Ele desinventava para criar e gostava de escrever sobre o mais ínfimo, como o chão, as miudezas inúteis, meninos anônimos que peneiram a água e essas coisas do mundo que servem melhor como material de poesia
Ele foi chamado por muitos de excêntrico, e preferiu o isolamento na natureza pantaneira à vida de literato nas cidades. Vivia entre o material da própria poesia: pedras e insetos, sapos, palavras. Palavras que frequentemente não se podiam encontrar nos dicionários.
Com uma recusa própria de quem desinventa para criar, Manoel Wenceslau Leite de Barros (ou simplesmente Manoel de Barros) fez sua própria língua portuguesa na poesia. Nascido em 1916, em Cuiabá, ele gostava de escrever sobre o mais ínfimo, como o chão, as miudezas inúteis, meninos anônimos que peneiram a água e essas coisas do mundo que servem melhor como material de poesia.
Manoel de Barros se aproximou da Geração de 45 na literatura, a terceira fase do Modernismo brasileiro, marcada por uma ruptura com as gerações anteriores e uma valorização maior do experimentalismo neologista na poesia e na prosa, além de temas mais localizados e psicológicos.
Mas ele não fica muito próximo da tradição: apesar de ser neologista nato, Manoel se aproxima mais da recriação de velhas estruturas poéticas, porque é quase uma máquina de fazer sons e significados — reimaginando-os a partir de um olhar infantil, de “coisa” mais que de sujeito do idioma. Interpretando a linguagem da natureza e do mais onírico, a poesia de Barros, como diria o crítico literário e ex-ministro da Cultura Antônio Houaiss, guarda uma “razão ética e estética” muito firme em si mesma, radical na medida do que pode se tornar radicalmente simples (o que é também um exercício de muita dificuldade).
Ganhador duplo do Prêmio Jabuti — uma em 1990, com O Guardador de Águas; e outra em 2002, com O Fazedor de Amanhecer, que ganhou o livro do ano em ficção —, também recebeu o Prêmio Nacional de Literatura do Ministério da Cultura (pelo conjunto da obra) e distinções da Academia Brasileira de Letras e de fundações culturais regionais.
Para Drummond, Manoel se aproximava muito de ser “o maior poeta vivo”.
Ele brincava com as palavras — “Tudo que não invento é falso”, “Maior que nomear é aludir”; “Sábio é o que adivinha”; “Tem mais presença em mim o que me falta”.
Em O Livro sobre Nada, de 1996, ele confessa: “O que eu gostaria de fazer é um livro sobre nada. Foi o que escreveu Flaubert a uma sua amiga em 1852.” Mas o “nada” do seu livro, diz Manoel, é diferente do de Flaubert, que queria preservar um estilo interessante por si mesmo, sem narrativas empenhadas. No seu caso, o “nada” era “nada mesmo: coisa nenhuma por escrito”.
“O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora.”
Por exemplo: a arte de infantilizar formigas. Ou escrever num dialeto arcaico: o manoelês, que significa “apreciar uma desviação ortográfica para o arcaico”, sem realmente conservar o formalismo inacessível dos arcaísmos.
O mais interessante da obra manoelística é usar as palavras para mudar as coisas por dentro, na sua lógica interna de funcionamento — um verbo para falar do que não tem, ou “descortinar o arcano”, a magia que as coisas nem sabiam que tinham. Que é o trabalho humano de imaginar para além do que existe no que se vê.
Mas é um trabalho de similitudes, tanto quanto o homem se limite por elas: semelhanças que dão a umas coisas as propriedades de outras e vice-versa, tudo para o trabalho da literatura. Quem acumula muita informação, diria Manoel, “perde o condão de adivinhar: divinare“.
Após ter estudado Direito no Rio de Janeiro — período em que se filiou ao Partido Comunista, com o qual viria a se desiludir —, morado na Bolívia, no Peru e nos EUA, onde fez um curso de artes plásticas e de cinema, Manoel de Barros passou grande parte da vida em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, em suas fazendas pantaneiras. Lá, vivia isolado das grandes cidades, perto da natureza.
Seu primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado (1937), passou praticamente despercebido. A crítica literária estava muito concentrada no eixo Rio–São Paulo. Ele passou décadas sendo lido por poucos, mais em círculos regionais do que aparecendo em jornais ou revistas de literatura. Alguns críticos o viam como muito excêntrico ou folclórico, pouco engajado em temas do mundo real. Havia quem considerasse Manoel de Barros um “poeta menor”. Título que ele, aliás, adoraria.
O olhar público às obras começou a mudar a partir de Gramática expositiva do chão (1966), vencedor do Prêmio Nacional de Poesia, e, mais tarde, O Guardador de Águas (1989), vencedor do Prêmio Jabuti.
Manoel de Barros, que se casou com a esposa Stella em 1947, com quem teve três filhos, faleceu em Campo Grande, em 13 de novembro de 2014, aos 97 anos.
Cronologia de obras
- Poemas concebidos sem pecado (1937) — primeiros sinais de um vocabulário próprio.
- Compêndio para uso dos pássaros (1960) — um dos primeiros livros que ancoram o trilho pantaneiro.
- Gramática expositiva do chão (1966) — consolidação da poética do chão e do léxico inventivo.
- O guardador das águas (1989) — livro premiado que projetou Barros em maior escala.
- O livro das ignorãças (1993) — exercício de humilhação e encantamento da linguagem.
- Livro sobre nada (1996) — obra-ícone: livro que sintetiza a filosofia da «invenção do nada» e ampliou sua difusão.
- Retrato do artista quando coisa (1998) — metáfora da “coisa” como identidade poética.
- Exercícios de ser criança (1999) — aproximação deliberada com o universo infantil e com prêmios na área infantojuvenil.
- O fazedor de amanhecer (2001) — outro livro de destaque e vencedor do Jabuti em 2002.
- Poemas rupestres (2004) — livro celebrado pela crítica e premiado.
Fonte: Forum