Fogo no Pantanal empurra onças para cidade e cães viram presas fáceis a animais famintos

Com a aproximação de onças-pintadas cada vez mais frequente em áreas habitadas do Pantanal, moradores temem a presença do maior felino das Américas. A reportagem entrevistou especialistas no assunto para entender por que o animal parece estar cada vez mais perto das pessoas.

Em Corumbá, uma onça-pintada ronda a mesma residência há um ano. Ela passou pelo local em maio do ano passado, voltou e matou uma cadela, na quarta-feira (22), retornando nesta quinta-feira (23), para pegar galinhas. O animal será capturado, deverá passar por exames e ser devolvido à natureza em outro local.

A resposta sobre essa aproximação não é simples, mas tem relação com as queimadas, que destroem o habitat natural das onças; com o fato de que animais domésticos, como cães e galinhas, são presas fáceis; e — principalmente — com a falta de educação ambiental e estrutura em locais que sempre viveram com onças por perto.

Humano é vingativo, onça é animal

Em maio de 2025, a onça invadiu a casa para predar animais, mas foi enxotado por duas cadelinhas. Agora, ela voltou, mas uma das cadelas foi devorada pelo felino. O fato de o animal ter retornado ao mesmo local não passou despercebido pelos internautas, que apontaram possível ‘vingança’.

A brincadeira das redes sociais é assunto sério para quem vive de estudar o comportamento das onças. “Esse tipo de motivação é humana, os animais tomam decisões baseadas em sobrevivência”, diz o pesquisador Diego Viana, especialista na coexistência entre onças e pessoas. “É uma humanização do comportamento animal”, completa o biólogo Gustavo Figueiroa, diretor na ONG (Organização Não Governamental) SOS Pantanal.

O retorno a um local geralmente está associado à presença de alimento fácil, como os cães, ou à familiaridade com o território. “Se voltam, é porque encontram algum benefício ali”, diz Gustavo. Além disso, a onça só volta se o local oferecer pouco risco e se aquele ponto já fizer parte da área que ela utiliza como seu território.

Habitat em chamas

Incêndio no Pantanal, em 2024. (Henrique Arakaki, Midiamax)

Diego Viana, que é pesquisador da Jaguarte, em Corumbá, diz que o aparecimento de onças não é novidade na cidade. Historicamente, elas se aproximam da população quando o Pantanal inunda, reduz áreas disponíveis, e, então, os animais saem em busca de regiões mais altas. No entanto, há outros fatores que intensificam essa movimentação.

Em 2020, 39,7 mil km² do Pantanal queimaram, no ano, com maiores incêndios no bioma. Em 2024, foram 27,1 mil km² em chamas. No ano passado, queimadas atingiram 2,4 km² do Pantanal. Quase 160 mil km² do bioma foram destruídos pelo fogo na última década, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

“Eventos extremos, como incêndios de grande escala, também podem provocar esse tipo de deslocamento, ao alterar a disponibilidade de abrigo e de presas no ambiente natural”, explica Diego Viana. Ou seja, não necessariamente a população de onças aumentou, mas elas passaram a visitar a cidade com mais frequência.

O biólogo Gustavo Figueiroa, diretor na ONG SOS Pantanal, concorda. “Cidades como Corumbá, por exemplo, estão dentro do Pantanal, uma área que já era território das onças antes mesmo da ocupação humana”, explica. Segundo ele, a aproximação desses animais já é esperada. “Muitas vezes, elas estão literalmente do outro lado do rio, basta atravessarem para já estarem na cidade.”

Cadeia alimentar desequilibrada?

Veado em meio às pastagens queimadas. (Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Conforme especialistas, não há evidências científicas suficientes para dizer que há desequilíbrio na cadeia alimentar. No entanto, é impossível desconsiderar que as queimadas dos últimos anos mataram animais que poderiam servir de alimento aos felinos. Só em 2020, os incêndios que destruíram cerca de 2,9 milhões de hectares do Pantanal sul-mato-grossense também mataram mais de 17 milhões de animais vertebrados.

Mesmo assim, ainda existem animais disponíveis às onças na natureza. “Câmeras-trap demonstram a presença de espécies silvestres que compõem a dieta natural da onça-pintada”, diz Diego Viana. Por outro lado, ele ressalta que é necessário realizar estudos mais amplos para tirar conclusões sobre a cadeia alimentar.

A presença de grandes predadores, como a onça-pintada, é um indicativo de que o ecossistema mantém a funcionalidade, segundo a médica-veterinária Arleni Mesquita Morínigo, gerente de Proteção e Bem-Estar Animal da Fundação de Meio Ambiente do Pantanal.

Arleni concorda que a aproximação pode ser mais justificada pelo deslocamento dos animais do que por desequilíbrios na cadeia alimentar. “Expansão urbana, redução de habitat natural ou diminuição de presas silvestres podem influenciar o comportamento desses animais, levando-os a explorar novas áreas”, explica.

Cães são presas fáceis

Se os animais silvestres são mortos pelo fogo e faltam na natureza, os animais domésticos sobram na cidade e têm mais dificuldade de se defender. Mesmo sem desequilíbrio de cadeia, as onças podem preferir presas mais fáceis. “[É] uma modificação da oferta de recursos gerada pela atividade humana”, explica Diego Viana. “Cães representam uma fonte alimentar de baixo risco e alta previsibilidade”, completa.

Esse comportamento é associado a fatores como a proximidade entre áreas urbanas e ambientes naturais, característica marcante do Pantanal. “Não se trata, necessariamente, de uma ‘invasão’, mas de uma sobreposição de territórios”, diz Arleni Mesquita Morínigo.

Para o biólogo Gustavo Figueiroa, o problema pode até ser específico de determinado animal. “Talvez esteja mais velho, debilitado, com dificuldade de caçar, ou tenha perdido o medo dos humanos, pode ter se acostumado a encontrar alimento fácil, como lixo ou animais domésticos“, explica o especialista. “Nós, humanos, estamos dentro do território desses animais, coexistimos no mesmo ambiente”, conclui.

Assim, o pesquisador da Jaguarte sugere medidas preventivas para reduzir o risco de conflitos. “Recomenda-se que a população mantenha animais domésticos em abrigos seguros durante o período noturno, evite deixá-los soltos e não pratique abandono”, orienta Diego Viana.

Medo, não; respeito!

Quando se fala em onça-pintada, a primeira imagem que vem à cabeça é a de um felino feroz. É difícil não ter medo ao ouvir o rugido do animal, som conhecido como esturro. Caso emblemático no Estado é o do caseiro Jorge Ávalo, de 60 anos, que morreu no Pantanal de Mato Grosso do Sul após ataque de onça em 2025.

No entanto, os especialistas destacam que a onça-pintada, naturalmente, evita o contato humano. “Importante é ter respeito e cautela, mas não pânico. Ataques a pessoas são extremamente raros”, diz Arleni Mesquita Morínigo, da Fundação de Meio Ambiente do Pantanal.

“Não se deve perder completamente o medo a ponto de achar que são animais inofensivos, elas são predadoras”, diz Gustavo Figueiroa, da SOS Pantanal. Ele completa que ataques a humanos são muito raros no Pantanal, apesar de serem mais comuns em países como a Índia ou no continente africano.

“O Pantanal apresenta uma situação relativamente tranquila. Mesmo com a presença da onça-pintada, os conflitos são poucos. Não é como se a pessoa fosse caminhar e ser atacada, as onças não têm o ser humano como parte da sua dieta”, diz Figueiroa. “O que é necessário é respeito e atenção“.

A orientação é evitar circular em áreas de risco em horários de maior atividade do animal, como o entardecer e a noite, nem deixar animais domésticos soltos — e deve-se sempre comunicar avistamentos aos órgãos competentes. Em caso de encontro, recomenda-se não correr, não virar de costas. Na maioria das vezes, o animal foge de gente.

Coexistência é o caminho

Diego Viana, que pesquisa meios de coexistência pacífica entre onças e humanos, é bisneto de Mané Brabo, um caçador de onças conhecido na região de Corumbá na década de 1960. Ele não abandonou o Pantanal, mas optou por mudar o fim da história das onças que cruzam o caminho desta família — agora, elas acabam vivas.

Diego Viana, pesquisador na Jaguarte. (Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

As cidades invadiram o habitat dos grandes felinos. Alterações humanas no meio ambiente, como queimadas e incêndios, destroem o território natural que sobrou e matam as presas. Tudo isso empurra as onças para as cidades. Se os humanos não vão sair de mudança, tampouco elas farão isso por si só.

O comportamento humano precisa mudar para afugentar as onças e proteger animais domésticos e pessoas de forma consciente. O primeiro passo é a educação. “As pessoas precisam de informação e apoio”, diz Gustavo Figueiroa. “Para quem vive nessas áreas, não é confortável dividir espaço com um predador, existe um medo legítimo. O poder público tem papel fundamental, oferecendo suporte para reduzir conflitos”, conclui.

Como isso é possível?

“A medida mais eficaz para reduzir a presença de onças em áreas urbanas é diminuir a atratividade do ambiente. Isso envolve manter animais domésticos protegidos, especialmente no período noturno; evitar deixá-los soltos em vias públicas; não abandoná-los, porque aumenta diretamente o risco de predação”, lista Diego.

Outras ações que tornam cidades menos atrativas às onças, segundo Diego Viana, são:

  • Descarte adequado de resíduos orgânicos;
  • Remoção de carcaças de animais;
  • Evitar alimentar fauna silvestre direta ou indiretamente (ceva).

Além disso, existem dispositivos que aumentam a percepção de risco pelas onças. Por exemplo, as luzes intermitentes (como Foxlights) ou cercas elétricas, principalmente se combinadas com outras medidas.

Também é necessário acompanhar a presença do animal para permitir decisões rápidas. O uso de câmeras-trap, comunicação entre instituições e comunidade e a realização de protocolos técnicos para captura e remoção são indicados para isso.

Fonte:MM

Related posts

Chikungunya avança em MS e já atinge 75 municípios

Governo de MS entrega Anel Viário em Bonito e anuncia pacote de obras

Evento em Campo Grande reúne profissionais da imprensa de todo o Estado