Após receber cerca de R$ 100 bilhões em investimentos na expansão da indústria de celulose, Mato Grosso do Sul se prepara para avançar mais uma etapa na cadeia produtiva da madeira. O Estado articula a instalação de uma megafábrica de papel, empreendimento que deve ser anunciado em 2027 e que poderá transformar parte da celulose produzida localmente em produtos de maior valor agregado.
A iniciativa representa uma mudança estratégica para o Vale da Celulose, que consolidou sua posição entre os principais polos mundiais de produção e exportação da matéria-prima, mas ainda depende do processamento realizado em outras regiões para atender parte do mercado de papel.
A expectativa é de que a nova unidade amplie a industrialização dentro do Estado e diversifique a atividade, hoje concentrada na produção de celulose.
“Nós temos um trabalho já praticamente construído de produzir o papel aqui. Está pronto, está no forno. Eu acredito que no ano que vem ele vem para a prática. Faz parte de um alinhamento direto com as papeleiras”, afirmou ao Correio do Estado o presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems), Sérgio Longen.
Segundo o dirigente, as negociações envolvem empresas do setor e estão em fase avançada. A proposta é de aproveitar a estrutura industrial e a disponibilidade de matéria-prima já estabelecidas para atrair uma unidade de fabricação de papel, fechando parte da cadeia produtiva do eucalipto em território sul-mato-grossense.
A movimentação ocorre em um momento de expansão da indústria brasileira de árvores cultivadas. O setor prevê R$ 105 bilhões em investimentos até 2028, destinados a novas fábricas, modernização de unidades, manejo florestal e infraestrutura logística.
Mais de R$ 70 bilhões desse montante foram anunciados para Mato Grosso do Sul, conforme levantamento divulgado anteriormente pela Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ).
O volume de recursos já transformou a estrutura produtiva estadual. Com a entrada em operação do Projeto Cerrado, da Suzano, em Ribas do Rio Pardo, a capacidade instalada de produção de celulose no Estado chegou a 7,4 milhões de toneladas anuais. A expansão deve continuar com a construção da fábrica da Arauco, em Inocência, e o avanço do projeto da Bracell, em Bataguassu.
A fábrica da Arauco tem investimento de US$ 4,6 bilhões e capacidade prevista de 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano. A entrada em operação está prevista para o segundo semestre de 2027. Já o projeto da Bracell, em fase de licenciamento, prevê capacidade de 2,9 milhões de toneladas anuais.
A perspectiva de novos investimentos amplia a importância de agregar valor à produção. Em vez de concentrar a atividade na fabricação e na exportação da celulose, a instalação de uma indústria de papel permitiria que parte do processamento ocorresse no Estado, com potencial de estimular fornecedores, serviços e novos postos de trabalho.
CADEIA PRODUTIVA
O avanço para a fabricação de papel ocorre em paralelo ao crescimento da base florestal. Mato Grosso do Sul já reúne cerca de 2 milhões de hectares de florestas plantadas, área quase seis vezes superior à registrada em 2010, quando o Estado tinha pouco mais de 340 mil hectares.
Em entrevista publicada pelo Correio do Estado no sábado, o presidente da Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas (Reflore-MS), Júnior Ramires, afirmou que a expansão das novas fábricas deve sustentar o crescimento da atividade florestal nos próximos anos.
O governo estadual trabalha com a perspectiva de alcançar 2,5 milhões de hectares de florestas plantadas. A região leste concentra o avanço, especialmente nos municípios de Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Água Clara, Selvíria, Brasilândia, Inocência, Bataguassu e Santa Rita do Pardo.
De acordo com Ramires, os projetos da Arauco e da Bracell devem exigir, juntos, entre 700 mil hectares e 900 mil hectares de florestas em produção, considerando áreas já existentes e novos plantios.
A demanda por madeira também deve crescer significativamente. Atualmente, o conjunto de atividades florestais do Estado, incluindo celulose, siderurgia a carvão vegetal, painéis e biomassa, consome cerca de 35 milhões de metros cúbicos de madeira por ano. Somente os dois novos projetos de celulose devem acrescentar mais de 20 milhões de metros cúbicos anuais à demanda.
“Esse crescimento abre espaço para produtores independentes e investidores, mas depende de demanda internacional firme e de infraestrutura para levar a madeira até a fábrica e a celulose até o porto”, avaliou o presidente da Reflore-MS.
A expansão da cadeia também abre oportunidades para novos mercados. As usinas de etanol de milho, por exemplo, passaram a utilizar cavacos de eucalipto como fonte de energia nas caldeiras, ampliando a procura por madeira e diversificando os compradores.
A instalação de uma megafábrica de papel pode representar mais uma frente de demanda para a produção florestal e industrial, sobretudo se o empreendimento conseguir aproveitar a estrutura já existente de fornecimento de celulose.
DESAFIOS
Apesar das perspectivas de crescimento, a expansão industrial exige superar gargalos que podem comprometer a competitividade do setor. Entre os principais desafios estão a infraestrutura logística, a disponibilidade de mão de obra e os custos de produção.
Segundo Ramires, o transporte representa uma das parcelas mais pesadas do custo da madeira entregue às fábricas. A valorização das terras próximas às indústrias tem levado os plantios a avançarem para áreas mais distantes, aumentando o custo do frete. “O limite, portanto, não é territorial, o que existe é um limite econômico local”, afirmou.
O dirigente também apontou que rodovias e ferrovias não acompanharam o crescimento da produção de madeira e celulose. Além da infraestrutura de transporte, os municípios precisam ampliar a oferta de moradia, saúde, educação e serviços para receber os trabalhadores que chegam com os novos empreendimentos.
A mão de obra é outro desafio. Longen estima que o setor industrial de MS tenha ao menos 27 mil vagas não preenchidas, com prejuízo anual superior a R$ 20 bilhões em produção e tributos não arrecadados.
Para reduzir o problema, empresas como Suzano e Arauco adotaram programas de qualificação profissional em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Os trabalhadores recebem bolsa equivalente a um salário mínimo durante o período de formação, antes da contratação.
A Fiems também pretende ampliar a inclusão de beneficiários de programas sociais no mercado formal, com apoio educacional do Serviço Social da Indústria (Sesi) e manutenção dos benefícios governamentais por até 12 meses durante a transição para o emprego. A qualificação será especialmente importante diante da expansão das fábricas e da mecanização das atividades florestais. (Colaborou com Eduardo Miranda)
Fonte:Correiodoestado