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Sete Quedas: a gigante submersa do Rio Paraná que desapareceu para sempre

de Redação Bonitonet
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Durante boa parte do século XX, um trecho do Rio Paraná concentrou um dos cenários mais impressionantes da natureza brasileira: as Sete Quedas de Guaíra. O conjunto de cachoeiras formava um labirinto de quedas, corredeiras e névoa permanente. Assim, viajantes descreviam o local como um estrondo contínuo que ecoava a quilômetros de distância. Em 1982, porém, esse espetáculo desapareceu sob as águas do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Desde então, essa inundação alterou para sempre a paisagem na fronteira entre Brasil e Paraguai.

A história das Sete Quedas acompanha a própria ocupação da região oeste do Paraná. Muito antes da construção da barragem, populações indígenas, pescadores, navegadores e pesquisadores usavam o local como ponto de referência. O cenário combinava, ao mesmo tempo, risco e fascínio. A navegação parava diante da força extrema da água, mas, em contrapartida, a área se consolidou como atração turística e científica. Isso ocorreu pela singularidade geológica e pela dimensão impressionante do conjunto, que chamava a atenção de observadores de diferentes épocas.

Sete Quedas: a gigante submersa do Rio Paraná

As Sete Quedas se destacavam principalmente pelo volume de água. Estimativas indicam que a vazão média do Rio Paraná naquele trecho superava com folga a das Cataratas do Niágara, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá. Em períodos de cheia, a quantidade de água que despencava pelas fendas rochosas impressionava até pesquisadores acostumados a grandes rios. Além disso, o conjunto não formava um paredão único. Em vez disso, apresentava uma sucessão de saltos distribuídos em canais estreitos. Esse arranjo, portanto, potencializava o impacto visual e sonoro.

Do ponto de vista geológico, o fenômeno resultava do encontro entre o curso caudaloso do Paraná e formações basálticas antigas. A água esculpiu essas rochas ao longo de milhares de anos e, gradualmente, aprofundou as fendas. Em seguida, o rio se dividia em diferentes braços, criando cachoeiras com alturas variadas e um emaranhado de ilhas e rochedos. O estrondo constante, somado à névoa densa, criava um microclima local. Esse ambiente apresentava, portanto, umidade elevada e vegetação adaptada ao spray permanente. Além disso, estudos posteriores destacaram que esse microclima favorecia espécies endêmicas, hoje desaparecidas daquele trecho.

Como as Sete Quedas se comparam às Cataratas do Iguaçu?

Ao lado das Sete Quedas, outro gigante hídrico sempre chamava atenção na região sul do Brasil: as Cataratas do Iguaçu. A comparação entre os dois conjuntos de quedas d’água costuma começar pela vazão e pela altura. Em termos de volume, as Sete Quedas levavam vantagem, graças ao caudal mais robusto do Rio Paraná. Já o Iguaçu, rio menor, se destaca pela amplitude das quedas em semicírculo e pela diferença de altura entre o topo e o fundo do cânion.

Nas Cataratas do Iguaçu, a cena mais conhecida é a chamada Garganta do Diabo. Esse abismo em forma de U recebe água que despenca por dezenas de metros, formando colunas de vapor que se elevam acima da mata. O impacto visual se liga ao conjunto. Centenas de quedas menores formam um arco de quase três quilômetros de extensão. Em termos paisagísticos, o visitante enxerga praticamente todo o complexo de uma só vez. Dessa forma, essa visão reforça a sensação de amplitude.

Nas Sete Quedas, o efeito visual seguia outra lógica. A profundidade das fendas e a disposição dos canais criavam uma paisagem mais fechada. Assim, partes do espetáculo se escondiam entre rochas e ilhas. O observador precisava se deslocar entre mirantes para compreender a escala total. Enquanto o Iguaçu se notabilizou como cartão-postal internacional e área de parque nacional protegida, as Sete Quedas seguiram um caminho distinto. Elas se inseriram em uma região que, aos poucos, se tornava estratégica para a geração de energia elétrica, especialmente a partir da segunda metade do século XX.

O que mudou com o reservatório de Itaipu em 1982?

A virada decisiva surgiu com o avanço do projeto da Usina Hidrelétrica de Itaipu, empreendimento binacional entre Brasil e Paraguai. Para formar o reservatório necessário ao funcionamento da usina, os responsáveis pelo projeto elevaram o nível da água do Rio Paraná a montante da barragem. Em 1982, o enchimento do lago inundou completamente o antigo salto de Guaíra. Assim, as águas submergiram as Sete Quedas em poucos dias e encerraram uma história que se estendia por séculos.

Esse processo gerou um conjunto de impactos ambientais consideráveis. A submersão alterou o curso do rio, apagou corredeiras e ilhas e eliminou habitats aquáticos e terrestres específicos. Além disso, o novo lago interrompeu rotas de migração de peixes. Espécies adaptadas às águas rápidas e oxigenadas das quedas perderam seu ambiente original. A paisagem sonora também mudou radicalmente. O rugido constante das quedas cedeu lugar ao silêncio de um espelho d’água amplo, com características lacustres. Ao mesmo tempo, surgiram novas dinâmicas ecológicas típicas de ambientes de reservatório, como variações na qualidade da água e na composição das espécies.

O efeito social alcançou profundidade semelhante. Comunidades ribeirinhas, moradores urbanos da antiga Guaíra e populações que viviam em áreas rurais próximas precisaram se realocar. Muitos dependiam da pesca, do pequeno comércio ligado ao turismo e de atividades associadas ao rio. Embora governos e o consórcio tenham implementado programas de indenização e reassentamento, diversos registros da época apontam tensões e queixas sobre valores pagos. Além disso, muitas famílias enfrentaram dificuldades para se adaptar a novos locais. Em alguns casos, a perda dos laços comunitários e culturais ligados ao rio foi sentida tanto quanto a perda material.

Quais foram as críticas e os debates ambientais?

Na década de 1970 e início dos anos 1980, a discussão sobre grandes obras e meio ambiente começava a ganhar espaço no Brasil. Nesse contexto, ambientalistas, pesquisadores e parte da opinião pública alertavam para a perda irreversível de um patrimônio natural. Muitos ressaltavam que as Sete Quedas figuravam entre as maiores quedas d’água do planeta em volume de água. Paralelamente, surgiam questionamentos sobre alternativas de projeto, prazos e medidas de compensação.

Entre os principais pontos que críticos levantavam, destacavam-se:

Perda permanente de um sítio natural com valor paisagístico, científico e histórico;
Insuficiência de estudos ambientais detalhados, dentro dos padrões que, anos depois, se tornariam exigência legal;
Impactos sociais sobre pescadores, comerciantes e famílias deslocadas do entorno do rio;
Ausência de proteção prévia em forma de parque nacional ou área de conservação específica para as Sete Quedas.
Com o passar do tempo, as críticas se concentraram não apenas na perda do atrativo turístico. Elas também se voltaram para a discussão mais ampla sobre como equilibrar geração de energia e preservação da biodiversidade. Pesquisadores passaram a citar o caso das Sete Quedas em estudos de planejamento territorial. Desse modo, esse episódio se consolidou como exemplo de decisão em que a expansão da infraestrutura eliminou um marco natural de grande relevância. Além disso, o caso passou a ser usado em debates sobre licenciamento ambiental e sobre a necessidade de participação social em grandes projetos.

Memória, ciência e preservação ambiental

Quase meio século depois do enchimento do reservatório de Itaipu, as Sete Quedas permanecem vivas na memória de moradores antigos, guias de turismo, pesquisadores e registros fotográficos. O local exato onde as quedas existiam hoje se encontra sob metros de água, invisível à superfície. Ainda assim, a história do salto de Guaíra alimenta debates contemporâneos. Muitos especialistas discutem como identificar, valorizar e proteger áreas de alto interesse ecológico e paisagístico antes que obras de grande porte as afetem.

Em termos científicos, o episódio reforça a importância de inventários ambientais detalhados, monitoramento de espécies e planejamento energético que considere alternativas, eficiência e diversificação de fontes. Além disso, o caso incentiva pesquisas sobre restauração ecológica em bacias hidrográficas impactadas por barragens. No campo da preservação, a comparação com as Cataratas do Iguaçu, hoje cercadas por unidades de conservação no Brasil e na Argentina, mostra como políticas de proteção garantem a permanência de paisagens singulares ao longo de gerações. Por conseguinte, a experiência de Guaíra é frequentemente citada como alerta para decisões futuras em rios ainda pouco alterados.

Entre o passado submerso das Sete Quedas e o presente preservado das Cataratas do Iguaçu, a região sul do Brasil reúne dois capítulos distintos da relação entre sociedade e grandes rios. Um deles desapareceu para sempre sob o lago de uma hidrelétrica. O outro segue em queda livre e inspira turistas, cientistas e gestores públicos. Esse contraste lembra que decisões sobre território, energia e meio ambiente deixam marcas duradouras na geografia e na memória coletiva. Ao mesmo tempo, ele sugere que escolhas mais cuidadosas e integradas podem, no futuro, evitar a perda de outros patrimônios naturais de valor incalculável.

Sete Quedas – Prefeitura Municipal de Guaíra

Foto: Giro 10– Fonte:Terra

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