Com apenas 19 anos de idade, italiano substituiu Lewis Hamilton na Mercedes em 2025 e, neste ano, assumiu a ponta da F1 após vencer no Japão. Piloto tem Ayrton Senna como grande ídolo
“Ou vai bem na escola, ou não vai andar de kart”. A frase que ditou o ritmo na família Antonelli por anos sugere o quão jovem é o italiano Andrea Kimi Antonelli, que estreou na Fórmula 1 substituindo Lewis Hamilton na Mercedes, em 2025, em promoção que deu o que falar. Mas o potencial do piloto de 19 anos motivou a decisão da equipe, e o garoto retribuiu a fé nele pouco mais de um ano depois: venceu o GP do Japão e assumiu a liderança da categoria pela primeira vez.
Antonelli se tornou o piloto mais novo da história a assumir a liderança da Fórmula 1, com 19 anos, sete meses e quatro dias. O italiano superou o recorde que era justamente daquele que substituiu: Lewis Hamilton, ponteiro aos 22 anos durante a temporada de 2007. Marca que prova o tamanho do talento do jovem piloto, que sequer tinha carteira de motorista até o ano passado.
Natural da cidade da Bolonha, o adolescente já foi chamado de “novo Max Verstappen” porque, assim como o tetracampeão da Red Bull fez em 2015, chegou à elite do automobilismo europeu depois de queimar algumas etapas – Max não chegou a correr na Fórmula 2, e Kimi pulou a Fórmula 3.
Fórmula 1: Kimi Antonelli vence na China e quebra jejum de 20 anos de pilotos
Em 2025, Antonelli se tornou o primeiro piloto novato a correr pela Mercedes nos últimos 70 anos, desde o estreante Karl Kling na temporada 1954. Todos os últimos titulares da marca, incluindo George Russell (seu colega em 2026), Nico Rosberg, Valtteri Bottas, Michael Schumacher e o próprio Hamilton já haviam passado por outras equipes antes.
Na temporada de estreia, não fez feio: com três pódios, foi o sétimo colocado na classificação geral, com 150 pontos.
Fã de Senna e aluno exemplar
– Infelizmente, eu não cheguei a vê-lo ao vivo. Mas fiquei fascinado por (Ayrton) Senna quando, ainda criança, assisti a uma reportagem sobre ele na televisão. Desde então, ele tem sido uma fonte de inspiração e eu assisto a muitos vídeos e imagens onboard – revelou o italiano, que corre na F1 com o mesmo número utilizado por Senna em algumas temporadas: o 12.
Antonelli teve a oportunidade de disputar uma corrida de Fórmula 1 no Brasil pela primeira vez no ano passado, e o respeito do italiano pelo ídolo chamou atenção. Dias antes da prova em Interlagos, Kimi visitou o túmulo do tricampeão, localizado no Cemitério do Morumbi. O piloto permaneceu no local por um tempo e chegou a ler um livro sobre Senna em meio ao ambiente.
— Foi uma experiência muito legal. O Ayrton é o meu herói no automobilismo e, como eu estava com bastante tempo livre, pensei: “por que não?”. Era bem perto do meu hotel, então decidi ir. Fui com meu treinador e ficamos lendo um livro, apenas curtindo aquele ambiente calmo. Foi realmente muito bom. Eu queria muito ir lá e prestar minha homenagem a ele — disse Antonelli.
Aquele fim de semana no Brasil foi um marco na carreira de Antonelli, que até então vivia turbulências no ano de estreia: com um bom desempenho durante todo o fim de semana, o jovem foi ao pódio com o segundo lugar, melhor posição dele na F1 até então. Depois da prova, o piloto doou o capacete para o acervo da família Senna.
Os estudos também são um ponto chave na ascensão de Antonelli. Considerado um aluno exemplar, o piloto da Mercedes se formou no ensino médio no Instituto Técnico Salvemini di Casalecchio di Reno, com ênfase em Relações Internacionais e Marketing. Lá, ele integrava um programa especial para estudantes que competem em esportes de alto rendimento e, assim, pôde estudar, mesmo com as frequentes ausências para disputar corridas.
– Ele tem uma média excelente, todos os últimos anos foram com notas acima de 8. Ele é muito humilde, esse é o seu ponto forte – revelou à época o diretor da escola, Carlo Braga.
Habilitação recente
Por ainda ser muito jovem, Kimi Antonelli sequer tinha carteira de motorista quando foi anunciado pela Mercedes como novo piloto. O novo talento da Fórmula 1 completou 18 anos em agosto de 2024, e só então pôde pensar em obter a habilitação para dirigir nas ruas – apesar de já ter pilotado carros de corrida a mais de 250 km/h.
Antonelli só conseguiu concluir o processo de habilitação em janeiro de 2025, quando passou na prova prática e, enfim, ganhou autorização para dirigir – a menos de dois meses de estrear na F1. Detalhe: ele já tinha a superlicença exigida pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) para disputar na elite do automobilismo mundial.
– Missão concluída – comemorou o sorridente piloto.
Primeiros passos no esporte
Antonelli é filho de piloto, Marco Antonelli, que disputou provas da GT3 e da Fórmula 4 e também é dono de uma equipe, a AKM Motorsport. Marco ainda foi piloto de testes da Alfa Romeo na DTM, campeonato alemão de turismo.
Ele, porém, quase esteve em outro esporte: o futebol. O pai do jovem piloto garante que ele também tinha talento com a bola nos pés, mas o amor pelo automobilismo venceu:
— Eu sempre joguei futebol e tentamos levá-lo nessa direção; e ele também era bom. Mas, para meu filho, o apelo dos motores era muito forte. Ele chegou a ter cerca de 150 carros de brinquedo, os colocava no chão e organizava corridas, até fazia o papel de comentarista. Mas nós o “infectamos”, já que ele ia para a pista com a gente desde que estava no berço.Andrea Kimi Antonelli em 2008 — Foto: Reprodução/Redes sociais
Kimi deu as primeiras voltas no kart com sete anos e, em 2015, aos oito, passou a competir. Em sua primeira prova, ganhou ao largar da pole position com 7s sobre o segundo colocado. Na modalidade, o italiano também venceu a Grande Final de Easykart International; venceu duas vezes a Euro Series da WSK, a Super Master Series, e foi bicampeão continental de kart em 2020 e 2021.
O piloto ainda acumulou um terceiro lugar na WSK Super Master Series e o vice-campeonato da WSK Final Cup, em 2017. Sua campanha no Mundial, porém, foi afetada por um acidente no qual ele fraturou o pé e uma perna.
Chegada à Mercedes e início em monopostos
Antonelli esteve na mira da Mercedes desde a infância: no GP da Itália de Fórmula 1 em 2017, o chefe Toto Wolff soube do piloto por meio de Giancarlo Minardi, fundador da equipe de mesmo nome na F1, e o filho dele, Giovanni Minardi.
Na semana do GP de Mônaco de 2018, Kimi assinou com a Academia da equipe alemã, que seguiu observando-o desde então. Mas o time chefiado por Wolff não foi o único de olho no piloto. A Ferrari , na época comandada por Maurizio Arrivabene, tentou fechar com ele, mas o negócio não avançou por imbróglios contratuais e a pouca idade de Antonelli – na época, com 12 anos.
Antonelli estreou em monopostos em 2021, guiando o carro da Prema na Fórmula 4 italiana e fechando o campeonato em décimo lugar com 54 pontos. No ano seguinte, seu primeiro completo, ele foi campeão com 13 vitórias. Ainda em 2022, o italiano disputou a F4 dos Emirados Árabes, vencendo duas das quatro corridas que disputou, e a F4 alemã, cujo título também faturou.
Em 2023, Kimi migrou para a Formula Regional Europeia (FRECA), sendo campeão em sua temporada inaugural. Simultaneamente, ele conquistou o campeonato da Fórmula Regional do Oriente Médio. Os resultados motivaram a Mercedes a antecipar sua formação visando a F1 e, em 2024, Antonelli foi direto para a Fórmula 2 – ele acabou o ano na sexta posição, em campeonato vencido por Gabriel Bortoleto.
Com o desempenho impactante na base, Toto Wolff, chefe da Mercedes, revelou já ter pensado em contratar Antonelli no momento em que Lewis Hamilton lhe comunicou sobre a decisão de ir para a Ferrari, em janeiro de 2024. Começou, aí, o processo de preparação do adolescente que, na época, ainda tinha 17 anos. Em agosto, Kimi foi oficializado como novo piloto da escuderia.
Dois anos depois, quando Antonelli ganhou na China e triunfou pela primeira vez na Fórmula 1, o feliz Toto Wolff viria a comentar o processo de contratação da promessa, durante conversa com o pai do jovem: “Há dois anos, eu disse que o Kimi estava pronto para o assento e você disse “eu acho que sim”, então eu disse: “Vamos fazer isso” – disse Toto Wolff.
Primeiros passos na Fórmula 1
Em meio a uma legião de calouros que iniciaram o GP da Austrália de 2025 – seis, para ser mais exato -, Antonelli foi quem mais se destacou e deu uma prévia do que viria a seguir. Depois de ir mal durante a classificação e só largar em 16º, o menino de Bolonha fez uma ótima corrida de recuperação na chuva e concluiu a prova na quarta colocação, conquistando os primeiros pontos na Fórmula 1.
O bom resultado em Melbourne deu a Kimi uma marca interessante: ele se tornou o segundo mais jovem da história a pontuar na F1, atrás apenas de Max Verstappen. No mês seguinte, o circuito de Suzuka testemunhou outro recorde do piloto da Mercedes, que passou a ser o mais jovem de sempre a liderar uma corrida.
No Canadá, o até então calouro conquistou o primeiro pódio da carreira ao terminar em terceiro lugar. Com isso, também se tornou o terceiro mais novo da história da F1 a obter tal feito. Porém, engana-se quem pensa que o ano de estreia de Antonelli na categoria mais renomada do automobilismo foi todo positivo.
As exibições de Kimi no meio da temporada tiveram um forte viés de queda, e o pódio no Canadá foi a única prova do piloto na zona de pontuação em um recorte de sete corridas, da Emilia-Romagna à Spa, na Bélgica. A má fase era tamanha que Antonelli chegou a chorar depois da prova belga, com dúvidas sobre seu talento.
– Eu choro. Naquele período difícil, chorei bastante. Sofri muito, principalmente mentalmente, porque comecei a duvidar de mim mesmo. Você chega à F1, é o sonho da sua vida, aquilo pelo qual trabalhou tanto, e depois de um grande início de temporada começa a não render mais como gostaria. Foi duro – admitiu.
Porém, Antonelli conseguiu dar a volta por cima na reta final do campeonato e passou a incomodar de forma mais consistente o britânico George Russell, companheiro de Mercedes. Kimi pontuou nas oito últimas corridas de 2025, com destaque para a exibição em Interlagos, com 25 pontos (15 na corrida principal e dez na sprint).
Neste início de 2026, Antonelli ganhou a oportunidade de brilhar ainda mais graças ao potente carro da Mercedes, o mais rápido em um início de ano com novos regulamentos técnicos e de motores. Depois de acabar a corrida de estreia em segundo, o garoto se tornou o mais jovem pole position da história da F1, na China.
No dia seguinte, chorou – mas de alegria – ao ganhar pela primeira vez na categoria e, de quebra, findar um jejum italiano que durava 20 anos na Fórmula 1. O segundo triunfo foi justamente o de Suzuka, que o colocou na inédita liderança do campeonato. Ainda é cedo para dizer se Antonelli vai mesmo brigar pelo título. Talento, no entanto, ele já mostrou que tem.
Fonte: ge