A esquerda já perdeu

Lula chega à véspera do segundo turno numericamente atrás do filho de Jair Bolsonaro, dependente de pautas garimpadas às pressas por seu marqueteiro e refém de um pacote de bondades de R$ 200 bilhões para financiar promessas eleitorais ditadas por pesquisas. Um ponto atrás de Flávio nos votos totais, segundo o último Datafolha, ele ainda pode ganhar. Mas a esquerda sai das urnas politicamente derrotada qualquer que seja o resultado de amanhã: minoritária no Congresso, minúscula nos governos estaduais e apartada de um país que não cabe na sua cartilha.

— Será que o povo está certo? Ou será que nós estamos errados de reclamar? — disse Lula após o primeiro turno ao comentar as derrotas de Marina Silva e Simone Tebet para o Senado, em São Paulo.

O petista se perguntava como duas mulheres de tamanha qualidade tinham sido trocadas por nomes sem “um único compromisso com a inclusão social”. A resposta nua e crua é que a maioria dos eleitores paulistas não colocou a inclusão social no topo de suas prioridades. Muito provavelmente, preferiu o combate à criminalidade — principal bandeira dos eleitos e artigo de primeira necessidade para muitos brasileiros, segundo dez entre dez pesquisas. A perplexidade presidencial traduz a crença persistente de parte da esquerda de que representa o povo e, quando ele discorda dela, é porque padece de defeitos a ser corrigidos. Durante muito tempo, o diagnóstico serviu sobretudo aos evangélicos — conservadores demais, crentes demais, família demais. A eleição mostrou que continua a crescer o contingente de brasileiros que, aos olhos desse campo, precisam de ajustes.

Que o digam os microempreendedores. As primeiras propostas do governo para um grupo de trabalhadores de aplicativos, em 2024, incluíam nada menos que contribuição previdenciária e representação sindical — precisamente o contrário daquilo a que a categoria aspirava. As mais recentes oferecem “socorro” aos endividados e prometem uma “doação” com selo eleitoral, numa mostra de que os governos do PT, que construíram sua identidade em torno de benefícios sociais, têm dificuldade de abandonar até seus cacoetes de linguagem diante de um novo público. A falta de jeito aparece na pesquisa Meio Ideia divulgada na quarta-feira: entre os que sonham empreender, 62% preferem Flávio; apenas 34% ficam com Lula. O desejo de ser o próprio patrão superou o da contratação formal: 43% associaram “melhorar de vida” a ter o próprio negócio; 32%, ao emprego com carteira assinada.

O desencontro da esquerda com o eleitor se repete no agronegócio. Como observa o cientista político Felipe Nunes, o agro ultrapassou a atividade econômica para virar identidade cultural, que combina o orgulho de produzir e prosperar com o apego à família, à propriedade, à religião — e tem seu mais eficiente veículo de expansão na música sertaneja, hoje gênero mais ouvido no ex-país do samba. É uma lista de preferências de causar urticária ao militante ortodoxo — a recíproca é verdadeira, como sugeriu levantamento da CNN. Com base em dados do TSE, ele mostrou que Lula perdeu votos nos dez municípios com maior valor da produção agrícola do país em relação ao primeiro turno de 2022. Neles, Flávio Bolsonaro recebeu mais votos do que o pai quatro anos antes.

O microempreendedorismo e o agronegócio são exemplos de segmentos de que a esquerda ainda não conseguiu se aproximar — e, em muitos casos, nem faz questão. Os resultados que ela colheu nesta eleição mostram que grande parte desses eleitores, tendo dado com a cara na porta ao buscar respostas para seus desejos, sonhos e necessidades, resolveu cantar em outra freguesia. A resiliência do bolsonarismo é, sobretudo, a derrota da esquerda — e aqui não se está falando de eleição.

Fonte: OGlobo, por Thays Oyama

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