Flávio Bolsonaro (PL) recebe o apoio de Ronaldo Caiado (PSD) e conta com a articulação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), na disputa pelo segundo turno (Foto: Vittor Sales/ Campanha do PL)
O resultado do primeiro turno da eleição presidencial colocou as campanhas de Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante de desafios diferentes para a disputa final, marcada para 25 de outubro.
Enquanto o senador amplia sua frente de apoios, com partidos, governadores e lideranças que saíram fortalecidos das urnas, o petista tenta reorganizar sua base, recuperar terreno no Sudeste e mobilizar eleitores para buscar reverter o resultado.
Além da consolidação de apoios importantes nos últimos dias, as primeiras pesquisas divulgadas após o primeiro turno também mostram Flávio numericamente à frente de Lula. Os dados são referentes aos votos válidos, que excluem os votos brancos e nulos.
Segundo o Datafolha, divulgado na quinta-feira (8), o senador aparece com 52% dos votos válidos, contra 48% do presidente. No mesmo dia, o PoderData registrou vantagem de 53% a 47%. Já a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, desta sexta-feira (9), mostra Flávio com 52,8% dos votos válidos, ante 47,2% de Lula.
O desempenho nas pesquisas e a vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos obtida por Flávio no primeiro turno abriram espaço para que o senador construísse uma série de alianças nos últimos dias. Até o momento, partidos como PP, União Brasil, Republicanos e Podemos formalizaram aliança com o candidato do PL.
Além disso, Flávio recebeu o apoio individual de Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante), que disputaram o primeiro turno contra ele. Juntos, os três somaram mais de 6 milhões de votos no último domingo (4).
Em outra frente, a campanha do PL pretende transformar a força eleitoral de governadores e parlamentares aliados em mobilização nos estados. Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no primeiro turno, tem atuado diretamente nas negociações.
Já em Minas Gerais, Flávio conta com Cleitinho Azevedo (PL) e Nikolas Ferreira (PL), governador eleito e o deputado federal campeão de votos nesta eleição, respectivamente. Em Goiás, a adesão de Caiado abre espaço para uma atuação mais intensa do governador Daniel Vilela (MDB).
“Acho que se exauriu essa era do PT. É um governo que não consegue entregar, que não tem eficiência, que é inerte aos problemas da vida moderna”, afirmou o emedebista ao jornal O Popular.
Para ampliar a margem de votação, a orientação dentro do PL é manter as bandeiras de segurança pública e antipetismo, mas dar mais espaço a temas econômicos, especialmente preços e poder de compra. A ofensiva da campanha, com isso, tenta atrair os chamados eleitores pendulares e que poderiam votar tanto em Flávio quanto em Lula até o próximo dia 25.
“No meu governo vai ter estabilidade, ter paz para todo mundo trabalhar, vai ter segurança jurídica, vai ter respeito à Constituição, vai ser o normal. O Brasil tem que voltar ao normal, apenas isso”, disse Flávio após reunião com aliados em Brasília nesta quarta-feira (7).
Flávio aposta em viagens com Tarcísio e foco no Nordeste e Sudeste
Uma das estratégias desenhadas pela cúpula do PL envolve a participação direta do governador Tarcísio de Freitas em diversas viagens pelo país. A prioridade é combinar a preservação da vantagem obtida em regiões como Sudeste, Sul e Centro-Oeste com uma ofensiva para reduzir a diferença para Lula no Nordeste.
A campanha também pretende reforçar a atuação em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país e um dos estados em que Flávio conseguiu reverter o resultado de 2022. Para isso, o candidato pretende cumprir agendas ao lado do governador eleito Cleitinho e com Nikolas Ferreira, que recebeu mais de 3 milhões de votos para deputado federal.
No Nordeste, Lula venceu nos nove estados da região, mas Flávio aumentou a votação em relação ao desempenho de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022. Diante disso, a campanha vai tentar reduzir a margem do petista nos estados mais populosos.
Integrantes do PL ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que uma diferença menor no Nordeste pode compensar parte dos eventuais ganhos que Lula busca no Sudeste.
No primeiro turno, o coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho (PL), e o seu candidato a vice-presidente, Alfredo Gaspar (PL), circularam pelo Nordeste, enquanto o próprio Flávio concentrou sua agenda no Sudeste. Agora, a equipe pretende intensificar as agendas próprias e mobilizar lideranças locais.
“Recebemos um apoio muito importante, que foi o apoio do ACM Neto e seu grupo político. Isso vai fazer uma diferença muito grande na Bahia. Nós vamos conquistar na Bahia algo em torno de 1 milhão de votos a mais do que já conquistamos agora. ACM Neto vai entrar com seu grupo político de cabeça nessa eleição”, disse Gaspar.
ACM Neto, do União Brasil, era candidato ao governo da Bahia e foi derrotado pelo governador reeleito Jerônimo Rodrigues (PT). No primeiro turno, Lula teve 66% dos votos válidos no estado, ante 28,5% de Flávio.
Michelle pode ter papel estratégico na campanha de Flávio
A campanha do PL avalia ainda retomar caravanas voltadas ao eleitorado feminino, em uma tentativa de ampliar o alcance para além do eleitorado mais identificado com o bolsonarismo. Para isso, integrantes do QG de Flávio ouvidos pela reportagem afirmam que trabalham pela participação da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) nesta fase.
Eleita senadora pelo Distrito Federal, Michelle escolheu o Amazonas como destino da primeira viagem deste segundo turno, onde pretende apoiar a candidatura de Professora Maria do Carmo (PL) ao governo do estado. A agenda pode incluir uma participação conjunta com Flávio, em uma região onde a disputa presidencial foi apertada no primeiro turno.
A presença de Michelle é tratada pela campanha como uma forma de ampliar o diálogo com segmentos nos quais Flávio ainda busca espaço, principalmente mulheres e evangélicos. A ex-primeira-dama terminou a eleição para o Senado como a candidata mais votada do DF, com mais de 930 mil votos.
Antes do início da campanha, já havia sido planejada a participação dela em viagens pelo Norte e Nordeste ao lado de Flávio, mas a candidatura ao Senado acabou concentrando sua atuação no primeiro turno.
Com campanha “desorganizada”, Lula tenta recuperação no Sudeste
Na contramão da campanha de Flávio, Lula entra no segundo turno revisando não apenas as áreas onde precisa recuperar votos, mas também a forma como pretende se comunicar com o eleitorado. O próprio presidente reconheceu que esta disputa foi a “mais desorganizada de sua trajetória eleitoral desde 1989”.
No discurso após o resultado, Lula reconheceu que o primeiro turno não saiu como esperava, mas disse estar preparado para a nova etapa da disputa. “O resultado muitas vezes é inesperado”, afirmou.
Em seguida, resumiu a expectativa para o segundo turno: “Eu sou muito bom no mata-mata. No tête-à-tête. Aí, nós vamos ver quais são os projetos que o país tem”.
O mapa do primeiro turno colocou o Sudeste no centro da operação de recuperação petista. Lula perdeu força na região e viu Flávio virar Minas Gerais.
No estado, onde Lula havia vencido Jair Bolsonaro em 2022, o candidato do PL terminou com 48%, contra 43% do petista, uma diferença de quase 590 mil votos. Lula também perdeu mais de 619 mil votos em relação ao primeiro turno de quatro anos atrás.
Para tentar uma virada inédita, a campanha do PT pretende concentrar esforços em Belo Horizonte, na Região Metropolitana e em áreas onde Lula teve um desempenho melhor em 2022. São Paulo também está no centro da estratégia.
“O objetivo é diminuir a diferença em São Paulo e Minas, aumentar a votação no Ceará, Maranhão, Pernambuco e Bahia. São estados que podem aumentar 2%, 3%, 4%”, explicou o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães (PT).
No Nordeste, apesar da vitória nos nove estados da região, Lula viu a sua margem diminuir em relação a 2022. Ao todo, Flávio recebeu 10,4 milhões de votos na região, 1,6 milhão a mais do que Jair Bolsonaro havia obtido no primeiro turno de quatro anos atrás.
Campanha do PT tenta emplacar “selfie de Lula” e participação de influenciadores da esquerda
Durante reunião com integrantes do PT na quarta-feira (7), o presidente voltou a afirmar que esperava vencer o primeiro turno diante do que havia feito no governo, mas percebeu que parte da população não compreendeu os avanços que, na avaliação dele, foram alcançados.
O próprio Lula relatou que aliados têm recomendado uma presença maior nas redes sociais, inclusive com vídeos em formato de selfie. A reformulação da comunicação envolve parlamentares eleitos com forte atuação digital. A lista inclui deputados como André Janones (Rede), Ana Elisa (PT) e Pedro Rousseff (PT).
Janones, inclusive, foi responsável pela criação de um grupo no WhatsApp, o “Exército do Lula”, com tarefas destinadas a apoiadores para ampliar o alcance da campanha. Ana Elisa, deputada federal eleita aos 21 anos e com atuação concentrada nas redes sociais, também participou das discussões.
“Estamos fazendo uma construção de comunicação para o presidente Lula, com a equipe de comunicação dele. Todo mundo se mostrou muito aberto às minhas ideias, por entender que a minha votação foi muito expressiva pelas redes sociais”, afirmou Ana Elisa.
Segundo ela, o resultado da eleição mostrou à esquerda que “a rede social elege”. A participação de Lula nas próprias redes também passou a ser tratada como prioridade.
Orientado pelo governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, o presidente já gravou vídeo em formato de selfie convocando apoiadores contra o que chamou de “retrocesso”.
Conforme apurou a reportagem, a campanha pretende ampliar esse tipo de conteúdo e envolver outras lideranças com presença digital. Entre as pautas incorporadas à disputa está o fim da escala 6×1.
A PEC 221/2019 propõe reduzir a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e prevê dois dias de descanso, sem redução salarial. Lula passou a usar as redes para cobrar de Flávio uma posição sobre a proposta e questionar como o senador pretende orientar o PL na votação.
Fonte: GazetaDoPovo, por Wesley Oliveira