O Brasil já tem uma nova ligação física com o Paraguai. Foi concluída na semana passada a concretagem do último segmento da Ponte da Rota Bioceânica, que conecta Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, à cidade paraguaia de Carmelo Peralta. O “beijo das aduelas”, como é chamada a união das duas estruturas da obra de arte, encerra a construção do tabuleiro da ponte.
A abertura para o tráfego ainda depende da conclusão das obras de acesso às duas cabeceiras. A inauguração deve acontecer somente em 2027.
Embora o “beijo” entre as duas seções já tenha ocorrido, ainda são necessários ajustes para considerar a ponte definitivamente pronta, segundo o engenheiro René Gómez, superintendente da construção do Consórcio Binacional Paraguai-Brasil (Pybra). “É um momento importante e delicado, pois estamos lidando com a conexão final do projeto e ainda temos trabalhos técnicos pendentes. Precisamos realizar uma revisão topográfica completa utilizando os sensores instalados para medir a tensão nos estais e determinar quais cabos precisam de maior tensionamento ou quais pontos precisam ser elevados”, explicou.
O projetista da ponte, o italiano Mario de Miranda, esteve na obra para acompanhar a fase da união definitiva entre as duas seções. A construção foi iniciada há quatro anos. “Com a nova travessia internacional estruturalmente conectada, vamos prosseguir com a pavimentação, os acabamentos, a instalação de sistemas de segurança e outras obras complementares necessárias para que ela entre em operação”, diz.
Sobre a ponte
A ponte sobre o Rio Paraguai é a terceira e a maior entre as estruturas que ligam o Brasil ao país vizinho. São 1.294 metros de extensão por 20 metros de largura e uma altura de cerca de 37 metros no vão central.
Para fazer uma comparação, a conhecida Ponte da Amizade, entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Ciudad del Este, no Paraguai, tem extensão de 552 metros.
Já a Ponte da Integração, entre Foz do Iguaçu e Presidente Franco, no país vizinho, inaugurada em dezembro do ano passado, mede 760 metros.
A nova ponte faz parte de um grande corredor internacional que vai conectar Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, interligando por terra os oceanos Atlântico e Pacífico.
Serão cerca de 3,5 mil km de rodovias, desde os portos de Santos, no litoral paulista, e de Paranaguá, no Paraná, a Antofagasta, no litoral norte do Chile. Além de facilitar o transporte de cargas, a rota deve incentivar o turismo entre os quatro países sul- americanos. O corredor vai facilitar o acesso a regiões pouco exploradas, como o Chaco paraguaio.
Corredor de Capricórnio
Idealizada há mais de 25 anos, a rota também é conhecida como Rota de Integração Latino-Americana ou Corredor Rodoviário de Capricórnio, por coincidir em parte com a linha imaginária do Trópico do Capricórnio. Obra mais importante do corredor, a Ponte Bioceânica custou cerca de R$ 500 milhões. Os recursos vieram da Itaipu Binacional, com a execução sob a responsabilidade do Consórcio Pybra, formado pelas empresas Tecnoedil, Cidade e Paulitec Construções.
Para montar a estrutura, foram construídos 52 blocos de fundação com 302 estacas, 29 pilares – o mais alto, no lado paraguaio, tem 125 m de altura -, 176 vigas pré-fabricadas e 22 vãos nas cabeceiras de acesso. Foram usados 60 mil m3 de concreto, suficientes para construir um estádio igual ao Maracanã.
A ponte tem 20,10 metros de largura, com uma faixa de 3,6 m em cada sentido e acostamentos largos, de 3 metros, que podem ser reconfigurados para faixas de tráfego. Inclui ainda calçadas de 2,50 m para pedestres e ciclovia. O trecho estaiado é de 632 metros e o vão principal tem 350 metros.
As pontes entre Brasil e Paraguai
- Ponte Internacional da Amizade: inaugurada em 1965, tem 552,4 metros de extensão por 13,5 m de largura, com altura de 78 m sobre a calha do Rio Paraná e vão livre de 303 metros. Liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este.
- Ponte da Integração: inaugurada em dezembro de 2025, tem 760 metros de extensão por 14,7 de largura e 35 de altura sobre o Rio Paraná, com vão livre de 470 m. Liga Foz do Iguaçu a Presidente Franco.
- Ponte da Rota Bioceânica: ainda sem data de inauguração, tem 1.294 metros de extensão por 20,10 m de largura, e 37 de altura, com vão livre de 350 metros sobre o Rio Paraguai. Liga Porto Murtinho a Carmelo Peralta.
Acessos ficam prontos em 2027
O acesso à ponte da Rota Bioceânica pelo lado brasileiro é construído pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). As obras, na BR-267/MS, incluem a construção de um novo trecho de 13,1 km de rodovia, com investimento de R$ 472 milhões do governo brasileiro. Até a etapa atual, foram construídos 10,1 km de terraplanagem e movimentação de terra no segmento.
Mais de 95% das galerias, bueiros e passagens de fauna estão concluídos. Entre as obras de arte em andamento estão um viaduto na BR-267, a ponte sobre o Rio Amonguijá (a estrutura já foi instalada), e cinco pontes de vazantes. A previsão é de que tudo esteja pronto no início do segundo semestre de 2027.
No lado paraguaio, são realizadas as obras de conexão da ponte com a Rota PY15, com a pavimentação de 3,8 quilômetros praticamente concluída. A ponte está a cerca de 5 quilômetros da área urbana de Carmelo Peralta, cidade com cerca de 5 mil habitantes.
Por onde a rota vai passar?
No Brasil, as conexões rodoviárias de portos como o de Santos, em São Paulo, e Paranaguá, no Paraná, com Campo Grande, a capital sul-mato-grossense, já são consolidadas.
De Campo Grande a Porto Murtinho, a rota bioceânica terá 450 km passando por cidades como Sidrolândia, Nioaque, Guia Lopes da Laguna e Jardim.
No Paraguai, a bioceânica terá 530 quilômetros, de Carmelo Peralta a Pozo Hondo, na fronteira com a Argentina, passando por Loma Plata e Mariscal Estigarribia. Um trecho de 224 km está recebendo obras de pavimentação.
Na Argentina, o traçado começa em Misión La Paz, na província de Formosa, e segue até a cidade de Salta, passando por Tartagal e San Salvador de Jujuy.
A rota faz a travessia da Cordilheira dos Andes pelo Paso de Jama e segue à região chilena de Antofagasta, atendendo ainda outras cidades portuárias, como Mejillones, Tocopilla e Iquique.
A expectativa é que a Rota Bioceânica reduza o tempo de transporte de mercadorias para mercados internacionais, principalmente na Ásia, por meio desses portos chilenos no Oceano Pacífico.
Conforme estudos do Ministério da Infraestrutura brasileiro, a estrada bioceânica pode encurtar em mais de 9,7 mil quilômetros de rota marítima a distância das exportações brasileiras para a Ásia.
Os navios que partem de portos brasileiros não precisarão utilizar o Canal do Panamá. Em uma viagem para a China, o tempo de percurso será 23% menor, com cerca de 12 dias a menos de navegação. A rota facilitará também o comércio entre países do Mercosul.
Projeto do ano 2000
O projeto do corredor rodoviário bioceânico remonta a 2000, quando a cúpula de presidentes da América do Sul lançou o plano de integração da infraestrutura regional para estabelecer uma rota entre o Atlântico e o Pacífico. Em 2015 foi firmada a Carta de Assunção pelos presidentes do Brasil, Paraguai, Chile e Argentina estabelecendo um corredor bioceânico partindo de Campo Grande até os portos do norte do Chile, com passagem por Porto Murtinho.
O objetivo mais claro era econômico: reduzir o trajeto das exportações para a Ásia e incentivar atividades comerciais, especialmente o turismo, ao longo da rota. Um ano depois, Brasil e Paraguai assinaram acordo para a construção da ponte.
Superar os dois principais entraves – o transporte por balsa entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta e as estradas sem pavimentação no Chaco paraguaio – passou a ser o foco do projeto. A previsão inicial era de que a ponte sobre o Rio Paraguai fosse concluída em 2022. Questões políticas e a pandemia atrasaram também as obras de infraestrutura rodoviária na região do Chaco paraguaio.
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul desenvolve o Projeto GPS 67 – Desafios Socioambientais da Rota Bioceânica – para monitorar, acompanhar e apresentar propostas para minimizar os impactos sociais e ao ambiente nos municípios brasileiros que estão na área de influência.
Segundo o MP, 23 municípios do MS (cerca de 30% do total) deverão sentir os impactos positivos e negativos da rota, como aumento populacional e maior movimentação turística e econômica.
Fonte:Estadão