Aumento do número de javalis tem causado danos no Rio Mimoso, apresentando risco ambiental e socioeconômico

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) abriu um inquérito para acompanhar a  implementação de medidas para controlar a reprodução de javalis europeus na região de Bonito, especialmente na região de nascentes do Rio Mimoso. 

A medida é voltada à proteção das Áreas de Preservação Permanente, das áreas degradadas e a manutenção dos recursos hídricos estratégicos do município. 

De acordo com a portaria, a espécie é considerada invasora e causa impactos ambientais severos, como a destruição de nascentes, a degradação das Áreas de Preservação Permanente, predação da fauna nativa, além de disseminação de doenças e alteração da estrutura dos ecossistemas. 

Em nota, o Instituto de Meio Ambiente Estadual (Imasul) evidenciou o comportamento severo das nascentes do Rio Mimoso como o assoreamento das nascentes, afloramento do lençol freático, supressão de vegetação nativa e perturbação do solo, comprometendo a capacidade de recarga hídrica e a qualidade da água. 

As justificativas continuam, ressaltando que a degradação das nascentes do Mimoso configura “dano ambiental de natureza difusa”, afetando as propriedades presentes nas áreas das nascentes e os entornos que dependem de serviços a partir do Rio. 

“A presença e a proliferação descontrolada de javalis na região configura situação de risco iminente à biodiversidade local, à manutenção dos recursos hídricos e à sustentabilidade das atividades turísticas do município”, relata o documento da 2ª Promotoria de Bonito. 

Em abril do ano passado, a Câmara Municipal de Bonito protocolou um ofício ao Imasul solicitando a vistoria em propriedades margeadas pelo Rio Mimoso com a justificativa de que haveria trechos secos e em processo acelerado de secagem. 

O córrego é considerado de vital importância para o município por ser berço de cenários de atrativos turísticos, como o Parque das Cachoeiras, a Estância Mimosa, Ceita Coré e outros, sendo, assim, de grande importância ecológica e socioeconômica para a cidade. 

A atividade turística é um atrativo econômico de Bonito, já que depende principalmente do turismo para circulação de capital. 

Segundo o Imasul, o aspecto mais crítico observado durante a vistoria foi o pisoteio completo das nascentes por javalis. 

“Todos os pontos visitados apresentavam sinais claros e recentes de perturbação do solo, diminuição do acúmulo de água e turvação, presença de rastros e revolvimento do solo característicos dessa espécie invasora”, analisou o órgão. 

Registros empíricos da região mostraram uma diminuição no volume de água nas nascentes, com um volume atual menor que a média histórica das propriedades. Para comparação, fato que é justificado por variantes como a baixa incidência de chuvas (em 2024, a precipitação média anual foi de 970 milímetros, enquanto em 2020, a média era 1.380 milímetros) e a presença dos javalis nas áreas. 

A partir dos fatos, o MPMS solicitou ao Imasul informações detalhadas sobre o Plano de Controle e Manejo do javali europeu implementado na região de Bonito, incluindo um cronograma de ações e metodologias, além de dados estatísticos e relatório sobre as medidas emergenciais e preventivas já adotadas. 

Também solicitou informações sobre a atuação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no controle da espécie em Mato Grosso do Sul e sua cooperação com os órgãos estaduais para o evento. 

Os órgãos têm um prazo de 30 dias para cumprir às intimações. 

Risco para o ecoturismo
O município, conhecido pelas águas cristalinas, depende diretamente da preservação dos banhados, que funcionam como filtros naturais, regulam o fluxo de água e são responsáveis diretos pela transparência, um dos cartões-postais de Bonito.

Conforme adiantado pelo Correio do Estado, em levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em maio de 2025, verificou-se aumento de propriedades cadastradas no município de Bonito, onde a presença do javali pode colocar em risco o turismo local.

Foram cadastradas 883 propriedades no período entre 2024 e 2025. Por meio desse cadastro, esses locais entram no sistema e podem receber controladores para realizar o manejo do javali, cujo abate é permitido no país desde 2013.

Morte das nascentes
O professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), do Instituto de Biociências, Marcelo Bordignon, explicou que o javali procura preferencialmente regiões onde pode encontrar lama, como nascentes de rios e banhados.

Nesses locais, o animal exótico utiliza a lama para se livrar de parasitas que ficam no pelo.

“Eles vão a esses locais, onde geralmente há nascentes e banhados, locais que acumulam água, mas que, eventualmente, acaba chegando a algum córrego, que depois vai fornecer água para os rios”, disse o professor.

Segundo o especialista, os banhados e as nascentes possuem vegetação arbórea adaptada a áreas úmidas.

“Nesses locais de nascentes, que são essas áreas um pouco mais baixas, um solo encharcado onde você afunda o pé, como se a água estivesse aflorando do solo. Isso é chamado de área de nascente. Esses locais, os javalis adoram, porque é onde eles vão ficar rolando e pisando nesse solo.”

Os animais acabam matando as plantas, e o professor destacou que o solo começa a ficar exposto, impedindo que a vegetação retorne. O problema ocorre quando há chuvas pesadas de verão sobre esse solo que começa a ser “lavado” pela água. 

Com o tempo, apontou o professor, pode ocorrer a morte da nascente e, eventualmente, a sujeira desce, acarretando o turvamento da água.

“Eles estragam a nascente e isso provoca o assoreamento do rio. Então, eles podem provocar a degradação total de uma nascente.”

*Colaborou Laura Brasil- Fonte:Correio do Estado

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