terça-feira, 24 março, 2026 17:49
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Abandono do tratamento mantém tuberculose como desafio de saúde pública em MS

de Redação Bonitonet
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Principal causa de morte por um único agente infeccioso no mundo, superando até mesmo a Covid-19 (fora dos picos) e o HIV/AIDS, a tuberculose está está entre as dez doenças que mais matam no Brasil. Em Mato Grosso do Sul, os dados mostram que avanço dos casos e a dificuldade de diagnóstico e tratamento mantêm a doença como desafio de saúde pública, somente neste ano são 108 casos da doença.

Nesta terça-feira, 24 de março, é celebrado o Dia Mundial de Combate à Tuberculose, data que reforça a importância do enfrentamento da doença, mas evidência que o Brasil ainda está distante das metas de erradicação estabelecidas pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

A tuberculose é uma doença infecciosa grave, causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis (bacilo de Koch). Embora afete principalmente os pulmões, também pode atingir outros órgãos do corpo. A transmissão ocorre pelo ar, por meio de gotículas expelidas quando uma pessoa infectada tosse, espirra ou fala.

Tuberculose cresce 54% em MS

Entre 2012 e 2024, Mato Grosso do Sul registrou aumento expressivo nos casos de tuberculose. Em 2012, primeiro ano da série histórica, foram 920 novos diagnósticos. O número chegou a 1.662 em 2023 — o maior patamar recente — e recuou para 1.544 em 2024. Ainda assim, na comparação com o início da série, o crescimento acumulado é de cerca de 54%.

A incidência acompanhou essa tendência de alta, passando de 36 casos por 100 mil habitantes em 2012 para um pico de 55,6 em 2023, antes de cair para 48,7 em 2024. Dados mais recentes da SES (Secretaria de Estado de Saúde) apontam um total de 1.513 casos e coeficiente de incidência de 47,3 por 100 mil habitantes em 2025.

Entre os municípios com maior número absoluto de registros estão Campo Grande, Dourados e Corumbá, o que reflete tanto o tamanho da população quanto a concentração de serviços de saúde nessas localidades.

No Brasil, em 2024, foram registrados 85.936 novos casos — um aumento de 21%, o equivalente a quase 10 diagnósticos por hora. Em relação aos óbitos, houve crescimento de 32,6% em 15 anos, passando de 4,6 mil mortes em 2010 para uma estimativa de 6,1 mil em 2025. No mundo, 10,6 milhões de pessoas adoeceram e 1,3 milhão morreram por tuberculose em 2024.

Homens representam 75% dos casos em MS

Centro de Campo Grande
Centro de Campo Grande (Pietra Dorneles, Midiamax)

A tuberculose atinge principalmente homens adultos. Em Mato Grosso do Sul, eles representam cerca de 75% dos casos, enquanto as mulheres correspondem a 25% do total. Tendência que se repete no país, dos 84.308 novos casos registrados em 2024, 68,2% (57.506) ocorreram em pessoas do gênero masculino, mantendo o padrão observado nos anos anteriores — 69,2% em 2023 e 68,7% em 2022.

A maior parte dos pacientes está na faixa etária de 15 a 59 anos, com destaque para o grupo entre 40 e 59 anos. Já a idade média dos diagnosticados é de aproximadamente 40 anos em Mato Grosso do Sul, enquanto no país, a maior incidência compreendem a faixa etária de 20 a 34 anos.

Entre crianças, os casos são menos frequentes, mas ainda exigem atenção, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social, onde o risco de transmissão e agravamento da doença é maior. Por isso, é fundamental a aplicação da vacina BCG, que protege contra as formas graves da tuberculose — como a meníngea e a miliar — e deve ser administrada ao nascer ou, no máximo, até os quatro anos, 11 meses e 29 dias de idade.

Incidência de casos reflete desigualdades sociais

Exames no Lacen (Foto: Edemir Rodrigues – SES).

No Brasil, a tuberculose está associada não apenas a fatores individuais como imunossupressão, desnutrição e doenças crônicas, mas também a questões sociais. O boletim recente do Ministério da Saúde destaca que desigualdades econômicas e de acesso à saúde influenciam diretamente a distribuição e o controle da doença.

Em Mato Grosso do Sul, os dados mostram que incidência de tuberculose acompanha recortes sociais e raciais, o que evidencia um maior impacto sobre populações historicamente vulneráveis.

Ao longo da série histórica (2012–2024), pessoas pardas concentram a maior parcela dos casos e apresentam crescimento contínuo, passaram de 37,3% em 2012 para 53,1% em 2024, tornando-se maioria absoluta dos diagnósticos.

Os demais grupos apresentam a seguinte distribuição:

  • Brancos – 24,1%
  • Indígenas – 8,9%
  • Pretos – 5%
  • Amarelos – 1,3%

Além disso, o boletim aponta para fatores como renda, condições de moradia, acesso aos serviços de saúde e vulnerabilidade social como fator de risco para o adoecimento.

Em 2024, a tuberculose se concentrou principalmente em grupos de maior vulnerabilidade social:

  • Pessoas privadas de liberdade – 18,4 %
  • Pessoas vivendo com HIV/Aids – 14,3%
  • Indígenas – 8,9%
  • Pessoas em situação de rua – 5,3%
  • Profissionais de saúde – 1,1%
  • Imigrantes – 0,60%

Diagnóstico tardio dificulta controle

A forma pulmonar da tuberculose predomina em Mato Grosso do Sul, representando cerca de 86% dos casos. Já a forma extrapulmonar, que pode atingir órgãos como pleura, gânglios, ossos e sistema nervoso central, corresponde a aproximadamente 11% das notificações. Outros 2,93% dos registros apresentam as duas formas simultaneamente (pulmonar e extrapulmonar).

No estado, cerca de 73,5% dos casos pulmonares tiveram confirmação laboratorial. O uso do teste rápido molecular também avançou nos últimos anos e já ultrapassa 60% dos casos em 2024, ampliando a capacidade de detecção precoce da doença.

Apesar dos avanços, a Fiocruz alerta que ainda há desafios no acesso aos exames. Falhas na testagem podem levar a diagnósticos tardios ou baseados apenas em critérios clínicos, o que compromete o tratamento precoce e favorece a transmissão.

Tratamento é gratuito, mas abandono preocupa

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Uso de máscaras é recomendado em caso de sintomas. (Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

O tratamento da tuberculose é oferecido gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e dura, em média, seis meses, com o uso contínuo de antibióticos. Geralmente, o esquema básico envolve quatro medicamentos: rifampicinaisoniazidapirazinamida e etambutol, aliado ao TDO (tratamento diretamente observado).

Já na rede privada, o custo médio do tratamento pode chegar a R$ 11 mil, segundo dados da Planisa, que analisou 181 pacientes em todo o país.

Mesmo assim, a adesão ainda é um desafio. Dados do Ministério da Saúde indicam que a taxa de conclusão do tratamento no Brasil varia entre 63% e 79%, a depender do esquema terapêutico.

Opções mais curtas, como os esquemas 3HP (3 meses de isoniazida + rifapentina em dose semanal) e 4R (quatro meses de rifampicina diária), apresentam maior adesão.

Em Mato Grosso do Sul, cerca de 900 pacientes seguem em tratamento, mas os dados reforçam a preocupação com abandono. Em 2024, 60,6% dos pacientes com tuberculose pulmonar concluíram o tratamento com cura — o menor índice da série histórica analisada. Ao mesmo tempo, o abandono do tratamento chegou a 17%, um dos maiores patamares já registrados no estado.

A análise da série histórica mostra que, embora a taxa de cura tenha oscilado ao longo dos anos, entre 60% e 74%, o abandono segue em alta e com tendência de crescimento em períodos recentes.

Em 2020, por exemplo, o percentual de interrupção do tratamento foi de 15,7% e voltou a crescer após pequenas quedas nos anos seguintes. Já os óbitos seguiram estáveis, entre cerca de 5% e 8%, enquanto o coeficiente de mortalidade foi de 4,4 por 100 mil habitantes em 2024. As transferências de pacientes também apresentaram variação, chegando a 12,4% em 2023.

Entre os grupos mais vulneráveis, as pessoas em situação de rua concentram os maiores índices de abandono do tratamento, chegando a 47% em 2023. Em seguida, estão as pessoas que vivem com HIV, com taxa de abandono de 27,9% no mesmo período.

‘Tratamento é decisivo para recuperação’

Ilustrativa (Agência Brasil/Reprodução)

Segundo o Ministério da Saúde, interromper esse processo é um dos principais entraves para o controle da doença, pois pode provocar recaídas, favorecer o desenvolvimento de formas resistentes da bactéria e aumentar a transmissão na comunidade.

Maria Cecília Maiorano, coordenadora da pós-graduação em Pneumologia da Afya Educação Médica, destaca que o diagnóstico precoce é fundamental para melhorar esse cenário.

“O mais importante é que o paciente mantenha o tratamento de forma contínua e correta, seguindo rigorosamente a orientação médica. A adesão ao tratamento é decisiva tanto para a recuperação individual quanto para o controle da doença na população”, explica.

Coinfecção TB-HIV

Outro fator de preocupação é a coinfecção TB-HIV, que ocorre quando uma pessoa é infectada simultaneamente pela tuberculose e HIV. Nesses casos, a TB é a principal causa de morte entre as pessoas que vivem com HIV/AIDS. Isso porque o vírus compromete o sistema imunológico e facilita a progressão da forma ativa da doença.

Em Mato Grosso do Sul, a coinfecção TB-HIV gira em torno de 8,6%, enquanto a testagem para HIV alcança cerca de 81,5% dos pacientes com tuberculose.

Além disso, o Brasil permanece entre os países de alta carga de tuberculose e também integra a lista de nações com elevada incidência de TB associada ao HIV.

Sintomas e sinais de alerta

Doença afeta o pulmão
Doença afeta o pulmão (Ilustrativa)

Nem todos apresentam sintomas evidentes, um estudo publicado na plataforma ScienceDirect indica que uma parcela relevante dos casos pode evoluir de forma silenciosa, sem manifestações clínicas evidentes, o que compromete a detecção precoce e contribui para a manutenção da cadeia de transmissão.

Entre os principais sintomas estão:

  • Tosse por três semanas ou mais
  • Febre
  • Suor noturno
  • Cansaço excessivo
  • Perda de peso

No Brasil, o SUS (Sistema Único de Saúde) garante o diagnóstico gratuito, tratamento completo e acompanhamento dos pacientes. Por isso, a recomendação é que qualquer pessoa com sintomas procure uma unidade de saúde o quanto antes.

Conforme a SES, o tratamento está disponivel em todas as regiões do Estado, com acompanhamento regular das equipes de saúde para garantir a adesão e a cura do paciente.

“Durante o tratamento, as unidades de saúde realizam monitoramento clínico, exames de acompanhamento e, quando necessário, acompanhamento diretamente observado para assegurar o uso correto da medicação”, explica a pasa.

Desafios para erradicação

Leito-de-UTI
Internação (Divulgação)

Apesar das metas da OMS de eliminar a tuberculose até 2030, o Brasil ainda está distante desse objetivo. É o que aponta um estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), publicado no The Lancet Regional Health – Americas, que analisou os registros da doença no período de janeiro de 2018 a dezembro de 2023.

“As projeções para o período de 2024 a 2030 sugerem que as políticas públicas atuais, embora valiosas, não estão sendo suficientes para reduzir a carga da tuberculose”, destaca o autor da pesquisa, Bruno Bezerril.

Para a SES, entre os principais desafios estão:

  • Reduzir a alta incidência da doença;
  • Desigualdades estruturais nas condições de vida das pessoas;
  • Barreiras no acesso a bens e serviços essenciais;
  • Aumento do coeficiente de mortalidade;
  • Piora nos desfechos de tratamento, ou seja alta taxa de interrupção de tratamento;
  • É necessário implantar a vigilância do óbito por tuberculose;
  • Maior articulação da APS e Vigilância em Saúde;
  • Reddução da Coinfecção TB-HIV;
  • Aumentar os índices de Tratamento Preventivo da tuberculose;

As projeções indicam que, sem medidas mais efetivas, a incidência da doença pode chegar a 42,1 casos por 100 mil habitantes até 2030. Por outro lado, a pesquisa aponta que a ampliação da cobertura do DOT, o aumento da adesão ao TPT (Tratamento Preventivo da Tuberculose) e o fortalecimento da investigação de contatos poderiam reduzir esse índice para 18,5 casos por 100 mil habitantes.

“A tuberculose permanece como um importante desafio de saúde pública, sendo monitorada de forma permanente pelas equipes de vigilância epidemiológica em todo o Estado”, diz a SES.

Fonte:MM

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