Áudios obtidos pela investigação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) revelaram a preocupação do ex-vice-presidente da Santa Casa, Jary de Carvalho Castro, em realizar os pagamentos para a empresa Redvalue Tecnologia, de Maurício Aparecido Benites.
Na sexta-feira (11), o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) deflagrou a Operação Antidotum, que revelou esquema de desvio milionário no hospital, através da contratação de empresas ‘parceiras’.
Nos áudios, Jary começa dizendo a Maurício que “não me esqueci de você não” e se justifica ao empresário sobre um possível atraso no repasse dos valores: “Estamos tentando achar solução para o mês que vem e o outro“.
E continua se explicando: “Vou ver com o Rinaldo [diretor financeiro] como é que a gente faz para pagar uma parte para você, tá? Não tem como pagar R$ 1 milhão e 800 em cash porque eu tô com a fiscalização em cima“, justifica-se, prometendo: “nós vamos fazer das tripas coração e pagar algumas partes pra você“.
Na ocasião, foram presos Maurício Benites, a presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, os diretores do hospital, Rinaldo Hakme Romano (diretor financeiro do hospital), Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa (diretor financeiro adjunto), Alessandro Dias Junqueira (diretor administrativo) e a supervisora do setor de prontuário, Monique Gregório.
Jary renunciou ao cargo em janeiro de 2026. Apesar de não ter sido preso, ele é investigado.
Confira abaixo o áudio:
A defesa de Maurício, representada pelo advogado Fábio Leandro, disse que irá provar no processo que a prestação de serviço foi feita regularmente: “Maurício não praticou nenhuma ilegalidade, a contratação foi lícita, a prestação de serviço estava sendo feita regularmente com números muito superiores aos apontados pelo Ministério Público e que juntaremos ao processo toda a documentação comprobatória”.
A reportagem tentou contato com Jary de Castro por ligação e mensagens, mas não obtivemos retorno. O espaço segue aberto e o texto será atualizado assim que houver posicionamento.
‘A caneta está com a gente’, disse Jary
Em outro áudio apontado pela investigação, Jary tranquilizou o empresário Maurício sobre a resistência técnica de funcionários do hospital em relação a um dos sistemas contratados, dizendo que “a caneta está com a gente”.
“A expressão utilizada por JARY CASTRO sintetiza o funcionamento e o poder da organização criminosa no âmbito da Santa Casa, uma vez que eventuais resistências técnicas internas não representavam obstáculo porque o poder decisório permanecia concentrado no grupo que comandava a instituição. O diálogo demonstra domínio sobre a estrutura administrativa e segurança de que as decisões necessárias à contratação seriam impostas internamente, independentemente da oposição dos setores técnicos”, destacou o MPMS.
O processo de contratação investigado envolve a empresa Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços. O contrato previa o pagamento mensal de R$ 150.000,00 para a digitalização de prontuários médicos.
De acordo com a investigação, o comitê também aprovou um termo aditivo que reduziu o volume de serviços exigidos da empresa sem diminuir o valor da remuneração, liberando uma programação financeira de R$ 750.000,00 à contratada.
As apurações indicam que Maurício Benites operava um núcleo empresarial formado pela Redvalue, Exbe e Infortech. O MPMS relata que essas empresas não possuíam atuação independente e compartilhavam direção, estrutura, recursos e empregados para simular concorrência e receber os valores dos contratos.
Fonte:MM