Deterioração fiscal força governo Lula a pagar maiores juros em 10 anos em títulos públicos para financiar a dívida
Enquanto a gestão Lula busca ampliar gastos e elevar a arrecadação para fechar as contas, o mercado financeiro está cobrando cada vez mais caro para emprestar ao governo, com os juros exigidos para financiar o Tesouro Nacional atingindo os maiores níveis em quase dez anos.
No início do terceiro mandato de Lula, em janeiro de 2023, títulos prefixados de longo prazo pagavam pouco mais de 10% ao ano. Três anos depois, papéis equivalentes passaram a oferecer cerca de 14,7% ao ano, um aumento superior a quatro pontos percentuais exigido por investidores para financiar a dívida pública.
Já no título mais antigo em negociação, o Tesouro IPCA+ 2045, o governo pagava juros de 6,2% ao ano no início do atual mandato. Atualmente o valor pago é de 7,64% ao ano – aumento de 1,44 ponto percentual no custo de financiamento da dívida.
O aumento na remuneração dos títulos faz com que as despesas com juros aumentem. Elas atingiram 7,9% do PIB nos 12 meses encerrados em abril, segundo dados do Banco Central (BC) — o maior valor desde janeiro de 2016, durante o governo de Dilma Rousseff (PT).
Mercado exige remuneração maior
A alta na remuneração dos títulos do Tesouro Direto reflete diretamente a deterioração das expectativas econômicas e a percepção de descontrole fiscal. Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que, apesar do aumento de impostos e da arrecadação recorde, as despesas do governo crescem em ritmo superior ao das receitas.
A dívida pública saltou de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 83,3% projetados para dezembro de 2026, segundo a mediana das projeções do mercado financeiro coletadas pelo BC.
“Se os investidores enxergam uma trajetória de crescimento da dívida pública sem medidas suficientes para equilibrar as contas, eles exigem uma remuneração maior para continuar financiando o Tesouro Nacional”, explica João Luís Debom, head do Private da Supernova Investimentos.
O reflexo imediato, segundo ele, é o aumento bilionário das despesas do governo com juros, criando uma “bola de neve” financeira.
Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, explica que o governo gasta mais do que arrecada, o que o obriga a rolar a dívida pagando juros mais altos — estimados entre R$ 800 bilhões e R$ 900 bilhões anuais apenas em juros nominais.
O ciclo, explica o analista, se retroalimenta, corrói o espaço para investimentos públicos e flerta com a dominância fiscal — situação em que o endividamento elevado do governo passa a limitar a capacidade do Banco Central de controlar a inflação por meio dos juros —, punindo a economia com crédito mais caro, recuo nos investimentos privados e desaceleração do crescimento.
Ilustração conceitual que representa a trajetória explosiva da dívida pública brasileira e o risco de dominância fiscal em ano eleitoral (Foto: Ilustraçao gerada com GPT Image 2/Gazeta do Povo)
Conta da dívida pública recai sobre famílias e empresas
Quando o Tesouro precisa pagar taxas mais altas para rolar o endividamento crescente, o custo do dinheiro sobe em toda a economia, como explica Debom.
Na prática, o governo repassa o custo à sociedade: o crédito fica mais caro para a população e o setor produtivo, o que reduz consumo, investimento e atividade econômica.
Além de frear a iniciativa privada, a escalada dos juros sufoca a capacidade de atuação do próprio Estado, que destina fatias crescentes do orçamento apenas ao pagamento de juros.
O head da Supernova Investimentos observa que essa dinâmica reduz o espaço para investimentos públicos e aumenta a necessidade de arrecadação. Para o cidadão, o reflexo é custo de vida mais alto, aumento da carga tributária e falta de retorno em serviços.
Para afastar o risco de dominância fiscal, o governo precisa gerar superávits primários consistentes — em outras palavras, gastar menos do que arrecada independentemente de oscilações da economia.
“Se o mercado não enxergar medidas suficientes para equilibrar as contas, continuará exigindo prêmios cada vez mais altos para financiar o Tesouro Nacional”, explica Debom.
Eleições reforçam preocupações fiscais
As pressões políticas que antecedem os períodos eleitorais agravam o cenário. David Martins, sócio-diretor da Brazil Wealth, ressalta que “a disputa eleitoral tende a privilegiar medidas de apelo popular em detrimento da eficiência do gasto”.
Estimativas de mercado indicam que o volume total de incentivos pode alcançar R$ 742 bilhões neste ano, equivalente a 5,4% do PIB — prática que historicamente pressiona a inflação e força os investidores a exigir prêmios mais altos nos títulos longos.
“É a clássica espiral fiscal que, historicamente, o Brasil já enfrentou e da qual saiu com custo econômico e social muito alto”, diz Martins.
Fonte: GazetadoPovo