Bonito 78 anos, o paraíso do ecoturismo diante dos desafios de uma cidade que cresceu

Referência internacional em turismo de natureza, Bonito comemora 78 anos com o desafio de conciliar preservação ambiental, crescimento urbano e infraestrutura capaz de atender moradores e visitantes

Bonito chega aos 78 anos nesta sexta-feira, 2 de outubro, carregando uma das marcas mais fortes de Mato Grosso do Sul: a de ser um dos principais destinos de ecoturismo do Brasil. Rios de águas cristalinas, nascentes, grutas, cachoeiras e uma biodiversidade que atrai visitantes de diferentes partes do país e do mundo fizeram do município uma referência quando o assunto é turismo sustentável.

Mas existe um outro Bonito, menos conhecido por quem chega para passar alguns dias.
É o Bonito de ruas que ainda precisam de melhorias, problemas de drenagem, mobilidade urbana, calçadas e acessibilidade insuficientes em diferentes áreas, pressão sobre os serviços públicos e uma infraestrutura que precisa acompanhar o crescimento da atividade turística e da própria população.

A contradição é evidente: uma cidade reconhecida mundialmente pela qualidade de seu patrimônio natural precisa garantir que sua estrutura urbana esteja à altura desse patrimônio.

O sucesso que trouxe novos desafios
O crescimento do turismo transformou a economia local. Hotéis, pousadas, restaurantes, agências de turismo, atrativos, transportadoras, comércio e uma ampla cadeia de serviços passaram a depender direta ou indiretamente da movimentação turística.

Esse crescimento trouxe empregos, renda e visibilidade. Mas também aumentou a pressão sobre a infraestrutura.

Mais visitantes significam maior circulação de veículos, maior consumo de água, maior geração de resíduos, maior demanda por saneamento, mais utilização dos espaços públicos e necessidade permanente de manutenção das vias e equipamentos urbanos.

O problema aparece quando a expansão econômica acontece em ritmo mais rápido que a capacidade de planejamento e investimento público.

Bonito não pode continuar pensando sua infraestrutura apenas como uma questão urbana. Em uma cidade cuja economia depende diretamente da natureza, infraestrutura também é política ambiental.

O paradoxo das águas cristalinas
Talvez nenhum outro aspecto simbolize tanto a necessidade de planejamento quanto a água.

Bonito vende ao mundo a imagem de rios transparentes, nascentes protegidas e ambientes naturais preservados. É justamente essa qualidade ambiental que sustenta grande parte de sua economia.

Por isso, qualquer ameaça aos recursos hídricos precisa ser tratada como uma questão econômica, ambiental e social.

A proteção das águas depende de saneamento adequado, tratamento de esgoto, conservação das matas ciliares, controle da ocupação do solo, manejo das águas pluviais, fiscalização e planejamento territorial.

Não basta preservar o rio no ponto em que o turista mergulha.

É necessário proteger todo o sistema que permite que aquela água continue chegando limpa até ali.

O desafio do saneamento
O saneamento é uma das áreas que mais precisam estar no centro da discussão sobre o futuro de Bonito.

Em uma cidade turística, o sistema de coleta e tratamento de esgoto precisa acompanhar não apenas o número de moradores, mas também a população flutuante provocada pelo turismo.

Nos períodos de maior movimento, a demanda sobre a infraestrutura aumenta significativamente.

Isso exige planejamento baseado em capacidade futura, e não apenas na necessidade atual.

A lógica precisa ser simples: se Bonito pretende receber cada vez mais visitantes, sua infraestrutura precisa estar preparada para receber esse crescimento sem comprometer o meio ambiente.

As ruas também fazem parte do cartão-postal
Quem visita um destino turístico não observa apenas os atrativos naturais.

A experiência começa na estrada, continua nas ruas, nos estacionamentos, nas calçadas, na sinalização e nos espaços públicos.

É nesse ponto que aparecem algumas das contradições de Bonito.

Enquanto os atrativos investem em organização, segurança e experiência turística, a cidade ainda enfrenta desafios relacionados à pavimentação, conservação das vias, drenagem, sinalização, mobilidade e acessibilidade.

Calçadas inadequadas também representam um problema que ultrapassa a estética urbana. Elas afetam idosos, pessoas com deficiência, crianças e qualquer cidadão que precise circular a pé.

Uma cidade turística precisa ser, antes de tudo, uma boa cidade para quem mora nela.

Chuva, drenagem e urbanização
Outro desafio diretamente relacionado ao crescimento urbano é a drenagem.

A impermeabilização do solo, a expansão de áreas construídas e a ocupação urbana sem planejamento adequado podem aumentar problemas relacionados ao escoamento das águas das chuvas.

Drenagem urbana raramente aparece nas campanhas de divulgação turística.

Mas é uma das estruturas fundamentais para o funcionamento de qualquer cidade.

Quando uma chuva forte transforma ruas em pontos de alagamento, danifica pavimentos e dificulta o deslocamento de moradores e visitantes, fica evidente que sustentabilidade não pode ser apenas uma característica dos atrativos naturais.

A sustentabilidade precisa chegar às ruas.

Lixo: o preço invisível do turismo
Outro ponto que merece atenção é a geração de resíduos.

O aumento do turismo naturalmente amplia o consumo e, consequentemente, a quantidade de lixo produzida.

Garrafas, embalagens, restos de alimentos e outros resíduos precisam ter destinação adequada.

Em uma cidade cuja principal propaganda é a natureza, a gestão de resíduos deveria ser tratada como prioridade estratégica.

A coleta precisa funcionar. A destinação precisa ser adequada. A população precisa participar. Os empreendimentos turísticos precisam assumir responsabilidades e o poder público precisa fiscalizar.

Não existe ecoturismo sustentável quando o crescimento da atividade gera um passivo ambiental que não é adequadamente administrado.

Crescer, mas com planejamento
O maior desafio de Bonito talvez não seja escolher entre preservar ou crescer.

A questão é como crescer preservando.

A cidade não pode ficar congelada para manter sua imagem ambiental. O desenvolvimento econômico é importante e o turismo representa uma das principais atividades locais.

Mas crescimento sem planejamento pode produzir exatamente o efeito contrário ao desejado.

Mais veículos, mais construções, mais demanda por água, mais resíduos, mais pressão sobre o solo e mais ocupação urbana exigem políticas públicas proporcionais.

É preciso pensar Bonito para os próximos 10, 20 ou 30 anos — e não apenas para a próxima temporada turística.

Bonito precisa discutir o seu futuro
Aos 78 anos, o município já acumulou experiência suficiente para saber que seu maior patrimônio não está apenas nos empreendimentos turísticos.

Está na natureza.
Está nos rios.
Está nas nascentes.
Está nas grutas.
Está na paisagem.
E está também nas pessoas que vivem no município durante os 365 dias do ano.

Por isso, a discussão sobre o futuro de Bonito precisa envolver moradores, empresários, trabalhadores do turismo, ambientalistas, pesquisadores, produtores rurais, organizações da sociedade civil e o poder público.

É necessário discutir mobilidade, saneamento, expansão urbana, habitação, resíduos, drenagem, acessibilidade, preservação ambiental, capacidade turística e qualidade dos serviços públicos.

O aniversário como momento de cobrança
Comemorar 78 anos não significa ignorar os problemas. Pelo contrário.

Uma cidade que alcançou reconhecimento nacional e internacional precisa ter maturidade para reconhecer suas próprias fragilidades.

Bonito tem uma marca turística poderosa e um patrimônio natural excepcional. Mas exatamente por isso precisa cobrar de si mesma um padrão elevado de planejamento urbano e ambiental.

O aniversário pode ser mais do que uma celebração.

Pode ser um momento de reflexão e de cobrança por respostas.

Que cidade Bonito quer ser aos 80 anos?

E, principalmente: que Bonito será entregue às próximas gerações?

A resposta não estará apenas nos números do turismo ou na quantidade de visitantes recebidos.

Estará na qualidade das águas, na preservação das nascentes, na infraestrutura dos bairros, na mobilidade, no saneamento, na limpeza das ruas, na acessibilidade, na qualidade de vida dos moradores e na capacidade de crescer sem destruir os recursos que sustentam sua própria economia.

Bonito chega aos 78 anos com uma história que merece ser celebrada.

Mas também chega diante de uma responsabilidade que não pode mais ser adiada: preservar o paraíso não significa apenas proteger suas águas cristalinas. Significa construir uma cidade capaz de viver em equilíbrio com elas.

Fonte: Redação

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