Inadimplência no crédito rural quase dobra e acende alerta em MS

A deterioração da qualidade do crédito rural em Mato Grosso do Sul acende um novo sinal de alerta para o agronegócio. Levantamento da equipe econômica da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS), com base em dados do Banco Central, mostra que a parcela dos financiamentos classificados como problemáticos praticamente dobrou em 18 meses, passando de 13,9% do total contratado, em janeiro de 2025, para 27,6%, em junho deste ano.

O movimento ocorre em um momento em que produtores e empresas do agronegócio enfrentam pressão sobre o caixa, com crédito mais seletivo, custos elevados e maior endividamento.

O cenário também aparece em outro indicador de dificuldade financeira: os pedidos de recuperação judicial do agronegócio de Mato Grosso do Sul cresceram 52% no primeiro trimestre deste ano, segundo dados da Serasa Experian já publicados pelo Correio do Estado.

Entre janeiro e março, foram registrados 38 pedidos de recuperação judicial de produtores rurais e empresas relacionadas à cadeia do agro, contra 25 no mesmo período de 2025. O crescimento estadual ficou bem acima da alta de 21,9% observada no País.

Os números, embora tenham naturezas diferentes, ajudam a dimensionar a pressão financeira que vem atingindo o setor. De um lado, o levantamento da Aprosoja-MS aponta a ampliação dos créditos que apresentam algum tipo de problema.

De outro, os dados da Serasa Experian mostram que parte dos agentes que não conseguem reorganizar as finanças já está recorrendo à recuperação judicial.

“O que mais chama atenção não é o volume de crédito captado, que se manteve estável, mas a deterioração da qualidade desse crédito. Em um ano e meio, a fatia problemática praticamente dobrou de proporção, e isso é um sinal de alerta para todo o setor”, avalia o analista de economia da Aprosoja-MS, Linneu Borges Filho.

COMPOSIÇÃO
O boletim técnico da entidade destaca que, apesar da estabilidade dos valores totais captados, houve uma mudança importante na composição do endividamento. Em janeiro de 2025, os créditos classificados como problemáticos representavam 13,9% do total e, em junho deste ano, chegaram a 27,6%. 

O quadro fica mais preocupante quando são analisadas as categorias que compõem o crédito problemático. A Aprosoja-MS considera quatro situações: renegociado, inadimplente, prorrogado e em atraso.

O maior avanço ocorreu justamente nos financiamentos em atraso. A participação dessa modalidade mais que dobrou, passando de 4,9% para 12,6% entre janeiro de 2025 e junho deste ano. Os créditos inadimplentes também aumentaram em 1,5 ponto porcentual (p.p.).

Ao mesmo tempo, os créditos que passaram por mecanismos de resolução, como renegociação e prorrogação, perderam participação proporcional no total.

Para a entidade, o movimento pode indicar que produtores que já enfrentam dificuldades não estão recorrendo aos instrumentos disponíveis para reorganizar os débitos.

“A queda proporcional de renegociações e prorrogações, justamente no momento em que o atraso mais cresce, indica que o produtor que entrou em dificuldade não está buscando resolver o problema, o que tende a agravar sua situação financeira lá na frente”, aponta o boletim técnico da associação.

A preocupação é de que o problema não fique restrito aos produtores que já apresentam dificuldades. Segundo a análise, o aumento da inadimplência pode elevar a percepção de risco das instituições que ofertam crédito rural, como bancos, financeiras e cooperativas.

Com maior risco, a tendência apontada pela Aprosoja-MS é de que o custo do dinheiro também aumente. As instituições podem incorporar uma margem de segurança às taxas de juros para compensar possíveis perdas provocadas pela inadimplência.

Assim, o produtor que está em dia pode acabar pagando mais caro para financiar a próxima safra. Para aquele que já enfrenta dificuldades, o cenário é ainda mais delicado, pois, ao precisar reorganizar o débito, pode encontrar juros maiores ou precisar alongar o prazo de pagamento, elevando o custo total da dívida. 

RECUPERAÇÃO
É nesse ambiente que os dados da Serasa Experian ganham relevância. Dos 38 pedidos de recuperação judicial registrados pelo agronegócio de MS, o maior número veio das empresas relacionadas ao agro, com 22 pedidos, o equivalente a quase 58% do total. Os produtores rurais constituídos como pessoa física somaram 13 solicitações, enquanto os produtores pessoa jurídica registraram três.

O avanço também chama atenção quando observado em uma série mais longa. Conforme já publicado pelo Correio do Estado, o agronegócio de Mato Grosso do Sul acumulou 216 pedidos de recuperação judicial em 2025, volume 118% superior ao registrado em 2024 e 756% maior que o de 2023.

Os dados indicam que a pressão financeira não está concentrada exclusivamente dentro das propriedades rurais. Empresas responsáveis por processamento, transformação e prestação de serviços ao campo também estão enfrentando dificuldades para equilibrar suas contas.

No Brasil, as empresas relacionadas à cadeia do agronegócio registraram 96 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre deste ano, alta de 18,5% sobre os 81 pedidos do mesmo período de 2025. 

A combinação de crédito mais seletivo, custos elevados de produção e maior alavancagem continua afetando o fluxo de caixa do campo. Para o head de Agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta, os pedidos de recuperação judicial refletem problemas que já vinham afetando o setor.

“O ambiente de crédito mais seletivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e ao maior nível de alavancagem dos produtores, continuou afetando o fluxo de caixa no campo. Dessa forma, os pedidos voltaram a crescer no início de 2026, mas ainda não retomaram os níveis mais elevados observados em meados do ano passado”, diz.

Segundo ele, a evolução do cenário nos próximos meses dependerá da capacidade de geração de receita, do comportamento das margens e das condições de renegociação dos compromissos.

“Daqui para o fim do ano, a evolução do cenário dependerá da capacidade de geração de receita, do comportamento das margens e das condições de renegociação dos compromissos. Por isso, reforçamos que renegociar e manter um planejamento financeiro deve ser prioridade, enquanto a recuperação judicial precisa permanecer como o último recurso”, finaliza Pimenta. 

PLANEJAMENTO
Para a Aprosoja-MS, o caminho para evitar o agravamento das dívidas passa pelo planejamento financeiro. O produtor que está adimplente deve buscar reduzir o custo do crédito e organizar o pagamento dos compromissos, evitando que o financiamento migre para a categoria problemática.

Já para quem está em dificuldade a orientação é buscar uma solução antes que o problema se agrave, por meio de prorrogação ou renegociação da dívida. 

“Quanto antes o produtor buscar renegociar, menor tende a ser o custo final da dívida. E, do lado público, é fundamental que haja políticas de orientação ao produtor para evitar que novos casos cheguem a essa situação”, traz o informativo.

A associação aponta ainda que a solução depende de uma ação conjunta de quem oferta e de quem toma o crédito, com maior previsibilidade diante de contratempos e rapidez na resolução dos problemas.

A entidade avalia que o equilíbrio pode resultar em maior segurança financeira, menores taxas de juros e maior circulação da economia.

Fonte:Correiodoestado

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