Nem Gol, nem Strada: Honda CG é o veículo mais vendido do Brasil e vira cinquentona

Da clássica “bolinha” dos anos 70 à tecnologia atual, conheça a evolução da moto que virou sinônimo de resiliência e liberdade para milhões de brasileiros

“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.” Ao som de Belchior, a Honda celebrou os 50 anos da CG, mostrando que o veículo mais vendido do Brasil é um verdadeiro sujeito de sorte.

Quando chegou ao Brasil, o mercado de motos, ainda desacreditado, sofria nas mãos da importação. Vale lembrar que o país atravessava o período da ditadura militar — e nem preciso dizer que isso é sinônimo de censura e repressão.

Honda CG – 1976 Foto: Amanda Lino

Nesse contexto, a CG 125 mostrou que, apesar de muito “moço”, era “são, salvo e forte”. Apelidada de “bolinha”, ela trazia cromados que tomavam grande parte dos componentes, incluindo o charmoso tanque arredondado.

À época, custava Cr$ 8.800,00 — o equivalente a algo entre 11 e 14 salários mínimos de 1976 — e hoje sairia por algo entre R$ 4.200,00 e R$ 5.500,00 (valores corrigidos com auxílio de inteligência artificial de acordo com o IPCA).

O preço podia ser salgado, mas limitar sua importância a isso é um descaso com a história. A bolinha foi a primeira moto Honda a ser produzida no Brasil e trouxe o primeiro ganhador de três Copas do Mundo como garoto-propaganda: Pelé, o Rei.

Caminhando um pouco mais no tempo, os anos exigiam álcool. Mas, calma, não é da “boa ideia” que estou falando. Com a crise do petróleo, o mundo precisava de alternativas para a gasolina, que estava cada vez mais cara. Pois é, como avisava Jorge Ben Jor: “cuidado com o disco voador”. Quer dizer, cuidado com o etanol, que nos longínquos anos de 1986, carregava muita desconfiança. Nessa toada, a Honda trouxe a primeira moto movida a etanol do mundo, com mais uma CG marcando história.

Além do combustível inovador, ela trazia câmbio de 5 marchas e um injetor para partida a frio. O preço não mudou, mas o consumo era cerca de 18% maior — o que era compensado pelo baixo valor do etanol na bomba.

CG 125 – 1986 movida a etanol Foto: Amanda Lino

Os anos 90 foram… interessantes. A década começou com o confisco das cadernetas de poupança, algo tão doloroso que não vou me aprofundar, mas que sempre vale lembrar para que não vejamos o futuro repetir o passado. Depois, tivemos a recuperação impulsionada pelo Plano Real, trazendo mais robustez econômica em resposta ao grito de “Que país é esse?”, de Renato Russo.

Um país criando corpo precisava de uma moto com mais intensidade. Assim, a Honda CG 125 Today (1989) se transformou na CG 125 Titan, com tanque de combustível mais arredondado, nova rabeta, novas tampas laterais e alças para o garupa.

CG 125 – 1985 Foto: Amanda Lino

Pulando para 2004: espere até a madrugada para usar a internet discada no seu monitor de tubo e abra o Orkut para mandar scraps para seus “miguxos”.

A trilha sonora dos anos 2000 foi de Felipe Dylon a NX Zero, passando por Ragatanga. Mas o que a Honda poderia dizer era “Oops, I did it again” — tal qual Britney Spears. E sim, eles fizeram de novo. Ainda sob o título de Titan, a inovação ficou por conta do motor OHC de 150 cm³, mais econômico, além de alterações significativas no visual.

O sistema de proteção Shutter-key impedia o acesso ao miolo de ignição quando a moto era estacionada em locais públicos.

Honda CG 125 – 2004 Foto: Amanda Lino

Em 2016, chegamos aos 40 anos da CGzinha. A astrologia classifica essa idade como a “crise de autenticidade”. Para quem acredita, serve tanto para pessoas quanto para motos, aparentemente.

Foi nessa época que o espírito esportivo da CG floresceu mais uma vez. Ela ganhou uma pintura especial inspirada na HRC (Honda Racing Corporation), com rodas douradas, carenagem mesclando branco, vermelho e azul, além de um selo comemorativo. Também trazia de série o freio tipo CBS, que combina a frenagem entre as rodas.

Nesses 40 anos, 11 milhões de CGs foram vendidas. Talvez fosse o caso de comemorar ao som de ‘Tá tranquilo, tá favorável’?

Honda CG edição 40 anos Foto: Amanda Lino

Estamos chegando ao fim do texto, mas não da história da Honda CG. Afinal, a memória do veículo mais vendido do Brasil (com mais de 15 milhões de unidades vendidas) não cabe em apenas uma matéria. Aliás, textos são guardiões de lembranças, assim como as fotos, como a latinidade apaixonada de Bad Bunny bem pontuou.

Nas imagens abaixo, é possível ver os detalhes da edição comemorativa de 50 anos da CG. Ela traz um minimalismo elegante e discreto, envolto em grafismos exclusivos e elementos que remetem a versões anteriores. Traz também molas do amortecedor e chave de ignição na cor vermelha, além do sistema de freio ABS na dianteira.

CG 125 edição 50 anos – 2026

Honda CG 125 edição especial 50 anos

Por fim, os 50 anos da CG não são apenas um marco para a Honda, mas uma ode ao espírito desbravador do povo brasileiro, que enfrentou dias sombrios, momentos de virada e encontra, na mobilidade e nas possibilidades que ela traz, um caminho para redesenhar a própria jornada.

Linha do tempo da Honda CG Foto: Amanda Lino

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