domingo, 5 julho, 2026 11:47
Home PolíticaLula inaugura até canteiro de obras e túnel sem água na corrida contra o tempo para se reeleger

Lula inaugura até canteiro de obras e túnel sem água na corrida contra o tempo para se reeleger

de @bonitonet
0 comentários

A três meses da disputa por um novo mandato, presidente participa de 19 agendas públicas em duas semanas, visita sete Estados e se compara a Getúlio Vargas, o ‘pai dos pobres’

“Davi, você está fazendo o que aqui?”. A pergunta, feita por Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira, 3, no fim de uma cerimônia no Palácio do Planalto, não era para aquele interlocutor que o presidente terá de enfrentar, de agora em diante, se quiser que projetos de interesse do governo, como o fim da escala 6×1, saiam da gaveta antes das eleições.

Davi, no caso, não atendia pelo sobrenome Alcolumbre, do poderoso presidente do Senado. Era apenas um menino que estava no Salão Nobre do Planalto, na cerimônia onde Lula anunciou inaugurações de obras e serviços nas áreas de saúde, educação e moradia. Sentado no meio da plateia, o garoto só queria fazer um pedido.

Com Lula no papel de entrevistador, segurando um microfone à sua frente, Davi não se fez de rogado. “Tem como você mandar pintar os muros de Salvador?”, perguntou ele, de supetão. O presidente engatou uma promessa. “Ô, Jerônimo, escuta aqui o que esse menino está dizendo”, apelou o petista, numa referência ao governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT). “O povo está exigindo pintura”, emendou, pedindo a Davi que também desse o seu recado, ao microfone, para o prefeito Bruno Reis (União Brasil), rival do PT.

Lula inaugura canteiro de obras na cidade de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica. Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República
A cena retrata bem um candidato em campanha. Às vésperas do fim do prazo determinado pela lei para que agentes públicos interessados em concorrer às eleições fizessem entregas, Lula correu contra o tempo para tirar projetos do papel. O prazo se encerrou neste sábado, 4.

Durante a maratona de viagens, o presidente inaugurou até mesmo o canteiro de obras de uma ponte que vai ligar a capital baiana à Ilha de Itaparica, ao custo de R$ 11,6 bilhões.

“Finalmente, saiu a Ponte Itaparica”, anunciou Lula, na quarta-feira. O ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil-BA), adversário de Jerônimo na disputa pelo Palácio de Ondina, aproveitou o ato para fustigar o PT.

“Mas saiu onde? Saiu para quem?”, provocou Neto. “Eles prometem isso há 20 anos! Eu espero, sinceramente, que o presidente não esteja vivendo na Jerolândia, que é o mundo paralelo de Jerônimo Rodrigues”.

De 19 de junho até o último dia 3, Lula participou de 19 agendas políticas em sete Estados. Os principais focos do pacote de entregas, ainda que as obras não estivessem prontas, foram saúde, educação, habitação, infraestrutura, agricultura e segurança pública. Na lista dos investimentos anunciados se destacavam R$ 140 bilhões para a Nova Indústria Brasil e R$ 97,3 bilhões para o Plano Safra, além de R$ 600 milhões para a ferrovia Transnordestina.

Em duas semanas, Lula desembarcou em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte. Fez visitas-relâmpago a Divinópolis, Belo Horizonte, Rio, Paracambi/Piraí, Três Lagoas, Ponta Porã, Campo Grande, Corumbá, Itajaí, Navegantes, Alagoinhas, Vera Cruz, Quixeramobim, Juazeiro do Norte e Luís Gomes.

Além disso, na sexta-feira – dia em que conheceu o menino Davi –, o presidente acompanhou, diretamente do Planalto, uma série de inaugurações simultâneas em 12 cidades de sete Estados (São Paulo, Rio, Amazonas, Sergipe, Piauí, Alagoas e Pernambuco).

Ministros como Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) e Alexandre Padilha (Saúde) e o vice-presidente Geraldo Alckmin apareceram nas cerimônias pelo telão, que exibia tudo ao vivo. No Salão Nobre e em algumas das cidades beneficiadas, a plateia puxava o tradicional refrão da campanha petista – “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula” –, entremeado por “Lula, guerreiro do povo brasileiro”.

Um dia antes, na quinta, Lula inaugurou o túnel de irrigação Major Sales, no interior do Rio Grande do Norte, sem uma única gota d´água. Ficou furioso e sobrou bronca para todo mundo. “Cadê o dono da empresa que fez esse túnel?”, reclamou.

Vinte e quatro horas depois, ainda inconformado, tentou explicar o que havia ocorrido para eleitores que estavam no Planalto. “Eu fui inaugurar o último trecho da transposição do São Francisco. Fui lá pensando que eu ia esperar a água chegar, ia tomar um banho na água. Mas a empresa fez o cálculo errado. Ao invés de a água chegar ao meio-dia, chegou à meia-noite.”

O governo afirma que o túnel tem 6,5 quilômetros de extensão e capacidade para transportar até 20 metros cúbicos de água por segundo. Lula incumbiu o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, de redobrar os esforços para divulgar “a maior obra de infraestrutura hídrica” da América Latina.

Depois nós vamos colocar na televisão um vídeo das pessoas esperando a água atravessar o túnel para levar água de um Estado para outro Estado, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República

Apesar de ter perdido votos no Nordeste, o presidente ainda tem na região o seu maior reduto eleitoral. “Depois nós vamos colocar na televisão um vídeo das pessoas esperando a água atravessar o túnel para levar água de um Estado para outro Estado”, avisou.

Sem esconder a irritação com a lei que proíbe entregas oficiais nos três meses que antecedem o primeiro turno das eleições, Lula chamou as restrições de “papagaiada desgraçada” e se comparou a Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”. Nos discursos, ele nunca cita o nome do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal desafiante, mas não deixa dúvidas sobre o destinatário das críticas.

“Nós temos agora o período de defeso. O defeso é para pesca. Você não pode pescar na época da desova. E agora a gente não pode inaugurar mais nada até as eleições”, queixou-se Lula. Mas não se deu por vencido: “Embora não possa inaugurar, eu vou visitar muitas coisas que ainda tenho de visitar”.

Antes de se despedir da plateia, ele puxou Davi pelo braço. “Aqui nesse governo vocês percebem que não é só mulher que está com a bola toda. Aqui também as crianças reivindicam”, insistiu. No Planalto, um auxiliar do presidente disse, no entanto, que todos ali esperam uma guerra pela frente. E, para evitar o mal maior, será preciso combinar o jogo com o outro Davi, que está do outro lado da Praça dos Três Poderes.

Fonte: Estadão

Você também pode gostar

-
00:00
00:00
Update Required Flash plugin
-
00:00
00:00