Piloto e especialista automotivo César Urnhani explica as principais diferenças na aceleração, frenagem, regeneração, ruídos e até no desgaste dos pneus
Quem está acostumado a dirigir um carro a combustão pode imaginar que basta entrar em um elétrico, selecionar o “D” e sair dirigindo. Na prática, a mudança de tecnologia exige algumas adaptações. A resposta do acelerador, a ausência de câmbio convencional, o silêncio e a forma como o carro desacelera mudam bastante a relação do motorista com o veículo.
Para explicar essas diferenças, o Jornal do Carro convidou César Urnhani, piloto e especialista automotivo, que mostra quais são os principais cuidados para quem vai fazer essa transição. Segundo ele, o tamanho do estranhamento depende diretamente do carro que o motorista está acostumado a dirigir. Quem vem de um modelo com câmbio CVT, por exemplo, tende a se adaptar mais rapidamente. Já para quem está acostumado a um carro manual, a mudança é maior.
A primeira diferença aparece justamente quando o motorista pisa no acelerador. Um carro elétrico entrega torque de maneira praticamente instantânea. Em um modelo a combustão, especialmente um motor menor com resposta mais lenta, existe um intervalo até que o motor alcance a rotação necessária para entregar força.
Por isso, a principal recomendação de Urnhani para quem migra para um elétrico é ter cuidado com o pedal do acelerador. A resposta rápida pode ser divertida, mas também aumenta o consumo de energia e o desgaste dos pneus. Como o carro elétrico também é pesado por causa da bateria, acelerar de maneira agressiva exige mais dos pneus.
A própria construção dos pneus ajuda a entender essa diferença. Segundo o piloto, um pneu convencional novo costuma ter cerca de 8 mm de altura de borracha na banda de rodagem, enquanto muitos pneus desenvolvidos para elétricos têm aproximadamente 6 mm. A explicação está no torque instantâneo: blocos mais altos poderiam sofrer arrancamento sob a força aplicada pelo motor.
Elétrico não tem a mesma interação mecânica
Outra mudança importante está no câmbio. Nos carros a combustão, há diferentes tipos de transmissão — manual, automatizada, automatizada de dupla embreagem, automática convencional e CVT. No elétrico, a necessidade de uma transmissão tradicional praticamente desaparece, já que, em muitos modelos, o motor elétrico pode transmitir sua força diretamente às rodas.
É justamente aí que o motorista que gosta de “participar” mais da condução pode sentir uma das maiores diferenças. Em um carro a combustão com câmbio manual ou automatizado, o condutor percebe as trocas de marcha, pode fazer reduções e acompanhar a subida de giro do motor. No elétrico, essa interação mecânica praticamente desaparece.
“Se você é uma pessoa que está acostumada com isso aqui, trocar marcha, borboleta, isso e aquilo, o estranhamento para o veículo elétrico se amplifica”, diz Urnhani. Para ele, o elétrico é um excelente meio de mobilidade, mas quem busca uma interação mais direta com a mecânica encontra uma experiência diferente.
Por outro lado, há novas formas de interação. O torque instantâneo, o silêncio e a tecnologia embarcada também podem proporcionar prazer ao motorista. A diferença, segundo o especialista, é que parte dessa interação deixa de ser mecânica e passa a acontecer por meio dos modos de condução, comandos e sistemas eletrônicos do veículo.
Até ligar o carro é diferente
O estranhamento começa antes mesmo de o veículo andar. Em um carro a combustão, o motorista normalmente dá a partida, ouve o motor funcionar e percebe imediatamente que o veículo está ligado. Em um elétrico, pode não haver nenhum desses sinais.
No modelo utilizado no teste, Urnhani explica que basta entrar no carro, pressionar o pedal do freio e selecionar o “D” para estar pronto para sair. Não há necessariamente um botão de partida nem o ruído do motor para indicar que o veículo está ligado. Para desligá-lo, o procedimento também pode ser diferente: ao colocar o carro em “P”, abrir a porta ou simplesmente travá-lo, o sistema pode ser desligado automaticamente, dependendo da tecnologia utilizada.
Silêncio exige mais atenção
A ausência do barulho do motor traz outra adaptação. Em velocidades baixas, o carro elétrico pode emitir um ruído artificial para ajudar pedestres e outros usuários da via a perceberem sua aproximação. Acima de determinada velocidade, porém, esse som deixa de existir e o silêncio se torna muito mais evidente.
Isso muda também a percepção de outros ruídos dentro da cabine. Sem o motor a combustão funcionando como fonte constante de som, barulhos que antes passariam despercebidos ficam mais evidentes. Pneus, suspensão e peças internas podem parecer mais ruidosos simplesmente porque há menos sons mecânicos encobrindo-os.
Por isso, Urnhani explica que os elétricos costumam receber soluções específicas para melhorar o isolamento acústico, como vidros laminados ou duplos, além de materiais de acabamento e elementos de isolamento na parte inferior da carroceria. A suspensão também pode ter uma calibração mais macia para evitar que impactos cheguem com tanta intensidade à cabine.
Regeneração muda a forma de frear
Uma das maiores diferenças na condução está na frenagem regenerativa. Em vez de simplesmente desperdiçar na forma de calor toda a energia envolvida na desaceleração, o sistema utiliza o motor elétrico para reduzir a velocidade e recuperar parte dessa energia para a bateria.
O motorista precisa, portanto, aprender a escolher o nível de regeneração adequado para cada situação. Para Urnhani, uma regeneração mais forte faz sentido em uma descida de serra, por exemplo. Nesse caso, ao tirar o pé do acelerador, o carro desacelera de maneira mais intensa e pode recuperar energia enquanto controla a velocidade.
Já em uma estrada plana e sem necessidade de desacelerações constantes, o especialista recomenda uma regeneração mais fraca. A ideia é permitir que o veículo role mais livremente. Se o carro estiver regenerando e freando o tempo todo, o motorista terá de voltar ao acelerador para recuperar a velocidade, o que pode aumentar o consumo de energia.
A regeneração também altera a percepção do chamado freio-motor. Segundo Urnhani, a desaceleração proporcionada pelo motor elétrico pode ser muito mais intensa que aquela percebida em um veículo convencional. Em determinadas situações, o motorista consegue controlar a velocidade praticamente apenas modulando o acelerador, sem precisar recorrer constantemente ao pedal de freio.
Suavidade é a palavra-chave
Para quem está fazendo a transição, a recomendação mais importante é simples: dirigir de maneira mais suave.
As respostas rápidas do motor elétrico tornam desnecessárias as “patadas” no acelerador. Além de gastar mais bateria e pneus, acelerações e desacelerações bruscas podem prejudicar o conforto dos passageiros. Como muitos elétricos utilizam suspensão mais macia para compensar o peso e melhorar o isolamento, os movimentos provocados por comandos abruptos podem ser bastante perceptíveis dentro da cabine.
Os modos de condução podem ajudar nessa adaptação. De acordo com Urnhani, a diferença entre os modos Eco, Comfort e Sport tende a ser mais perceptível em um carro elétrico do que em muitos modelos a combustão. No modo mais econômico, por exemplo, a resposta ao acelerador fica mais progressiva e facilita uma condução suave.
Há ainda uma particularidade quando a bateria está perto do fim. Segundo o especialista, alguns elétricos adotam estratégias para preservar a carga: abaixo de determinados níveis, uma condução econômica pode não sofrer alterações, mas uma aceleração forte pode fazer o sistema limitar a potência disponível para economizar energia.
No fim, a adaptação tende a acontecer rapidamente. “Você se adapta rápido”, resume Urnhani. Para quem vem de um carro com câmbio CVT, a transição pode ser ainda mais natural. Já quem sai de um modelo manual ou de um veículo com características muito diferentes perceberá mais mudanças, principalmente na resposta do acelerador, na ausência das trocas de marcha e na regeneração.
A dica final do piloto é direta: cuidado com o acelerador e aprenda a usar corretamente a regeneração. São esses dois comandos que, na prática, mais mudam a maneira de conduzir um carro elétrico — e também os que podem fazer diferença no consumo de bateria, no desgaste dos pneus e no conforto de quem está dentro do carro.
Fonte: JornaldoCarro