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MS 49 anos: Bonito, Bodoquena e os desafios dos guardiões das águas transparentes do Estado

de Redação Bonitonet
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A água cristalina que fez Bonito ser conhecida mundialmente não começa no momento em que o turista coloca os pés dentro de um rio. Ela percorre um caminho muito maior, que passa pelo solo, pelas nascentes, pelos banhados, pela vegetação e por áreas que estão muitas vezes a quilômetros de distância dos atrativos turísticos.

Na Serra da Bodoquena, onde Bonito e a cidade que dá nome ao relevo estão inseridos, esse sistema é ainda mais delicado. A mesma água que impressiona quem chega para fazer uma flutuação depende de um equilíbrio que começa muito antes do passeio.

É nesse ponto que preservação e turismo deixam de ser assuntos separados. Para o biólogo e doutor em Ecologia José Sabino, que atua há cerca de 30 anos com a Natureza em Foco e pesquisa os ambientes da região, o interesse por Mato Grosso do Sul começou em 1995. Desde então, ele acompanha de perto rios, peixes, nascentes e os impactos provocados pelas atividades humanas.

Sabino explica que a Serra da Bodoquena chamou a atenção não apenas pela beleza, mas também pela biodiversidade e pelas características ambientais da região.

Biólogo e doutor em Ecologia José Sabino. (Léo de França, Midiamax)

“Os ambientes aqui são muito especiais, não só esteticamente, mas do ponto de vista da biodiversidade. E essa foi uma das coisas que mais me chamaram a atenção quando eu comecei a conhecer a região”, afirma.

Segundo o pesquisador, essa combinação entre beleza e biodiversidade ajudou a transformar Bonito, Bodoquena, Jardim e outras áreas da Serra da Bodoquena em um importante destino de ecoturismo e em uma cadeia econômica que depende diretamente da conservação.

Há cerca de 40 anos, essa cadeia praticamente não existia. Hoje, o turismo de natureza movimenta a economia e cria uma relação direta entre a conservação dos rios, negócios e empregos.

Mas, antes de pensar em utilizar um ambiente, é preciso entender como ele funciona.

“Como é que você vai usar um ambiente sem que você conheça ele corretamente? Então, primeiro você precisa conhecer o ambiente, entender como ele funciona e, a partir daí, tomar as decisões de uso, de conservação e de manejo”, explica Sabino.

A água cristalina começa no subsolo. A Serra da Bodoquena é formada por um grande bloco de rochas calcárias, cheio de fraturas e caminhos subterrâneos por onde a água se infiltra.

Quando passa pelo calcário, a água dissolve sais que ajudam partículas presentes nela a se aglutinar e se depositar no fundo. É uma das razões para a transparência característica dos rios da região.

“É como se você tivesse um grande queijo suíço, cheio de furos, de túneis, de fraturas e de dutos por onde a água vai passando. Essa água se infiltra, circula por esse sistema subterrâneo e depois volta para a superfície”, explica o pesquisador.

É por esses caminhos que surgem os chamados olhos d’água, pontos em que a água volta a aparecer no leito dos rios.

Banhados e rios em risco

Mas o sistema não depende apenas das áreas subterrâneas. Os banhados também têm uma função importante, retendo água durante as chuvas e liberando esse volume lentamente durante a seca.

É justamente nesse ponto que o pesquisador chama a atenção para um problema que já afetou o Rio da Prata. Segundo Sabino, duas propriedades rurais abriram cerca de 50 quilômetros de drenos em áreas de banhado, acelerando a saída da água que deveria permanecer retida.

“Esse volume de água retido no banhado é o que permite, nos períodos de seca, manter o rio fluindo. Se você drena esse banhado, você está tirando a capacidade que aquele ambiente tinha de armazenar água e liberar essa água lentamente”, explica.

Sabino afirma que os drenos são irregulares, que os proprietários foram multados e que existe uma ação civil pública em andamento. Ele ressalta que a definição de responsabilidades jurídicas cabe às autoridades competentes.

O pesquisador cita 2024, 2025 e 2026 como períodos em que o Rio da Prata apresentou interrupções de vazão na superfície e relaciona o problema à alteração provocada pelos drenos.

Para ele, a recuperação é possível, mas não acontece na mesma velocidade em que o dano foi provocado. A abertura dos drenos pode ocorrer em poucos meses, enquanto a recuperação dos banhados pode levar pelo menos uma década.

“Para destruir os drenos, foi uma temporada ali. Agora, a restauração desse ambiente, a recuperação do banhado, é um processo que vai levar, no mínimo, uma década. E, mesmo assim, a gente não tem garantia de que vai voltar exatamente ao que era antes”, afirma.

A preservação dos rios também passa pela produção rural. Sabino explica que o risco relacionado à agricultura está principalmente no uso de grandes volumes de produtos e na possibilidade de defensivos chegarem aos rios pela chuva ou pela deriva do vento.

“Não estou dizendo aqui para acabar com a agricultura, eu não sou contra o setor produtivo. A questão é que a gente precisa fazer uma agricultura que respeite as regras ambientais, que respeite as áreas de preservação e que tenha cuidado para que aquilo que é utilizado na produção não chegue aos rios”, destaca.

A mata ciliar funciona como uma barreira, ajudando a reduzir a chegada de poluentes e sedimentos aos cursos d’água.

O próprio Plano Diretor de Bonito 2026-2036 coloca a proteção das margens dos rios Formoso e Miranda entre as diretrizes propostas. O documento prevê mapeamento das faixas marginais, sinalização das Áreas de Preservação Permanente, controle da erosão e da drenagem, além de fiscalização orientada pelos dados levantados.

Turismo precisa respeitar os limites da natureza

Para quem administra o município, a preservação também passa por controlar a quantidade de pessoas que chegam aos atrativos.

Thyago Sabino, secretário municipal de Meio Ambiente de Bonito, trabalhou durante 11 anos em atrativos turísticos antes de atuar na administração pública. Ele explica que o município precisa lidar principalmente com turismo, produção agropecuária e cidade.

No turismo, uma das principais ferramentas é a capacidade de carga.

Thyago Sabino, secretário municipal de Meio Ambiente de Bonito. (Marcos Erminio, Midiamax)

“Todo passeio em Bonito tem um número de pessoas para entrar. Então, a gente trabalha com essa capacidade de carga para que não haja uma superlotação daquele atrativo e para que a atividade turística aconteça de uma maneira que não comprometa o ambiente”, explica.

O controle é feito pelo voucher turístico, que permite acompanhar o fluxo de visitantes nos passeios regulamentados.

Segundo o secretário, os atrativos licenciados também precisam enviar periodicamente informações sobre o monitoramento ambiental, incluindo dados sobre a visitação e a qualidade da água.

Se o turista costuma enxergar apenas a parte bonita da água, existe um problema literalmente dentro da cidade. Thyago explica que, mesmo o Rio Formoso não passando diretamente pela área urbana, Bonito está cercado por córregos que desaguam no sistema do Formoso.

“A cidade também é uma grande situação que causa dano ao rio diretamente. Então, a gente precisa olhar para o saneamento, para os resíduos sólidos, para a drenagem urbana e para tudo aquilo que acontece dentro da cidade, porque tudo isso, de alguma forma, vai refletir nos nossos córregos e, consequentemente, no sistema do Formoso”, afirma.

Isso significa que o cuidado com os rios não termina nos atrativos. O crescimento urbano, o tratamento de esgoto, a destinação dos resíduos e a maneira como a água da chuva é conduzida também interferem na qualidade ambiental.

É justamente nesse cenário que Bonito discute a revisão do Plano Diretor. Uma audiência pública para debater a proposta ocorreu na Câmara Municipal no dia 29 de setembro.

O Plano Diretor 2026-2036 foi elaborado em parceria entre a Prefeitura de Bonito, o Governo de Mato Grosso do Sul e a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e reúne diretrizes para orientar o crescimento da cidade nos próximos dez anos.

Entre as propostas, está a criação de parques lineares ao longo dos córregos Bonito, Saladeiro e Restinga, com recuperação de margens degradadas, proteção de nascentes e criação de áreas verdes.

O plano também propõe impedir a ocupação de grotas, fundos de vale e áreas de escoamento natural, destinando esses espaços prioritariamente à drenagem e às áreas verdes.

Outro ponto é o chamado Impacto Hidrológico Zero. A proposta prevê que novos empreendimentos em áreas elevadas comprovem que não vão aumentar o escoamento superficial para regiões mais baixas da cidade.

Na prática, a ideia é que a própria área onde ocorre uma construção consiga reter e infiltrar a água da chuva, com soluções como jardins de chuva, bacias de infiltração e pavimentos permeáveis.

O documento também prevê o fortalecimento do Estudo de Impacto de Vizinhança para grandes empreendimentos turísticos e imobiliários, inclusive com análise dos impactos sobre a infraestrutura de saneamento.

Thyago explica que Bonito já sabe quantas pessoas cada passeio pode receber. O próximo passo é entender o limite do próprio rio.

“Quando a gente pensa na atividade turística, hoje a gente tem uma regra muito estabelecida de quantas pessoas cada passeio pode receber, mas a pergunta que a gente faz é: quantas pessoas o rio pode receber? Qual é o limite daquele ambiente? Até onde a gente pode crescer sem comprometer aquilo que faz Bonito ser Bonito?”, questiona.

Segundo ele, a prefeitura já concluiu um estudo de capacidade de carga da bacia do Rio Formoso e realizou levantamentos sobre águas superficiais e aspectos hidrogeológicos.

A intenção é usar essas informações para orientar futuras decisões sobre o território.

A preocupação com os rios também aparece no bolso de quem visita Bonito. Desde dezembro de 2025, o município cobra a Taxa de Conservação Ambiental, de R$ 15 por pessoa e por dia de visitação. Segundo a prefeitura, o recurso é destinado a ações de conservação e manejo do patrimônio natural.

O mecanismo transforma parte da movimentação provocada pelo turismo em recurso para manter a estrutura necessária à conservação.

Bodoquena está no mesmo caminho da água

Mas a discussão não termina nos limites de Bonito. Bodoquena também faz parte desse sistema ambiental e turístico da Serra da Bodoquena. A conservação das áreas naturais, das nascentes e dos rios precisa ser pensada considerando que a água não para na divisa entre os municípios.

É nesse contexto que está a Cara da Onça, atrativo na Serra da Bodoquena que mantém relação direta com o Rio Salobra. O professor Edson Silva, que foi docente do curso de Jornalismo da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), é um dos proprietários da área há cerca de 20 anos.

A propriedade tem 15,7 hectares e, em 2008, uma área de 11,7 hectares foi transformada na RPPN Cara da Onça, uma unidade de conservação estadual. A reserva possui plano de manejo, que estabelece as diretrizes para proteção da biodiversidade, educação ambiental, turismo ecológico e produção científica.

Ao longo das duas últimas décadas, a estratégia adotada pelos proprietários foi reduzir a interferência humana e permitir que a própria natureza recuperasse parte da área.

Professor Edson Silva, um dos proprietários da RPPN Cara da Onça. (Pietra Dorneles, Midiamax)

“Nesses 20 anos, nessas duas décadas, o que nós fizemos foi deixar a natureza agir, ou seja, os bichos continuaram vivendo, procriaram, as árvores cresceram, as trilhas, nós não abrimos muito e também não deixamos o trânsito de pessoas desequilibrar a área.”

A visitação também é limitada. A RPPN já teve licença para receber até 25 pessoas e, atualmente, não opera comercialmente como atrativo turístico. Os visitantes podem conhecer a área e, posteriormente, contribuir voluntariamente para a manutenção da unidade de conservação.

A preocupação com o equilíbrio ambiental também está diretamente ligada ao Rio Salobra, que passa pela propriedade. A RPPN possui cerca de 300 metros de margem do rio, e esse trecho serve como uma espécie de ponto de observação das condições da água.

Segundo Edson, a presença dos peixes e a quantidade de resíduos e sedimentos que chegam pelo rio ajudam a identificar possíveis alterações ambientais.

“Como é que a gente sabe da saúde do rio? Por conta da presença dos peixes, se eles estão bem ou não, se estão descendo muitos detritos, coisas que são jogadas no rio, a montante.”

O acompanhamento também mostra que a preservação de um trecho do rio depende do que acontece antes de ele chegar à área protegida. Durante períodos de chuva, por exemplo, resíduos, galhos, madeira e materiais provenientes de áreas rurais podem ser carregados pela água.

Por isso, mesmo com apenas 300 metros de margem, os proprietários entendem que a responsabilidade pela conservação não termina nos limites da RPPN.

“A gente sabe que qualquer coisa que aconteça antes de chegar na RPPN vai prejudicar a RPPN e vai prejudicar esse manancial, que é extremamente importante.”

A experiência na Cara da Onça mostra, na prática, que a preservação de um rio depende de uma visão que ultrapassa os limites de uma propriedade, de um atrativo ou de um município.

No fim, a água cristalina que encanta quem chega à Serra da Bodoquena é resultado de um equilíbrio que começa muito antes dos atrativos. Preservar os rios significa olhar para todo esse caminho: proteger nascentes, banhados, vegetação, áreas rurais e urbanas e garantir que o turismo possa continuar fazendo parte dessa paisagem sem comprometer aquilo que a torna tão especial.

Fonte:MM

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