Os sinais vêm se acumulando há semanas. Modelos climáticos de diferentes centros ao redor do mundo apontam para a formação de um El Niño ainda em 2026, com possibilidade de que o evento ganhe força expressiva no segundo semestre.
Com isso, a palavra “super” começou a circular em redes sociais — mas os próprios cientistas que estudam o fenômeno são os primeiros a pedir cautela.
“Existem vários elementos associados a essa previsibilidade cheia de incertezas”, explica Pedro Ivo Camarinha, doutor em Mudanças Climáticas e Desastres e diretor substituto do Cemaden, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais.
“A mensagem principal é: existem incertezas.”
➡️ E o alerta não vem por falta de dados. Vem justamente por excesso de consciência sobre o que os dados ainda NÃO conseguem dizer.
O órgão americano responsável pelas previsões climáticas, o NOAA CPC, emitiu neste mês suas projeções para o fenômeno.
Segundo o boletim, condições neutras ainda prevalecem no Pacífico equatorial, mas a transição para El Niño é considerada provável a partir de maio-julho, com 61% de chance.
Para o fim do ano, a probabilidade de algum nível de El Niño sobe para mais de 90%.
O problema está no detalhe: dentro desse cenário, os modelos divergem muito sobre a intensidade.
Para o trimestre de outubro a dezembro, os modelos indicam maior probabilidade de um El Niño moderado (27%), mas também apontam chances de episódios mais intensos: 20% para forte e 13% para muito forte.
➡️ Nesses casos mais extremos, o aquecimento das águas do Oceano Pacífico pode passar de 2°C acima do normal e se manter assim por vários meses, o que caracteriza um evento mais intenso.
Ao mesmo tempo, ainda existe uma chance de 16% de que o fenômeno não se desenvolva de forma significativa.
Condições neutras no Pacífico estão em curso e devem continuar entre abril e junho de 2026. — Foto: NOAA
O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) reforça essa ambiguidade.
Em análise publicada na última semana, a instituição destacou que os valores previstos para setembro pelos modelos variam entre 1,7°C e 3,3°C, uma amplitude enorme para quem tenta antecipar impactos.
“Esta é uma variação substancial de valores para a possível amplitude do El Niño, e um valor mais preciso não pode ser fornecido de forma confiável”, afirmou o meteorologista Tim Stockdale, do ECMWF.
Por isso, para Camarinha, os números precisam ser lidos com método.
“O que a gente tenta interpretar é a quantidade de resultados que estão indicando cenários de El Niño forte, moderado, de fases neutras e assim por diante. O que nós temos observado é que as chances de termos um El Niño forte — acima de 2 graus Celsius de anomalia sustentada no Oceano Pacífico — essas chances têm aumentado conforme a gente passa as semanas e a gente faz novas simulações.”
➡️ Mas o especialista do Cemaden pondera que, no momento, o cenário mais plausível ainda é o de um El Niño moderado, com início a partir de setembro.
Segundo ele, não é possível cravar a intensidade que o fenômeno pode alcançar, já que esse tipo de previsão é probabilístico.
Ele ressalta ainda que, embora exista a possibilidade de um evento mais intenso, esse cenário é considerado pouco provável neste momento.
🌸A barreira da primavera e o caos da atmosfera
Há um motivo técnico para tanta cautela neste momento específico do ano.
Os meteorologistas chamam de “barreira de previsibilidade da primavera” — ou, no Hemisfério Sul, “barreira do outono” — o período entre março e junho em que as condições do Pacífico tropical são naturalmente menos previsíveis do que em qualquer outra época.
“A atmosfera é um sistema caótico. Isso significa que pequenas perturbações hoje podem levar a cenários completamente distintos daqui a alguns meses”, alerta Camarinha.
“Mesmo que não estivéssemos tratando de El Niño, é sempre muito difícil falar sobre como a atmosfera vai se comportar daqui a seis, oito e dez meses.”
O ECMWF descreve o mesmo fenômeno em seus documentos técnicos: as mudanças no sistema climático do Pacífico tropical durante esses meses são menos previsíveis, e os modelos podem ter dificuldade em projetar com precisão o que vem depois.
A clareza das previsões costuma aumentar entre maio e junho, quando os ventos alísios — que sopram de leste para oeste sobre o Pacífico — começam a enfraquecer.
Isso permite que as águas mais quentes avancem e se espalhem pelo oceano, reforçando os sinais do fenômeno na atmosfera e ajudando os modelos a indicar com mais segurança o que pode acontecer.
Karina Bruno Lima, doutora em climatologia e pesquisadora visitante na Universidade Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, também aponta para esse nó.
“Não se pode cravar ainda, mesmo com vários modelos apontando para isso. Estamos no período mais difícil para previsões confiáveis”, pondera a pesquisador. “As previsões vão se tornando mais confiáveis com menor antecedência.”
Lima ainda acrescenta outro fator de complexidade: o próprio aquecimento global embaralha as cartas.
“É um clima em transformação. Mesmo que os modelos incorporem essa não-estacionariedade, temos um cenário sem precedentes. Então é preciso ter cautela neste momento.”
Gráfico da NOAA mostra aumento das chances de El Niño ao longo de 2026, com maior probabilidade de eventos moderados a fortes entre o segundo semestre e o fim do ano. — Foto: NOAA
⚠️ El Niño não fabrica desastres sozinho
Além desses fatores, vale destacar que o El Niño altera a circulação da atmosfera e pode aumentar a chance de eventos extremos, mas não determina, sozinho, a ocorrência desses episódios.
No caso do Brasil, o fenômeno historicamente está associado a chuvas mais volumosas no Sul do país.
De forma geral, há também um aumento na chance de eventos de chuva intensa na região a partir do segundo semestre, especialmente entre setembro e outubro.
O El Niño por si só não fabrica eventos extremos e ele não consegue controlar na totalidade o que acontece no clima, principalmente aqui do Brasil. O que ele faz é reorganizar a circulação atmosférica, disponibilizar alguns ingredientes que são fundamentais para alguns eventos extremos.
— Camarinha, doutor em Mudanças Climáticas e Desastres e diretor substituto do Cemaden.
Karina Lima reforça essa avaliação e afirma que o El Niño coloca o país em estado de atenção, por aumentar a probabilidade de alguns eventos extremos no Brasil.
“Um El Niño com certeza nos coloca sob alerta, visto que aumenta as chances de determinados eventos extremos no Brasil, mas ainda não é possível cravar sua intensidade. E a magnitude dos impactos depende da intensidade do fenômeno, de sua configuração no oceano e de outras condições do cenário climático.”
E quando se trata de desastres — e não apenas de eventos extremos —, a avaliação se torna mais complexa.
Na visão de especialistas ouvidos pelo g1, esses episódios não dependem apenas das condições climáticas, mas também das vulnerabilidades locais.
Isso porque o risco de desastres não está ligado apenas ao El Niño nem exclusivamente ao clima.
É necessária uma combinação de fatores atmosféricos para que uma situação mais preocupante se configure e, ainda assim, aspectos como as características da região, a forma de ocupação do território e a atuação da defesa civil são determinantes para agravar ou evitar um problema do tipo.
O El Niño causa secas severas principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, com impactos significativos na Amazônia, reduzindo o nível dos rios e aumentando queimadas. — Foto: AP Photo/Edmar Barros
🔎 O que de fato vem por aí
O diagnóstico atual não é de alarme, mas de atenção. Nos próximos meses, à medida que as condições do oceano e da atmosfera evoluírem, a confiança nas previsões tende a aumentar.
Se os ventos alísios continuarem enfraquecendo e o aquecimento das águas abaixo da superfície do Pacífico se intensificar, como vem sendo observado, os modelos devem reduzir as incertezas e apontar cenários mais claros.
Só com a persistência desses sinais será possível aumentar a confiança nas projeções e, a partir disso, orientar medidas mais concretas e uma comunicação mais direta com a população para reduzir possíveis impactos.
O ECMWF também aponta que o sinal oceânico observado em 2026 é mais consistente e intenso do que o registrado em 2023, quando um El Niño acabou se confirmando.
Ainda assim, há cautela: em 2017, os modelos indicavam aquecimento, mas o que se desenvolveu foi um episódio de La Niña.
Outro ponto destacado por especialistas é que cada evento tem características próprias. A intensidade e os impactos não dependem apenas do Pacífico, mas também da interação com outros sistemas, como o Oceano Atlântico e diferentes padrões de circulação atmosférica que se formam ao longo do tempo.
🌎 O que é o El Niño — e por que ele importa tanto
O El Niño é um aquecimento fora do normal das águas do Oceano Pacífico na faixa próxima à linha do Equador.
Ele faz parte de um ciclo natural do clima que alterna fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e neutras — com impactos em várias regiões do planeta.
Esse aquecimento muda a circulação da atmosfera e altera o padrão de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.
No Brasil, os efeitos costumam ser desiguais: o Sul tende a ter mais chuva, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos.
O fenômeno também influencia a temperatura global. Em anos de El Niño mais intenso, o planeta costuma registrar calor acima da média, somando-se ao aquecimento global.
A intensidade varia de um evento para outro, assim como os impactos. E, com o planeta já mais quente, mesmo episódios moderados podem ter efeitos mais fortes do que no passado.
El Niño ilustrado no globo terrestre. — Foto: NOAA
🌧️ Possíveis impactos no Brasil
Historicamente, o El Niño altera o padrão de chuva e temperatura no país e causa:
- aumento de chuva no Sul, com risco maior de eventos extremos;
- redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste;
- mais irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste;
- maior frequência de ondas de calor.
Segundo especialistas, um dos principais efeitos esperados é o aumento de períodos prolongados de calor, especialmente na primavera e no verão.
Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator por trás das mudanças no clima.
Com os oceanos já mais quentes do que a média histórica, a expectativa é de que os próximos meses sigam registrando temperaturas elevadas em várias regiões do planeta.
El Niño e La Niña — Foto: Arte g1/Luisa Rivas
Fonte:G1