Grades da estrutura foram desmontadas na terça (13), dado o aumento do volume do rio; engenheiro explica como passarela se sustenta, apesar da pressão
O volume das chuvas registradas no Paraná nos últimos dias provocou um aumento expressivo da vazão das Cataratas do Iguaçu. Na madrugada desta quarta-feira (14), o volume de água chegou a 15,5 milhões de litros por segundo. Como medida de segurança, o Parque Nacional do Iguaçu, retirou as grades da passarela e interditou as atrações .
A MetSul Meteorologia informou que o Paraná será o estado em que mais vai chover no restante de outubro. As projeções são de 100 a 300 mm para a maior parte da região, com algumas previsões indicando acumulados que podem chegar até 500 mm em determinados pontos.
Com uma maior quantidade de chuva, o volume do rio e da vazão das Cataratas do Iguaçu também sofrem um aumento. O maior pico registrado até o momento foi durante a madrugada, quando a vazão chegou a 15,5 milhões de litros por segundo.
Dentre as medidas de segurança adotadas pelo Parque Nacional do Iguaçu, estão a retirada das grades da passarela. Segundo o engenheiro civil Luiz Fernando Bernhoeft, a medida reduz a resistência que as estruturas oferecem à passagem da água. As grades também podem funcionar como uma espécie de peneira, retendo troncos, galhos e outros materiais arrastados pela correnteza.
“Durante as cheias, a estrutura precisa resistir a diferentes esforços, como a pressão da água contra os pilares, o impacto de detritos transportados pelo rio e a erosão da rocha ao redor das fundações. Além disso, a obra é feita dentro de um parque nacional, com acesso difícil e restrições ambientais, o que limita os equipamentos e os métodos que podem ser usados”, disse em entrevista ao iG.
Mas por quê as pontes não caem?
Entre as soluções de engenharia que podem ser empregadas em locais com condições geológicas desafiadoras estão as estacas raiz. De acordo com Bernhoeft, esse tipo de fundação utiliza perfurações de pequeno diâmetro, que atravessam o terreno e podem alcançar a rocha. Depois, são preenchidas com argamassa e armadura de aço.
A técnica apresenta vantagens em áreas de acesso restrito, como as encontradas em parques nacionais. Os equipamentos utilizados são relativamente compactos, o que facilita a execução dos trabalhos em espaços limitados. Além disso, a perfuração permite atravessar rochas resistentes, como o basalto presente na região das Cataratas do Iguaçu.
Outro benefício é a baixa vibração durante a execução, característica importante em áreas ambientalmente sensíveis. Quando adequadamente dimensionadas e executadas, as estacas também proporcionam ancoragem à rocha, contribuindo para resistir às forças laterais da água e aos esforços que podem atuar sobre a estrutura.
Infográfico explica cadeia de sustentação de passarela nas Cataratas do Iguaçu (Gerado com IA)
Histórico de vazões das Cataratas
De acordo com a MetSul, as Cataratas do Iguaçu já registraram vazões muito superiores à média de 1,5 milhão de litros por segundo. O máximo aconteceu em junho de 2014, com 46,3 milhões de litros por segundo, 30 vezes maior que a vazão normal.
Em 1983, durante um episódio de El Niño, a vazão alcançou 35 milhões de litros por segundo. Já mais recente, em 2023, as Cataratas atingiram 24,2 milhões de litros por segundo, também após uma sequência de chuvas intensas.
Como funcionam os protocolos de segurança?
O Rio Iguaçu conta com equipes técnicas que monitoram a vazão diariamente. Quando ela ultrapassa 8,5 milhões de litros por segundo, a passarela das Cataratas é fechada. Se esse número aumentar para 9 milhões de litros, com tendência de aumento, as grades são retiradas para que a água passe livremente.
A passarela só é reaberta quando a vazão retorna para a média de 8,5 milhões de litros por segundo e após uma avaliação técnica de um engenheiro especializado.
Quais são os riscos para a estrutura ao longo do tempo?
Mesmo com medidas preventivas, as estruturas expostas às condições das Cataratas estão sujeitas ao desgaste provocado pelo ambiente. “Os principais riscos são deteriorações dos materiais, no caso por exemplo do metal a corrosão), no solo, a erosão da base dos pilares e os danos causados por troncos e pela força da água em cheias extremas”, afirma o engenheiro.
A umidade constante e a névoa produzida pelas quedas d’água tornam a conservação dos materiais um aspecto importante da manutenção. Por isso, a segurança depende de inspeções periódicas, acompanhamento das condições das fundações e intervenções preventivas sempre que necessário.
Bernhoeft ressalta que não existe risco zero na engenharia. O objetivo é manter os riscos dentro de limites admissíveis por meio de projetos adequados, manutenção e protocolos de interdição. Para os visitantes, o fechamento preventivo da passarela é uma das principais medidas de proteção durante períodos de vazão elevada.
O engenheiro também destaca que as estruturas brasileira e argentina podem adotar procedimentos diferentes porque foram projetadas a partir de premissas específicas. Em outubro de 2023, uma cheia intensa arrastou parte da passarela do lado argentino, que permaneceu fechada por oito meses. Neste ano, as autoridades argentinas optaram por retirar grades e estruturas metálicas, mantendo os pilares de concreto.
No lado brasileiro, a retirada temporária das grades também permite preservar esses componentes e reduzir o risco de danos ou de serem arrastados pela correnteza, facilitando sua recolocação quando as condições voltarem a ser consideradas seguras.
Atrações interditadas do Parque Nacional do Iguaçu
A concessionária Urbia+Cataratas, responsável pela gestão da visitação turística do parque em conjunto com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, informou que os procedimentos de segurança estão sendo realizados pelas equipes do parque e pelos bombeiros civis do local.
Além da passarela, outras atrações também foram interditadas, como o Mirante inferior do Espaço Naipi, o Circuito São João, o Espaço Usina, o Caminho do Poço Preto, a trilha da Canafístula. O Caminho das Bananeiras já estava fechado para obras e somente a Trilha das Cataratas está disponível para visitação.
Fonte: ÚltimoSegundo