quarta-feira, 19 agosto, 2026 12:58
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Quando o artista se cala, a política de entretenimento avança sem debate!

de @bonitonet
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Em mais uma análise da realidade da cultura sul-matogrossense, o jornalista Alex Fraga traça considerações a respeito também da classe artística do MS e seu posicionamento perante as políticas públicas adotadas pelos gestores locais.

Discutir política cultural em Mato Grosso do Sul tornou-se, nos últimos tempos, quase um exercício de frustração. A reclamação é recorrente entre artistas, produtores e agentes culturais: o Estado estaria privilegiando cada vez mais a contratação de grandes atrações nacionais, enquanto os artistas sul-mato-grossenses permanecem em segundo plano, muitas vezes disputando espaços reduzidos e cachês que pouco correspondem ao trabalho e à trajetória de quem construiu a própria carreira aqui.

O problema não só está, evidentemente, em trazer grandes artistas para Mato Grosso do Sul. Um Estado pode — e deve — promover intercâmbio cultural, receber diferentes linguagens e oferecer ao público atrações de alcance nacional. A questão é outra: qual é o espaço reservado à produção cultural do próprio Estado dentro dessa equação? Porque política cultural não pode ser confundida com política de entretenimento.

Um grande show pode reunir milhares de pessoas durante algumas horas. Mas uma política cultural consistente precisa produzir algo que permaneça depois que o palco é desmontado: formação, circulação, memória, profissionalização, criação, público e, sobretudo, reconhecimento de uma identidade cultural. É justamente aí que começa o desconforto.

Enquanto o discurso oficial costuma falar em valorização da cultura sul-mato-grossense, muitos artistas continuam perguntando onde, de fato, está essa valorização. E a pergunta não é apenas retórica. A cultura precisa de política de Estado, e não apenas de uma sucessão de eventos. E existe uma segunda questão, talvez ainda mais incômoda: onde está a própria classe artística? A reclamação existe. Nos bastidores, ela é forte. Nas conversas entre músicos, produtores, atores, artistas visuais e outros agentes culturais, não faltam críticas à condução da política cultural. Mas, quando chega a hora de transformar a insatisfação em posicionamento público, o silêncio costuma prevalecer. Medo? Medo de perder espaço em um edital? De não ser contratado para o próximo evento? De deixar de receber aquele cachê, ainda que baixo? De desagradar alguém dentro da estrutura pública? Se esse medo existe — e seria ingênuo fingir que não existe — ele revela um problema ainda maior.

Quando um artista precisa escolher entre defender sua profissão e preservar uma oportunidade eventual de trabalho, alguma coisa está profundamente errada na relação entre poder público e produção cultural. Mas também é preciso fazer uma pergunta à própria classe artística: até que ponto vale a pena permanecer calado?

Porque um artista que pretende levar sua carreira a sério não pode ser apenas fornecedor de entretenimento quando o poder público precisa preencher uma programação. Ele precisa ser reconhecido como trabalhador da cultura, como produtor de conhecimento, como agente de memória e como parte fundamental da identidade de um território. E isso exige organização.

Não basta reclamar individualmente. É preciso discutir coletivamente critérios de contratação, valores de cachês, transparência, distribuição de oportunidades, circulação de artistas, formação de público e presença da produção regional nos grandes eventos financiados ou promovidos pelo poder público.

É nesse ponto que surge outra pergunta inevitável: o que está fazendo o Conselho de Cultura diante desse cenário? Ele não deveria existir apenas para cumprir uma formalidade institucional. Conselhos são instrumentos de participação social e de construção de políticas públicas. A própria estrutura estadual atribui à área de cultura a formulação e coordenação da política cultural, em articulação com a Fundação de Cultura.

Portanto, cabe perguntar: quais discussões o Conselho está promovendo sobre a participação dos artistas locais nos grandes eventos? Que propostas apresentou? Que diagnósticos produziu? Que medidas defendeu? Está ouvindo efetivamente os diferentes segmentos culturais ou a representação da sociedade civil tornou-se apenas mais uma engrenagem burocrática? Não se trata de pedir privilégios para quem produz arte em Mato Grosso do Sul. Trata-se de exigir política pública.

Um Estado que possui músicos, compositores, escritores, cineastas, atores, artistas visuais, artesãos, grupos tradicionais e uma produção cultural reconhecida não deveria depender exclusivamente de grandes nomes de fora para construir seus acontecimentos culturais. Até porque contratar uma atração nacional pode trazer público. Mas investir sistematicamente no artista local significa construir uma cena.

E cenas culturais não nascem de grandes cachês ocasionais. Nascem de continuidade.

O mais preocupante, portanto, talvez nem seja a quantidade de grandes shows contratados. É a possibilidade de que Mato Grosso do Sul esteja construindo uma política cultural na qual o artista local seja lembrado no discurso, utilizado na fotografia institucional, incluído eventualmente na programação — mas continue sem ocupar o lugar estratégico que deveria ter na construção da própria política cultural. E, nesse processo, o silêncio dos artistas também precisa ser discutido. Porque governos mudam. Secretários mudam. Gestores passam. Editais terminam. Mas a cultura permanece — e deveria permanecer também a coragem de quem vive dela para cobrar o lugar que lhe pertence.

Fonte: Blog Alex Fraga

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