A Petrobras deu início a um novo ciclo de investimentos no agronegócio brasileiro — com os fertilizantes no centro da estratégia.
Em entrevista exclusiva à EXAME, Magda Chambriard, presidente da Petrobras, revelou, em primeira mão, que a companhia acaba de contratar a construção da UFN3, uma nova fábrica de fertilizantes nitroge
“Estamos contratando agora a UFN3 no Mato Grosso do Sul. Vai estar pronta em 2029, mas em meados de 2027 nós já vamos ter lá um bom parque de tancagem de ureia”, diz a presidente.
O projeto envolve um investimento de cerca de US$ 1 bilhão e deve ampliar significativamente a capacidade produtiva da estatal.
“Só essa fábrica vai ser capaz de fornecer 15% de todo o fertilizante nitrogenado que o Brasil precisa,” afirma.
Retomada após saída do setor
A aposta marca uma virada estratégica após anos fora deste mercado. A Petrobras decidiu sair do mercado de fertilizantes em 2016, intensificando o fechamento de unidades entre 2018 e 2020, sob a justi
Nesse período:
- as FAFENs da Bahia e de Sergipe foram desativadas em 2018
- a unidade de Araucária (PR) foi paralisada em 2020
O movimento fazia parte de uma estratégia mais ampla de desinvestimentos e e foco no petróleo.
A retomada começou em 2024, quando o governo oficializou a reativação da fábrica de Araucária (PR), sinalizando uma mudança de direção.
Reativação e ganho de escala
Hoje, a Petrobras já voltou a operar unidades estratégicas e ampliou sua produção.
A produção está concentrada em três polos:
- Sergipe (Laranjeiras): cerca de 1.800 toneladas/dia de ureia
- Bahia (Camaçari): cerca de 1.300 toneladas/dia
- Paraná (Araucária): reativada em 2024
Fertilizante: ‘Bom para o Brasil, bom para nós’
Mais do que uma volta ao passado, o movimento reflete uma nova lógica de negócios.
Segundo Chambriard, o fertilizante passou a ser visto como uma forma de monetizar o gás natural produzido pela companhia.
“Vamos usar a cadeia de fertilizantes como uma âncora para ampliar nossa venda de gás. Bom para o Brasil, bom para nós.”
Antes, parte desse gás era reinjetada nos poços por falta de infraestrutura, o que gerava custo em vez de receita.
“Quando esse gás volta para a jazida ele, em vez de ser receita para mim, vira despesa.”
Ao direcionar esse insumo para a produção de fertilizantes, a Petrobras transforma um excedente em produto estratégico – produto que o país hoje é dependente de importação.
Agro, energia e geopolítica
A volta ao setor acontece em um momento em que os fertilizantes ganharam relevância global, impulsionados por crises energéticas e conflitos internacionais.
A guerra entre Ucrânia e Rússia, mostrou o impacto dessa dependência. O Brasil importa 85% dos fertilizantes que utiliza, e a Rússia responde por 23% dessas importações. Logo depois o conflito entre Estados Unidos e Irã reforçou a necessidade de investimento no setor de fertilizantes. O Oriente Médio é responsável por 30% dos fertilizantes comercializados no mundo, segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Com o Estreito de Ormuz praticamente fechado, o frete fica mais caro e aumenta o custo de chegada dos insumos.
Ao investir em produção local, a Petrobras tenta reduzir essa dependência e se posicionar em duas agendas críticas: segurança energética e segurança alimentar.
Fonte:Exame