Soube há pouco que o Léo foi fotografar no céu, numa manhã cinzenta que parecia pressentir a despedida. A notícia chegou pelo WhatsApp, pela neta Aline: “Seu Bosco, queria te pedir uma homenagem ao meu avô, Léo Produções. Ele lutou muito, mas hoje não resistiu.” E o coração da gente também não resiste quando parte alguém que ajudou a eternizar a nossa própria história.
Há quase dez anos ele enfrentava um câncer, travando batalhas silenciosas, suportando dores que raramente dividia. Passou por cirurgia delicada, ficou um mês internado na Santa Casa de Campo Grande. Voltou para Bonito frágil no corpo, mas forte na alma — acolhido pelo abraço solidário da cidade que ajudou a construir. Uma cidade que se mobilizou para concluir a casinha onde vivia com dona Dora, companheira de luta e de vida. Era assim: Léo nunca esteve sozinho, porque nunca deixou ninguém sozinho.
Léo Fotos, ou Léo Produções, era mais que um fotógrafo. Era a memória viva de Bonito. Quem não tem, guardada numa gaveta ou num porta-retrato, uma imagem assinada por ele? Arrisco dizer que metade da cidade já sorriu diante de suas lentes — em casamentos, aniversários, formaturas. Remanescente dos tempos do jornal impresso de Firmino Barros, o inesquecível “Cabeça de Leitoa”, contemporâneo de Dorival Conde, Léo foi testemunha ocular da transformação de Bonito — de vila tranquila a destino mundial. E, generosamente, registrou tudo.
Tímido, de fala mansa, alma leve. Solidário. Quantos jovens aprenderam com ele os segredos da luz, do enquadramento e, sobretudo, da generosidade? Nascido em Bela Vista, Leonardo Olmedo deixa uma filha de sangue e quatro “de coração”, como gostava de dizer, além de uma multidão de afilhados afetivos espalhados pela cidade. Seu legado não está apenas nas fotos, mas nos olhos que ensinou a ver.
Conheci o Léo nos anos 90. Ele já estava em Bonito havia uma década e carregava nos ombros sua inseparável Panasonic M9000, aquela filmadora S-VHS robusta, pesada, quase três quilos que, ao fim das festas, parecia pesar o triplo. Mas ele não reclamava. Sabia que ali estava a ferramenta para eternizar instantes. Foi pioneiro: primeiro a prestar serviços para a CVC, registrando os turistas que começavam a descobrir nossas águas cristalinas. Antes disso, ainda fundara a primeira casa lotérica da cidade. Empreendedor, visionário, trabalhador incansável.
Lembro-me do seu laboratório na rua Pilad de Rebuá. Entre negativos pendurados e cheiro de revelador, ele falava da fotografia como quem fala de fé. E talvez fosse isso: fé na vida, na beleza dos pequenos detalhes, na importância de guardar o que o tempo insiste em levar. “Sou feliz em ser fotógrafo”, dizia. “Ser fotógrafo é estar onde as pessoas estão, ver algo de maneira diferente e poder mostrar o meu olhar depois que tudo já passou.”
Hoje, quem nos mostra algo diferente é a saudade. Ela revela o quanto fomos privilegiados por termos sido vistos por suas lentes. O fotógrafo é o parceiro mais fiel do repórter — é ele quem captura a magia que as palavras tentam alcançar. Com Léo aprendi que a imagem também escreve, que a luz também narra.
Meu coração está de luto pela partida do amigo querido. Bonito se despede do homem que mais registrou seus amores. Talvez seja, de fato, o recordista de casamentos da cidade. Mas, acima de tudo, foi o fotógrafo da nossa memória coletiva.
Leonardo Olmedo, aos 68 anos, parte deixando um álbum infinito de histórias. Está sendo velado na Pax Mozart, cercado por familiares e amigos.
Que Deus o receba com a mesma luz que ele espalhou por aqui. E que, onde estiver, continue fazendo o que sempre fez: eternizando o amor.
Fonte: por Bosco Martins