O cartão-postal do ecoturismo brasileiro virou, aos poucos, um destino de “vitrine” para parte dos próprios sul-mato-grossenses. Quem mora em Mato Grosso do Sul ainda enche o tanque e pega a estrada rumo a Bonito, mas a cada temporada cresce a sensação de afastamento: o roteiro que nasceu como orgulho regional vem ficando caro demais para o bolso local e mais confortável para quem chega com moeda forte e pacote fechado.
A conta começa nos atrativos. Tabelas de agências mostram passeios que, mesmo fora do pico, já romperam a barreira dos “duzentos e pouco”. Flutuações e atividades mais disputadas aparecem com frequência entre R$ 300 e R$ 500 por pessoa, variando conforme a temporada. Experiências tradicionais, como as flutuações em rios cristalinos, empurram o destino para um padrão de consumo elevado.
Para quem é de fora, o valor pode soar como preço de uma experiência premium. Para quem é daqui, especialmente famílias que dependem de férias e feriados, o custo funciona como filtro. Uma família de quatro pessoas, escolhendo dois passeios de média procura, ultrapassa facilmente R$ 2 mil apenas em atrativos, sem contar alimentação, deslocamentos, fotos e equipamentos.
O encarecimento não é impressão. Dados da Embratur mostram que o ticket médio dos passeios em Bonito subiu 14,3% entre dezembro de 2022 e dezembro de 2023. Agora, soma-se a Taxa de Conservação Ambiental, de R$ 15 por pessoa ao dia, implantada pela prefeitura, o que amplia o custo final da viagem, sobretudo para quem permanece mais tempo.
O resultado é um destino cada vez mais selecionado pelo orçamento. Turistas estrangeiros sentem menos o impacto, favorecidos pela conversão cambial e pelo planejamento antecipado. Já o sul-mato-grossense que viaja no impulso encontra mais barreiras.
Bonito segue crescendo em visitação e fluxo aéreo, mas o avanço levanta uma questão incômoda: o destino virou produto de exportação. O MS exibe, o mundo consome, e o morador local faz contas. A discussão não é baratear tudo, mas criar mecanismos de inclusão regional. Ignorar isso é aceitar um destino cada vez mais visitado e cada vez menos vivido por quem mora no Estado.
Fonte: OSulMatogrossense