O jornalista Alex Fraga, em seu blog, tece considerações a respeito da programação da 25ª edição do festival
Há editais que apenas organizam uma seleção pública. Outros revelam, mesmo sem intenção, a visão que um governo tem sobre a cultura que administra. O chamamento para selecionar artistas sul-mato-grossenses para o Festival de Inverno de Bonito pertence à segunda categoria. Seu maior problema não está na quantidade de vagas ou nos valores oferecidos, mas na concepção de cultura que sustenta suas escolhas.
Ao restringir as inscrições às categorias Sertanejo e suas Vertentes, MPB/Samba, Forró e suas Vertentes e Pagode/Samba, o edital produz um efeito simbólico preocupante: transforma em exceção justamente a música que tornou Mato Grosso do Sul reconhecido no cenário nacional.
A pergunta surge imediatamente. Onde estão o chamamé, a pura música regional, a guarânia, a polca paraguaia, o rasqueado, a música pantaneira e toda a tradição fronteiriça que distingue o Estado do restante do país? Como um festival concebido para representar a produção cultural sul-mato-grossense consegue elaborar um regulamento que praticamente invisibiliza sua principal identidade musical?
Não se trata de defender a exclusividade da música regional nem de negar espaço aos demais gêneros. A diversidade é desejável. O problema é outro: a diversidade desaparece quando justamente a expressão cultural mais característica do território deixa de existir como categoria própria. Nesse caso, não há ampliação de repertório; há padronização.
É difícil aceitar a justificativa de que as categorias apenas organizam estilos musicais. Na prática, elas induzem os artistas locais a se enquadrarem em gêneros de maior circulação comercial, aproximando a seleção das atrações nacionais que tradicionalmente ocupam a atração principal. A mensagem implícita é desconfortável: para participar do principal festival do Estado, talvez seja necessário soar menos sul-mato-grossense.
A contradição se torna ainda maior quando se observa a história da música produzida em Mato Grosso do Sul. O Estado construiu uma linguagem artística singular, fruto da convivência entre Brasil, Paraguai e Bolívia, das influências indígenas, pantaneiras e fronteiriças. Uma sonoridade que jamais pretendeu reproduzir o eixo Rio-São Paulo, mas afirmar uma identidade própria.
Foi essa identidade que projetou nomes como Geraldo Espíndola, Paulo Simões, Almir Sater, Tetê Espíndola, Guilherme Rondon, Celito Espíndola, Carlos Colman, Gilson Espíndola, Alzira E, Grupo Acaba, Aurélio Miranda, Dino Rocha, Maria Cláudia & Marcos Mendes, Tostão & Guarany, Beth & Betinha, Délio & Delinha, Castelo e tantos outros. Nenhum deles conquistou reconhecimento nacional abrindo mão da música regional. Ao contrário: foram justamente suas raízes que lhes deram relevância artística.
É por isso que o edital causa estranhamento. O Festival de Inverno de Bonito sempre foi apresentado como uma vitrine da cultura sul-mato-grossense. No entanto, o documento que deveria fortalecer essa vocação parece tratá-la como um detalhe secundário.
Nem é necessário retomar um debate antigo sobre os cachês, historicamente desiguais entre artistas locais e atrações nacionais. Essa discussão permanece aberta há anos. O problema agora é mais profundo. O que está em questão é o papel do próprio Estado como formulador de políticas culturais.
Uma política pública não existe apenas para contratar shows. Ela também estabelece prioridades, define símbolos e comunica quais manifestações considera estratégicas para preservar e desenvolver. Quando um edital ignora a principal tradição musical do Estado, não realiza apenas uma escolha administrativa; produz um gesto político e cultural.
A situação torna-se ainda mais simbólica diante das mudanças recentes do próprio Festival de Inverno de Bonito. Realizado tradicionalmente em outro período do calendário, o evento passou a ocupar o mês de agosto, dando a impressão de funcionar mais como um rearranjo de datas do que como resultado de uma política cultural consistente. Soma-se a isso o esvaziamento progressivo de outros eventos que já tiveram papel decisivo na valorização da identidade regional, como o Festival América do Sul.
Enquanto diversos estados transformam suas manifestações culturais em patrimônio, fortalecem seus artistas e utilizam essa produção como elemento de promoção turística e afirmação identitária, Mato Grosso do Sul parece seguir caminho inverso. Em vez de projetar aquilo que possui de mais singular, aproxima sua programação de um modelo genérico que poderia ser reproduzido em praticamente qualquer lugar do país.
O risco dessa lógica vai além de um único edital. Quando a música regional deixa de ocupar os grandes festivais públicos, perde visibilidade, circulação, formação de público e renovação de artistas. Aos poucos, deixa de ser entendida como produção contemporânea e passa a ser tratada apenas como patrimônio folclórico, destinado a ocasiões específicas, quando, na realidade, continua sendo uma das expressões culturais mais vivas do Estado.
No fim, permanece uma questão que nenhum regulamento consegue responder: se o principal festival promovido pelo Governo de Mato Grosso do Sul não considera a música regional como prioridade, quem assumirá essa responsabilidade? Porque a identidade cultural de um povo não desaparece de uma vez. Ela vai sendo apagada, edital após edital, até que reste apenas a lembrança daquilo que um dia fez aquele lugar ser diferente de todos os outros.
Fonte: Alex Fraga