ 742) e, apesar de reconhecerem o Brasil como um país mais desenvolvido, não pretendem voltar.

“Eu não estou vendo com bons olhos para onde o país está indo”, diz Miriam.

“A gente tá vendo uma radicalização tanto da esquerda quanto da direita. A gente não vê, como no Paraguai, uma união em prol do Brasil.”

A última estimativa feita pelo governo brasileiro, de 2023, aponta que 263 mil brasileiros viviam no Paraguai, formando a terceira maior comunidade no exterior, depois de EUA e Portugal.

Segundo o Itamaraty, não há números recentes que identifiquem essa nova onda migratória ou quantos desses brasileiros que obtêm residência de fato criam raízes em território paraguaio.

Mas os dados detalhados divulgados pelo Paraguai ajudam a traçar como está o cenário atual.

Ao mesmo tempo em que há um crescimento grande de pedidos de residências temporárias, o aumento dos pedidos de residência permanente, que podem ser feitos após dois anos vivendo no Paraguai, é mais tímido.

Em 2025, dos 23,5 mil pedidos de residência de brasileiros, apenas 4,6 mil (19%) eram permanentes. Em 2020, os pedidos permanentes representavam 68%.

Isso pode indicar que grande parte das pessoas que imigra não necessariamente fica no país. Além disso, a proximidade com o Brasil faz com que o caminho de volta seja mais simples muitas vezes.

O vendedor de suco de laranja Leonardo Ribeiro, de 22 anos, trocou Marília, no interior de São Paulo, por Ciudad del Este há três meses depois de receber uma proposta do patrão que imigrou para lá, mas já vê que seu tempo de Paraguai está acabando.

Roberta Viegas, um mulher branca, cabelos curtos, mexe em documentos
Legenda da foto,Roberta Viegas ajuda brasileiros a se mudar ao Paraguai e orienta as pessoas a conhecerem o país primeiro

“Eu acho que o pessoal deu uma magia a mais pela internet, pelos vídeos no Paraguai. Mas não achei muita diferença do Brasil, não”, diz Leonardo.

“Eu vim mais pela questão econômica, para ver se mudava pouquinho de patamar. Até vale a pena ficar aqui, mas, particularmente, prefiro o meu Brasil”, conta o vendedor, que pretende voltar ainda neste ano.

Já Roberta Viegas está satisfeita com o novo endereço, mas tem alertado que “tem muita gente vendendo que o Paraguai é ‘mil maravilhas’, por interesse próprio”.

“Não é assim, tem muitos defeitos. Se você tem vontade de vir ao Paraguai, é preciso ver primeiro se a pessoa se identifica”, orienta a empresária.

Ainda com saudade das praias do Rio de Janeiro, ela diz que o lugar dela e da sua família segue longe do Brasil.

“Obviamente que, se eu vejo que o meu país, está segundo aquilo que eu acho bom para mim, eu volto. Eu amo o Brasil. Mas, hoje, eu me sinto melhor aqui.”

Fonte:BBC

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