Casimiro quebrou o YouTube e mudou o mercado de mídia esportiva para sempre

Foram 12,7 milhões de dispositivos simultâneos num empate; o número que mostra muito mais que futebol

O maior conglomerado de mídia transmite Copa do Mundo no Brasil desde 1970. Construiu gerações de narradores, criou rituais de audiência, transformou o jogo em produto televisivo com uma consistência que nenhuma outra emissora do País chegou perto de replicar.

Na última quinta-feira, 11, pela primeira vez em décadas, não foi ela que dominou a conversa sobre a estreia do torneio no Brasil. Foi um canal do YouTube fundado por um streamer de 28 anos que começou transmitindo jogos de videogame. A transmissão do empate em 1 a 1 entre Brasil e Marrocos pela CazéTV registrou pico de 12,7 milhões de aparelhos conectados simultaneamente no YouTube, o maior número já registrado por uma transmissão de futebol na plataforma em todo o mundo.

Doze vírgula sete milhões. Num empate. Num sábado. Em gratuito. O mercado de mídia esportiva brasileiro mudou de endereço, e a mudança foi confirmada com um recorde que não deixa margem para interpretação.

Lembro-me de que, em 2015, eu fazia parte do maior programa de empreendedorismo do mundo na TV. Eu já era do ambiente de tecnologia e sugeri que ele fosse transmitido no YouTube também e assim tivesse mais um canal de exibição. Era uma estratégia clara para navegar em um outro perfil de espectadores.

A resposta foi um severo não, porque, segundo eles, dividiria a audiência da TV. Agora, 11 anos depois, o programa tem uma visibilidade imensa graças ao YouTube e, pasmem, com um baita empurrão do próprio Cazé.

O número de sábado não nasceu no sábado. A CazéTV existe desde 2019, quando Casimiro Miguel resolveu criar conteúdo em suas próprias redes. Foi em 2022 que o canal saiu do nicho com a transmissão de jogos da Copa do Mundo. Em 2024, cobriu as Olimpíadas de Paris com expertise nativa digital que os canais tradicionais não tinham.

Em 2025, transmitiu a Copa do Mundo de Clubes. Cada evento foi maior que o anterior. Cada evento foi testado, aprendido e corrigido antes do seguinte. A Fifa ficou tão satisfeita com os resultados que confirmou a parceria para 2026, com direitos de todos os 104 jogos.

Não foi decisão sentimental. Foi decisão comercial baseada em dados que a própria Copa de Clubes havia gerado. Quando o YouTube entrega resultado que a televisão não entrega, o próximo contrato vai para onde o resultado estava.

Essa trajetória não é ascensão meteórica. É construção sistemática de capacidade, ativo por ativo, evento por evento, até chegar no maior torneio do planeta com credencial técnica e audiência instalada que nenhuma emissora tradicional construiu dessa forma. Isso é ótimo para quem acha que, ao abrir um negócio, você vai ter um resultado da noite para o dia.

O feito o colocou acima de transmissões históricas do YouTube, incluindo eventos fora do esporte. Esse dado não é curiosidade de trivia. É o mapa mais preciso de onde está a atenção do público jovem global em 2026. Não no cabo. Não no satélite. No telefone que está sempre no bolso, na plataforma que não cobra assinatura e no formato que permite comentar, reagir e compartilhar no mesmo gesto.

Lembro de uma conversa com o diretor de marketing de uma empresa de bens de consumo que me perguntou, no início deste ano, se deveria distribuir verba de Copa entre TV aberta e digital ou concentrar em um dos dois. A resposta que eu dei então e que os números de sábado confirmam é que a pergunta estava errada. Não é TV aberta versus digital, mas qual plataforma o seu cliente específico está usando para assistir ao jogo?

O que foi feito com a Copa do Mundo em quatro anos é o manual mais preciso de como um produto digital desafia um incumbente sem precisar derrubá-lo. Não competiu frontalmente. Escolheu o território que a Globo não dominava, o digital nativo, e foi construindo presença, credibilidade e audiência nesse território até o momento em que o maior evento do planeta chegou e o território que ele havia construído era exatamente onde a audiência mais jovem queria estar.

O recorde de 12,7 milhões de dispositivos simultâneos não foi resultado de um dia. Foi resultado de uma decisão tomada em 2019 de construir no lugar certo antes de todo mundo entender que era o lugar certo.

Fonte: por Camila Farani, Investidora, presidente da G2 Capital e CEO da FEN educação para negócios

Related posts

Empresas de MS adotam protocolos rigorosos para garantir segurança em esportes de aventura

Jogos de hoje da Copa: veja agenda completa desta quarta-feira e onde assistir às partidas

Messi destrói Argélia, e Argentina vence em noite de recorde para camisa 10