Lincoln Oliveira, CEO do Grupo Veloci, contou como investiu pesado na carreira do filho Gabriel Bortoleto, hoje na Fórmula 1, e transformou a Stock Car em uma máquina de R$ 230 milhões em receita
Quando a Stock Car lançou seu carro de nova geração em 2025, a aposta era inovadora: um motor 4 cilindros turbo, mais potente que o lendário V8 que há décadas rugia nas pistas brasileiras. A ideia era acompanhar a indústria e demonstrar modernidade. Um ano depois, o motor turbo estava aposentado. E o preço desse aprendizado foi de pelo menos R$ 15 milhões.
“Foi um erro. Gastamos tempo e recurso expressivo em um motor que o V8 atendia muito bem. Mas foi uma tentativa. Pra mim, isso se chama preço do aprendizado”, declarou Lincoln Oliveira, CEO do Grupo Veloci, holding que controla a Stock Car, em entrevista ao InfoMoney Entrevista.
Em 2025, a Stock Car Pro Series, que é a maior categoria de automobilismo brasileiro, promoveu a troca dos modelos de carros da competição, do tradicional Sedan para um novo SUV, que veio acompanhada da substituição do tradicional motor V8 aspirado para uma unidade com 4 cilindros em linha turbo.
Para além dos gastos que as equipes tiveram com a adaptação, de cerca de R$ 200 mil por carro, para encaixar o novo motor, a Audace, empresa de engenharia do Grupo Veloci, havia desembolsado R$ 15 milhões no seu desenvolvimento e compra. Mas, apesar das cifras, a sensibilidade até o som do novo motor não agradaram equipes e pilotos, que bombardearam a Stock Car de reclamações. E o grupo teve que voltar atrás.
“Foi bastante dinheiro, tempo e muita chateação por parte de equipes e pilotos. Mas houve um lado bom. Você não mede a qualidade de uma companhia quando está tudo bem, mas sim com base na resposta dela a um problema. Já no ano seguinte voltamos ao V8. Resolvemos o problema”, disse.
Pai de piloto x dono da corrida
A trajetória de Oliveira até o comando da Stock Car é incomum. Ele não veio do automobilismo tradicional, mas do mundo corporativo. Mais especificamente das telecomunicações, um setor regulado e “nervoso”, como Oliveira descreve. A entrada no automobilismo começou de forma amadora e indireta: como pai. O filho mais velho, Enzo, começou no kart aos 6 anos. O caçula, Gabriel Bortoleto, seguiu o mesmo caminho – e hoje é piloto de Fórmula 1 pela equipe Audi.
“Se houvesse um CFO olhando o investimento em um futuro piloto, ele falaria: ‘de jeito nenhum’. Não há segurança nenhuma no retorno”, diz Oliveira.
O investimento mais emblemático feito na carreira do filho foi no primeiro ano de Gabriel na Fórmula 4 europeia: 700 mil euros, em pleno 2021, para o jovem piloto competir em uma temporada que Oliveira considera um desperdício. “O companheiro de equipe era o filho do Montoya. O Gabriel treinava bem, mas na corrida o carro não andava. A gente não tinha acesso à telemetria. Foi um desastre”.
Se Oliveira já foi o pai que colocava a mão no bolso, hoje ele é o CEO da empresa que recebe o dinheiro dos pais que estão tentando lançar os filhos, e cobra US$ 230 mil para um jovem correr uma temporada completa na F4 Brasil.
“Na Europa, o mesmo carro sai por 700 mil euros. Eu criei a F4 para que nenhum piloto e nenhum pai passe pelo que eu passei. Ele faz um ou dois anos aqui, paga metade do preço, e vai para a Europa com muito mais treinamento e capacidade”, afirma.
‘Não vendo corrida’
O executivo também compartilhou o sucesso de patrocínio da competição. Segundo ele, quando o Grupo Veloci comprou a Vicar, promotora da Stock Car, em 2020, a categoria tinha oito patrocinadores. Hoje são quase 30. A receita projetada para 2026 é de R$ 230 milhões, e a meta é mais que dobrar esse número em até três anos.
“Eu não vendo corrida. Vendo experiência, branding, conexão entre executivos”, afirma. O modelo, segundo ele, é inspirado na prática da Fórmula 1. Nesse sentido, a Stock Car criou um ambiente onde empresas se encontram, fecham negócios e usam o esporte como pano de fundo para relacionamento B2B.
“A gente prepara jantares no sábado à noite para apresentar executivos uns aos outros. Somos uma ferramenta para que essas empresas possam criar algo diferente para os seus clientes.”
O investimento mínimo para uma cota de patrocínio na Stock Car hoje é de R$ 2 milhões. E, segundo Oliveira, estão praticamente esgotadas. Além disso, dos 52 camarotes disponíveis em São Paulo, restam apenas três e somente para a etapa de dezembro.
Fonte: InfoMoney, por Maria Luiza Dourado