A decisão do governo federal de zerar o imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50 acendeu um alerta na indústria brasileira, que afirma enfrentar um cenário de dupla pressão econômica. Além das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, empresários agora criticam o fim da chamada “taxa das blusinhas”, alegando que a medida amplia a concorrência com mercadorias importadas e reduz a competitividade da produção nacional.
Representantes dos setores têxtil, de confecção e de calçados afirmam que a combinação das duas medidas pode provocar perdas para a indústria, especialmente entre empresas que já sofrem os impactos das restrições comerciais impostas pelo mercado norte-americano.
Entre as entidades que manifestaram preocupação estão a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), a Associação Brasileira da Indústria do Vestuário (Abiv) e a Abicalçados, cujos segmentos estão entre os afetados pelo aumento das tarifas de exportação para os Estados Unidos.
A medida provisória que extinguiu o imposto de importação para encomendas internacionais de até US$ 50 ainda depende de aprovação do Congresso Nacional e precisa ser votada até setembro para continuar em vigor.
Indústria fala em “dupla punição”
Para o diretor-superintendente da Abit, Fernando Pimentel, o setor vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos, pressionado pela desaceleração do mercado interno, pelo crescimento das importações e pelas barreiras comerciais impostas ao Brasil.
Segundo ele, retirar a tributação dos produtos importados sem reduzir a carga tributária das empresas nacionais amplia a desigualdade na concorrência. “Isso é um tarifaço também, porque você tira o imposto do importado e continua com os impostos para o nacional. Então, isso é um tarifaço.”
Como estratégia para reduzir os impactos, a entidade defende a abertura de novos mercados para as exportações brasileiras e a adoção de mecanismos de defesa comercial, como preços de referência, licenciamento não automático de importações e cotas temporárias para conter o excesso de produtos estrangeiros.
Pimentel afirma que a indústria têxtil brasileira possui capacidade para enfrentar momentos de crise, mas considera difícil suportar diversos fatores negativos ao mesmo tempo.
Setor teme perda de competitividade
Em nota, a Abiv afirma que a desoneração das compras internacionais beneficia plataformas estrangeiras em detrimento das empresas instaladas no Brasil.
Segundo a entidade, a medida afeta principalmente micro e pequenas empresas que enfrentam elevada carga tributária, juros elevados, custos logísticos e um ambiente regulatório complexo.
A avaliação é compartilhada pelo economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), João Gabriel Pio.
Para ele, a combinação entre o aumento das tarifas dos Estados Unidos e o fim da tributação das encomendas internacionais pode agravar a situação da indústria brasileira.
A estimativa da Fiemg é de que os efeitos econômicos das duas medidas possam alcançar cerca de R$ 30 bilhões no segundo semestre deste ano.
Especialistas apontam efeitos de longo prazo
Na avaliação do especialista em direito tributário Marcelo Costa Censoni Filho, embora as duas medidas tenham origens diferentes, ambas produzem o mesmo resultado econômico: a redução da competitividade da indústria nacional.
Segundo ele, além do setor de vestuário, segmentos como cosméticos, utilidades domésticas e eletrônicos também tendem a ser impactados.
O tributarista observa que a retirada do imposto pode trazer vantagens imediatas para os consumidores, com produtos mais baratos, mas alerta para possíveis consequências futuras.
Entre elas estão a perda de competitividade das empresas brasileiras, redução da arrecadação pública e maior dependência de produtos importados.
O advogado Luís Garcia, especialista em governança, compliance e direito tributário, também considera inadequado o momento escolhido para extinguir a cobrança.
Segundo ele, a isenção das importações ocorreu sem medidas equivalentes para aliviar a carga tributária suportada pela indústria nacional.
Importações cresceram após o fim da taxa
Dados do governo mostram que, em junho, primeiro mês completo sem a cobrança do imposto de importação para compras de até US$ 50, o Brasil registrou 28 milhões de encomendas internacionais.
O volume representa aumento de 118% em relação ao mesmo mês de 2025 e crescimento de 72% na comparação com abril deste ano.
Diante da alta das importações, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta semana que o governo acompanha os indicadores e não descarta rever a medida caso os impactos sobre a economia nacional se mostrem significativos.
Durante os dois anos em que a chamada “taxa das blusinhas” esteve em vigor, a cobrança adicional gerou R$ 8,2 bilhões em arrecadação para os cofres federais.
Fonte:AGB