Um estudante de Biologia registrou uma cena rara em Mogi Guaçu (SP): um sovi segurando um morcego ainda vivo entre as garras, em plena luz do dia. O flagrante, feito por Davi Eduardo Inácio Orica em uma área verde cercada por casas, chama a atenção por revelar um comportamento pouco comum na espécie e convida a um olhar mais atento para a vida silvestre urbana.
Davi conta que foi ao local apenas para observar aves, atividade que pratica com frequência. Com a câmera em mãos, começou registrando espécies comuns, como anu-preto, tiziu e bem-te-vi, quando percebeu a movimentação diferente.
“Logo observei um indivíduo adulto de sovi no local e comecei a fotografá-lo. Nesse meio tempo, notei também um indivíduo jovem em um galho próximo, que vocalizava bastante”, relatou Orica.
Em determinado momento, o adulto voou em direção a uma área mais residencial e saiu do campo de visão. Davi continuou observando o jovem, até que decidiu ir embora para o almoço de Natal. Mas um novo chamado da ave mudou tudo.
“Ouvi o jovem vocalizando novamente e resolvi voltar só para dar uma última olhada. Foi quando vi o adulto de volta, com algo se mexendo entre as patas.”
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Ao usar o zoom da câmera, veio o choque: “Era um morcego vivo nas garras de um sovi, em plena luz do dia. Eu não conseguia acreditar”.
Um comportamento incomum
O flagrante chama atenção por contrariar o que normalmente se associa ao comportamento da espécie. O sovi (Ictinia plumbea) é um gavião de pequeno porte da família dos acipitrídeos, bastante comum no Brasil e conhecido por uma dieta fortemente baseada em insetos.
“O sovi se alimenta quase que exclusivamente de insetos, capturados em pleno voo, como libélulas, cigarras e besouros. Ainda assim, estudos em ninhos já encontraram restos de outros animais, como aves, lagartos e até morcegos”, explicou o ornitólogo Fernando Igor de Godoy.
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Ou seja, trata-se de um comportamento pouco comum de ser observado, mas já documentado pela ciência.
Para o especialista, o ambiente também pode influenciar esse tipo de interação. “Em áreas urbanas, a quantidade de insetos pode ser mais limitada, o que leva essas aves a recorrerem eventualmente a outras presas”, explicou.
Cuidado parental
As imagens também revelam um detalhe importante. No local, aparecem um indivíduo adulto e um filhote de sovi.
“Pela foto é nítido que se trata de um adulto e um jovem. A plumagem estriada e a comissura labial no bico indicam um indivíduo imaturo. Pelo fato de estarem tão próximos, o adulto provavelmente estava alimentando o filhote”, afirmou o ornitólogo.
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Segundo o especialista, a escolha de uma presa mais nutritiva pode estar diretamente ligada a essa fase da vida.
“Um morcego é um recurso com mais valor nutricional, o que pode favorecer o desenvolvimento do jovem”.
Davi também registrou o momento em que o adulto se alimenta e, logo depois, voa novamente com a presa, possivelmente levando o alimento ao filhote.
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Caça diurna
À primeira vista, a cena causa estranhamento. Afinal, como um gavião de hábitos diurnos consegue capturar um animal associado à noite?
Segundo o ornitólogo Fernando Igor, isso pode ocorrer quando o morcego ainda está ativo após o amanhecer.
“Quando aves diurnas caçam morcegos, geralmente isso acontece nas primeiras horas do dia, principalmente quando algum indivíduo ainda está ‘perdido’, voando mesmo com o sol já alto”, explicou.
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No caso do flagrante em Mogi Guaçu, a observação aconteceu entre 11h30 e 12h10, um horário ainda menos comum para esse tipo de interação.
Esse detalhe torna o registro especialmente relevante, tanto do ponto de vista científico quanto educativo, ao revelar comportamentos pouco percebidos da fauna que convive com o ambiente urbano.
Quem é o sovi?
Conhecido também como gavião-pomba, gavião-papa-formigas ou gavião-sauveiro, o sovi ocorre do México à Argentina e está bem distribuído por quase todo o território brasileiro. A espécie habita bordas de florestas, capoeiras altas e matas de galeria, incluindo áreas próximas a rios.
No Pantanal, no Sul e no Sudeste, as populações apresentam hábitos migratórios. Durante o outono e o inverno, migram para o Norte do país, especialmente para a Amazônia, retornando na primavera e no verão, período reprodutivo.
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Pequeno e esguio, o sovi mede entre 34 e 37 centímetros, tem asas longas e estreitas e coloração cinza-ardósia, com um tom castanho-avermelhado visível nas asas quando está em voo.
Durante o dia, pode ser visto voando sozinho, em casal ou até em bandos, muitas vezes sobre áreas abertas, onde caça insetos em pleno ar.
Por se alimentar majoritariamente de insetos, o sovi exerce um papel importante no controle de pragas agrícolas.
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A espécie tem populações consideradas estáveis e, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), está classificada como Pouco Preocupante em relação ao risco de extinção.
Seu nome, curioso, é onomatopeico e faz referência ao som característico emitido pela ave – um detalhe que costuma denunciar sua presença muito antes de ela ser vista no céu.
Fonte:G1MS