Fundação de Cultura: dinheiro público, prioridades questionáveis!

O jornalista Alex Fraga, tece comentários a respeito da atuação da Fundação de Cultura do MS em eventos promovidos e apoiados pela mesma

Fundação de Cultura deveria formular políticas públicas, fortalecer artistas, preservar patrimônio e estimular a economia criativa. Em Mato Grosso do Sul, porém, cresce uma dúvida incômoda: o Estado está fazendo política cultural ou apenas organizando eventos? A diferença é fundamental. Grandes shows e artistas nacionais podem fazer parte da programação pública. O problema surge quando cachês elevados para atrações de fora contrastam com a realidade dos artistas que vivem e trabalham no Estado. Músicos, escritores, atores, bailarinos, artesãos, artistas visuais, técnicos e produtores locais continuam disputando editais, espaços e apresentações por valores que pouco correspondem ao trabalho realizado.

Não se trata de defender reserva de mercado para artistas sul-mato-grossenses. Trata-se de perguntar qual é o retorno desses investimentos para a cultura local. Um artista nacional faz um espetáculo, recebe o cachê e vai embora. O artista daqui permanece. Produz, forma público, movimenta técnicos, músicos e produtores, preserva repertórios e ajuda a construir a identidade cultural do Estado. A discussão se torna ainda mais necessária diante da informação publicada pelo Campo Grande News, em reportagem da jornalista Fernanda Palheta, sobre R$ 4,5 milhões destinados pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul a eventos religiosos. O valor não prova, por si só, qualquer irregularidade. Mas é suficientemente expressivo para exigir transparência e debate sobre prioridades. A questão não é religião. É dinheiro público. Quanto desses recursos chega aos artistas locais? Quanto é destinado à formação? À circulação? À manutenção de grupos? À preservação do patrimônio? À profissionalização do setor?

Uma política cultural não pode ser medida apenas pelo número de eventos realizados ou pelo tamanho das plateias. Um show dura algumas horas. Política cultural precisa deixar legado. O risco é o Estado financiar o espetáculo e abandonar quem produz cultura permanentemente. Mato Grosso do Sul não precisa escolher entre artistas nacionais e locais. Precisa estabelecer prioridades e critérios claros. Porque quando o palco se torna mais importante que a produção cultural, a Fundação deixa de construir cultura e passa apenas a administrar eventos. E evento termina. Cultura permanece.

Fonte: por Alex Fraga

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